O pastor e suas ovelhas

CARLOS ARAÚJO (Blog Outro Olhar) – Era um lugar muito distante. A época não é identificada ao longo da história da civilização. No calor de uma guerra que matou milhares de soldados, um combatente perguntou ao comandante o que ele achava do número de mortes que já superava o de outras guerras.
“E daí?”, disse o comandante. “Estamos na guerra. Ou vocês pensam que isso aqui é um parque de diversões? Todo dia morre gente e as pessoas nasceram para morrer mesmo. Uns morrem cedo, outros morrem de velhice. E sempre acontecem guerras. A história é movida à espada, e não no embalo da poesia. Morre e vai morrer muita gente mesmo. E você pode ser a próxima vítima se ficar aí com mimimi. Paciência, pô. Ninguém entra na guerra pra se divertir. E não é culpa minha. Eu não inventei isso daí. Deixa de ser chorão e vá matar o inimigo. Esse é o jogo da guerra. Isso é o que eu faço e recomendo. Morre gente todo dia aos milhares. Morrem pais de família, idosos, jovens, soldados na linha de frente. É pra isso que estamos aqui. Esse é o destino de todos nós. Está morrendo mais gente? Essa é a medida da nossa eficiência no campo de batalha. E daí, camaradas? E daí?
O soldado que fez a pergunta ficou chocado com o discurso de desprezo pela vida pronunciado diante de toda a tropa. Mas não foi além do lamento, do repúdio, da indignação. Todos os outros soldados tiveram a mesma reação. Ninguém foi além do pensamento crítico e da revolta contida. Ninguém teve a coragem de transformar o nojo em punição ao chefe da tropa. Os soldados renderam-se à obrigação de respeitar a hierarquia e a disciplina de comando.
Essa inércia teve o mesmo efeito de um sonoro e cortante “e daí? como reação da tropa. A frieza do comandante era o reflexo da covardia humana. Da sua segurança na retaguarda, ele esbravejava como um lunático. Sorria ao ruído ensurdecedor das explosões e dos gritos dos moribundos. Suas ordens de avançar se resumiam ao comando de voz. Jamais acompanhava os soldados na linha de frente dos combates.
Na sequência da guerra, as mortes aumentaram ao ponto de o campo de batalha se transformar em mar de sangue e de corpos empilhados. A essa altura da catástrofe, o comandante tinha o olhar altivo de um pastor de ovelhas. E os soldados o seguiam e se sacrificavam como dóceis ovelhas prontas para o abate.
“E daí?”, continuava a vociferar o comandante militar em meio ao sofrimento e à dor dos soldados.

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