Os hóspedes e o vírus (Parte IV)

CARLOS ARAÚJO (Blog Outro Olhar) – O amanhã veio com mais problemas para os hóspedes do hotel durante a pandemia. De repente, um novo grupo de vinte pessoas se reuniu em frente à entrada do prédio. Vinham de outra parte da cidade e pediam abrigo. Entre eles havia quatro crianças e dois idosos. Abandonaram o abrigo no galpão de uma antiga fábrica porque faltou comida e agora precisavam de um local em condições de recebê-los. Suplicavam ajuda para garantir uma sobrevida.

O comando de sobrevivência dos hóspedes avaliou que dar abrigo ao novo grupo comprometeria o estoque de alimentos. As provisões eram suficientes para dez dias e a integração do novo pessoal reduzia o prazo para sete dias. Houve um debate. Uns argumentaram que não podiam sacrificar os hóspedes. Outros disseram que não era certo deixar o pessoal lá fora morrer de fome.

A jornalista foi decisiva quando se manifestou chocada com a mínima existência de alguma dúvida quanto à obrigação de ajudarem os desabrigados. “Não é humano pregar uma solidariedade para a sobrevivência do nosso grupo e deixar que os outros morram lá fora, mesmo que isso comprometa as nossas reservas de alimentos”, ela decretou.

Uma voz se levantou para dizer que podia haver infectados entre os que pediam ajuda. E o mais complicado era que nessa hora esse tipo de constatação não podia ser feito. Por enquanto não havia como fazer exames. A jornalista rebateu: “Entre nós, os hóspedes, também pode haver novos infectados e não temos como confirmar isso. Todos corremos riscos e isso não é fator que possa ser usado como justificativa para a falta de solidariedade.” O debate se encerrou e o comando de sobrevivência dos hóspedes concluiu pela autorização de abrigo ao novo grupo.

Havia espaço físico suficiente para abrigar os recém-chegados. Eles agradeceram a solidariedade. Disseram que vagavam sem rumo há horas, bateram em várias portas e todas lhes negaram abrigo. No instante em que chegaram à frente do hotel já estavam cansados, sem forças. Após os discursos de agradecimento, recolheram-se aos  quartos.

O contato com o novo grupo proporcionou aos hóspedes o conhecimento atualizado do tamanho do estrago causado pelo vírus em todo o mundo. A situação era muito pior do que podia ser imaginada. Os países fecharam todas as fronteiras, as viagens aéreas estavam canceladas, o comércio estava totalmente fechado. Só funcionavam atendimentos de emergência em hospitais, farmácias, supermercados. Hospitais de campanha eram providenciados em campos de futebol como nos tempos de guerra. As cidades vazias faziam recordar os filmes de terror. Os governos de todo o mundo estavam perdidos como reféns da pandemia.

As autoridades oficiais faziam campanhas que pediam à população para ficar em casa. Recomendavam que não havia motivo para pânico. Mas era impossível não sentir medo. Cada um reagia de forma diferente: uns rezavam, outros choravam, muitos fugiam e havia os que ficavam paralisados, sem ação. Agora, não adiantava entrar em desespero. Não havia para onde fugir num cenário global com milhares de infectados e de mortos. O vírus estava em toda parte e ser contaminado ou não era uma questão de sorte, cuidados com as orientações preventivas, resistência corporal.

Um grande número de pessoas para controlar traz desvantagens e exige responsabilidade, mas o leque de diversificação dos perfis também é ponto positivo. Entre todo o pessoal confinado no hotel, somando os hóspedes originais e o novo grupo, havia criaturas de diversas nacionalidades e profissões e isso fez a diferença no restabelecimento das comunicações no hotel.

Um chinês, que era fera em novas tecnologias, religou todos os sinais de comunicação do hotel. Internet e celulares voltaram a funcionar e a novidade foi marcada por grande comemoração. Mesmo em meio ao caos, uma pequena vitória como essa tinha significados imensos.

O chinês concluiu que a causa da pane nos sinais de comunicação não era de ordem técnica. As comunicações tinham sido desligadas intencionalmente pela gerência do hotel como parte do plano de evitar que os hóspedes tivessem contato com informações externas e entrassem em pânico. A descoberta causou revolta, mas os responsáveis tinham desaparecido e não podiam ser punidos.

Com as comunicações normalizadas, a jornalista que orientava o grupo de comando de sobrevivência no hotel voltou a postar na internet gravações sobre o ambiente interno e as regiões próximas. Outros hóspedes faziam lives para tranquilizar suas famílias nos países de origem e ao mesmo tempo pediam missões de resgate aos seus governos. Falavam da agonia com a previsão de que em alguns dias acabaria a comida e alertavam que não havia outros meios de obter alimentos porque o dinheiro também estava no fim. E os poucos supermercados abertos podiam ficar desabastecidos a qualquer momento.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Tema: Baskerville 2 por Anders Noren

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: