Os hóspedes e o vírus (Última parte)

CARLOS ARAÚJO (Blog Outro Olhar) – A jornalista que liderava o comando de sobrevivência dos hóspedes era a brasileira Júlia Medrado. Pela primeira vez na vida ela sentia o medo numa dimensão muito além do limite tolerável. “Quanta fragilidade”, ela pensou, ao levar em conta o contraste entre a capacidade do homem de construir a maior máquina de guerra da história e todo esse poder não ser suficiente para o combate ao inimigo invisível.

O homem inventou a bomba atômica, pensou Júlia, mas não tem vacina para eliminar o vírus. Como há mais de cem anos, na gripe espanhola, só tem a máscara como tentativa de escudo e a higienização com álcool em gel como recurso precário de prevenção. Quanta ilusão de poder. O vírus veio para desmascarar a fragilidade humana e essa é uma lição terrível.

Mas não havia tempo para pensar muito. As ações do grupo de comando de sobrevivência começaram rapidamente. A prioridade foi recorrer às embaixadas mais próximas e solicitar resgates por via aérea. Os hóspedes ansiavam por cumprir regras de quarentena nos seus locais de origem. Ficavam aterrorizados com a ideia de permanecer por tempo indeterminado numa terra estranha e sem os recursos básicos de moradia e sustento a que tinham acesso nos seus países.

Repatriar não era um processo fácil. Exigia uma série de contatos, pressões, paciência. O governo norte-americano foi o primeiro a enviar um avião para resgatar os seus cidadãos entre os hóspedes do hotel. O governo brasileiro inicialmente vacilou com o argumento de que a operação teria custo alto, mas foi vencido pelos exemplos de outros países e logo também providenciou o envio de dois aviões para resgatar pessoas de nacionalidade brasileira.

Júlia e outros hóspedes, assim que desembarcaram no Brasil, tiveram que cumprir a quarentena de quinze dias para serem liberados depois que, ao fim desse período, não manifestassem sintomas da doença. E assim foi feito.

No dia em que entrou em casa após a longa aventura da viagem em condições de pandemia devastadora, Júlia iniciou outro período de confinamento. O mundo agora se resumia ao panorama visto da janela e a comunicação se limitava à televisão, à internet e às redes sociais. Só saía para se abastecer no supermercado. Viver assim exigia um novo tipo de aprendizado em comportamento. Era como se o destino tivesse preparado um encontro com o “eu” interior e ela não tinha escolha.

Morava sozinha e não tinha animal de estimação. Os contatos com grupos de WhatsApp, os memes, as lives de todo tipo, os filmes e as séries da Netflix, os livros, tudo isso ajudava a passar o tempo e diminuir o tédio. Mas nada resolvia o problema da solidão.

Acompanhava as notícias com grande apreensão. Sofreu demais quando viu as cenas de pessoas pedindo socorro por atendimento de parentes em hospitais lotados, quando viu vítimas do coronavírus serem enterradas em valas comuns em Manaus, quando viu imagens de sacos com corpos empilhados em corredores de unidades de saúde porque os espaços estavam saturados, quando viu os cenários de muitas covas abertas em diferentes cemitérios do país como preparação para o sepultamento das próximas vítimas. Então, Júlia apelou para o socorro divino: “Meu Deus, o que será de todos nós?”

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