Um ano sem Antunes Filho

JOSÉ SIMÕES (Blog do Simões) –  Cada vez que o Teatro perde um artista, o teatro se renova e outros ocupam o seu espaço.  Não há nada incomum nisso, principalmente, para profissionais cujo trabalho está lastreado no efêmero.

Há vários relatos de atores e atrizes que morreram e foram substituídos em seus papéis e os espetáculos seguiram em cartaz.  É parte do processo da criação teatral que as personagens tenham vida para além daqueles que os interpreta.

O teatro é avesso à qualquer tipo de registro que tenha intenção de dar sobrevida ao que é vivido na sala de espetáculo, no lugar teatral.  A qualquer tentativa que deseje manter vivo aquele momento/tempo/espaço. Quando isso acontece ela é fortemente refutada: não é teatro. O teatro se sustenta  nas relações humanas aqui e agora. Num encontro com hora marcada. Fora disso é outra coisa. Cinema, fotografia, vídeo, etc.

Isso não significa que não sejam importantes  os registros fotográficos,  os escritos, depoimentos, as gravações das peças em vídeos e os filmes dos espetáculos. Tais registros são importantes para a história do teatro, para a memória do Teatro, das Artes e da Cultura.

Viva a memória do teatro. Me surgem a mente nomes como: Francisco Correa Vasques (ator Vasques), João Caetano;  Araci Cortes, Dercy Gonçalves, Grande Othelo, Cacilda Becker, Paschoal Carlos Magno, Italia Fausta, Procópio Ferreira, Dulcina de Moraes, Sergio Cardoso, Augusto Boal, Paulo Autran, Bibi Ferreira, Marília Pera,  e muitos outros, homens e mulheres artistas, que são a base da história  do Teatro que temos hoje no país. (No momento penso que deveria escrever mensalmente sobre a vida e o trabalho desses nomes no blog. Para aquecer a memória dos jovens artistas)

O diretor Antunes Filho morreu no dia 02 de maio de 2019. Um ano sem o mestre Antunes Filho e a sua irascível genialidade. Uma carreira vigorosa como diretor teatral. Foram vários espetáculos emblemáticos. Dono de um rigor cênico que se notabilizou pelo recurso do tableaux vivant. O espetáculo Macunaíma se encontra entre uma das mais belas encenações nacionais.

Muito além da função de diretor teatral Antunes Filho se notabilizou pela busca incansável de um método para a formação do ator. Investiu grande parte do tempo na busca pela sistematização de processos que resultassem na formação de artistas para o teatro. Homens e mulheres dedicados e conhecedores  da linguagem na/pela cena teatral. Despidos das vaidades caricatas, dos gracejos superficiais, dos gestos clichês e de formulas corporais baratas que infestam os palcos.

Não é à toa que do seu convívio saíram atores com bons recursos cênicos. Capazes de enfrentar o palco e o ofício teatral sem pestanejar. Voz, presença cênica, corporeidade mas, principalmente, com a formação humana voltada para a criação e a vivência teatral.

Para Antunes Filho não existia a dissociação entre  a vida vivida e ordinária do dia a dia e o interprete em cena. O ator é um sacerdote no palco e na vida.  O artista é uno. É bem por isso que ele deveria estar o tempo todo em sintonia com todas as manifestações artísticas: Artes Visuais, o Cinema, a Literatura e, principalmente, os modos de percepção do ser humano no mundo, seja pela meditação, ou seja pela filosofia.

Nos deixou o legado que deve ser investigado e retomado para a formação de futuros artistas do palco. Entretanto a sistematização do  método  estava por demais associada a personalidade criadora de Antunes Filho. Não basta repetir os exercícios que ele propunha. Os exercícios desconectados do conjunto  do pensamento são metaforicamente “ocos”. Este é um enorme desafio.

O crítico teatral Sebastião Milaré foi o pesquisador que mais se aproximou da obra e, também, do método de Antunes Filho.

Para aguçar a curiosidade eis alguns trechos de entrevistas de Sebastião Milaré com comentários acerca do trabalho de Antunes Filho.

Que o legado de Antunes Filho renasça quando a pandemia passar.

Fotos: Raul Teixeira

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Antunes sempre colocou Nelson Rodrigues ao lado de Shakespeare. Creio que ninguém mergulhou tão profundamente no universo rodriguiano quanto Antunes Filho. Ali nas profundezas não encontrava as trevas, mas as luzes de imenso entendimento do ser humano; não encontrava mistérios ou anedotas, mas insólitas revelações da condição humana. Por isso se recusava a admitir serem essas obras simples “comédias de costumes”. Não ficava na superfície, onde há a aparência do prosaico, insinuações de vulgar erotismo, ia lá no fundo, onde essas aparências e insinuações se revelam dados metafísicos. Isso desde a sua primeira abordagem, que foi a encenação de A falecida, com alunos da EAD-Escola de Arte Dramática, em 1965. Tinha início, nessa montagem, o absoluto despojamento da cena, para que o ator constituísse apenas com corpo, voz e sensibilidade o poema cênico. Eram os primeiros passos na pesquisa que, décadas depois, resultaria em método para o ator. Independente de encenações de obras rodriguianas, Nelson Rodrigues sempre esteve presente, de uma ou de outra maneira, nas prospecções estéticas de Antunes.( http://especiais.ne10.uol.com.br/nelson/entrevista-sebastiao-milare.html?iframe=true&width=780&height=580)

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Antunes deixa claro que, para fazer teatro, você pode dispensar cenário, luz, figurino, até o texto. Mas sem ator não tem teatro. Antunes fez no Brasil a mesma coisa que outros da geração dele, fora do Brasil, como Jerzy Grotowski e Eugenio Barba. Antunes fazia um trabalho sintonizado com tudo isso. Sempre briguei muito com essa história: “Ah, o Antunes está fazendo Grotowski”. Não está fazendo Grotowski! Ele bebe nas mesmas fontes, porque é da mesma geração, tem a mesma inquietação, o mesmo espírito do tempo o está dominando.(https://www.revistacontinente.com.br/edicoes/149/ro-teatro-tem-que-imprimir-algo-na-almar)

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O ator tem que lutar para terminar com todos os bloqueios, tanto no físico quanto no espírito. Para o corpo, há uma carga extraordinária de exercícios, até que ele fique destravado e obedeça a um comando qualquer que você dê. O corpo não pode ter tensões desnecessárias. Ombros duros acabam com a respiração. Quando o ator consegue chegar a um estado de relaxamento ativo, consegue ter domínio da respiração. E quando há domínio da respiração, ele consegue tudo. Porque, para Antunes, ator é respiração. E, por outro lado, a questão do intelecto, da psique, do espírito. O ator tem que ser desbloqueado. Temos muitas travas culturais, preconceitos. O ator não pode ser assim; é a mesma coisa de ter travas no corpo, a trava de um pensamento condicionado a certas manias. Acaba com a possibilidade de criação. Então, para isso, é preciso muita leitura, conversa e um permanente trabalho de autoconhecimento. O processo do Antunes está atrelado ao processo de individuação, como prega Jung. (https://www.revistacontinente.com.br/edicoes/149/ro-teatro-tem-que-imprimir-algo-na-almar)

Um comentário em “Um ano sem Antunes Filho

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  1. Tenho um amigo que sempre falou que Antunes fazia um carnaval com 3 ou 15 atores…

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