Eu quero uma casa no campo. A filosofia de Epicuro

FREDERICO MORIARTY – Quintus Horatius Flaccus, poeta romano dos fins da República e início do Império, tem duas palavras insertas num verso do seu “Carminum I, 11” muito conhecidas e decerto pouco entendidas: 

Dum loquimur fugerit invida aetas: carpe diem, quam minimum credula postero.

Enquanto dialogamos, o invejoso tempo nos deixa: captura-o, não acredites no amanhã.

Carpe Diem. Ela aparece em filmes, músicas, rocks, quase sempre confundindo hedonismo com o sentido epicurista que nos dá Horácio.

Raul Seixas dizia que mais vale dez anos a mil do que mil anos a dez.

O filme O Império dos Sentidos, nos anos 70, contava a história de um casal de amantes que aos poucos deixava de lado toda sua vida normal – trabalho e afazeres de casa – , em função do prazer sexual de ambos. The Who cantou ” I hope I die before I get old” nos anos 60.

O casal, de tanto excesso de virtudes oferecidas pelo deus Eros, acaba abraçando Tanathos, o deus da morte. Os líderes da banda inglesa hoje são senhores quase octogenários que vez ou outra fazem shows caça-níqueis para enriqueceram um pouco mais. Não digo que discordo, mas isso é hedonismo e não o sentido maior de prazer em Carpe Diem.

O busto de Epicuro (Wikipedia)

O rival de Virgilio na Roma antiga pregava outro entendimento de Carpe Diem. Aproximava-se do pensamento de Epicuro. Para este filósofo materialista, o homem pra reduzir a dor (que é inexorável) e o sofrimento da morte inevitável, deve buscar os prazeres da vida no presente. E eles virão da conjunção de corpo e espírito. Dizia que nosso corpo era como uma casa e nosso espírito como o jardim que a rodeia. Assim, alimentar o corpo e alma seria uma forma de manter o equilíbrio interno.

Não se deve esperar do amanhã as respostas ao sofrimento, não se deve entregar a Deus uma esperança na salvação, não se deve consumir mercadorias para preencher nosso vazio sentimental, moral e material (palavras dele).

São os prazeres não instantâneos, pouco fugidios, àqueles administrados pela razão, pela consciência da finitude humana, pela vontade de realizar seus sonhos; pois nada há a perder, a não ser a vida. Não são os excessos como “ ganhe sua grana e torre tudo”, mas sim o cultivar dos prazeres frugais.

O homem deve buscar a liberdade, a amizade e o conhecimento. Assim seu jardim estará sempre florido. O homem que se excede não captura o dia, apenas encontrou uma forma de tentar ludibriar a morte; o homem que se tranca sem jardim, acredita que nunca irá morrer. Por isso tanto sofrimento, tanta tristeza, tanta solidão talvez porque antes não existia antidepressivos, essas pílulas mágicas da paz e amortecimento comprado.

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Eu sempre fiz minhas escolhas. Busquei ser livre. Fracassei muitas e muitas vezes (e ainda fracasso), entretanto meu maior erro sempre foi não aceitar minha liberdade e esperar que os outros a aceitassem.

Quanto às amizades, tive muitas. A maioria falsas e fugidias. Umas poucas, muito poucas, permaneceram por décadas. Pouquíssimas sobreviveram à Pandemia. Um jardim difícil de florir. Algumas novas surgiram e completam meu jardim que andava meio suspenso. Outras que foram separadas por muito tempo, que talvez nem fossem amizades lá atrás, mas que atualmente, por uma conjugação de fatores, arrancaram as ervas daninhas do meu jardim, as que me cegavam e me impediam sentir a manhã. Sem inveja do tempo, uma amiga que se foi, meteu um facão no mato denso e escurecido da minha vida.

Mas para se cultivar amigos, amores e jardins talvez o caminho esteja no “fugere urbem” do Arcadismo. Como dizia Elis Regina, nessa Selva de Pedra de São Paulo é que não vai brotar nada. Mas, vez ou outra, vejo uma pequena árvore em meio ao concreto das pontes imundas da metrópole. E não há música mais Carpe Diem e pastoral que o velho Rock Rural de Sá, Guarabira & Zé Rodrigues “Uma casa no campo”.

Um lugar onde meu filho possa ter a cuca legal e eu plante meus amigos, meus discos, meus livros e nada mais. Plantei meus discos e livros, estou longe dos amigxs queridos, distanciado social e de coração, as cucas das minhas filhas ainda estão a descobrir a vida. Então dá saudade e melancolia dessa vida tão curta que não vivi.


Também há o amor. E nesse sou intenso. Amo Luana com todas as minhas forças. E virei uma espécie de São Sebastião. Apanho de tudo quanto é lado. Dão-me flechadas, mutilam meus braços, querem até decepar minha cabeça. Maria Cristina diz pra não ligar, pra ouvir meu coração. E tento ficar surdo aos soldados romanos.

Preenchi meu espírito com as letras, com os sons, com a música. E fiquei cada vez mais perdido. Quis tanto dar um sentido para o futuro que me esqueci de capturar o presente.

Um dia dá um estalo na gente. Uma hora alguém abre a janela. Então olhamos pro jardim e as coisas parecem tão simples. Não há necessidade de tatuar Carpe Diem no corpo, ele está na alma.


A luta por um grande amor, Luana, me deu as duas princesas da minha vida, as gêmeas Júlia e Laura. Multiplicaram por mil minha alma, encheram de flores e alegrias o coração vilipendiado. Para mim foi permitido viver este grande amor, agora elevado a enésima potência, o que deixa meu espírito recheado de sentimentos e esperança. Porém como nunca sabemos a hora de partir e poderá a morte física vir antes da morte do amor, prefiro deixar a vida tomada de flores, aproveitando o presente e vivendo essas três vidas que fizeram minha existência completa.

E o que é melhor? Questionei. Colocar poucas flores no jardim e morrer com medo da morte, ou rechear de alegria nossa vida, mesmo que morramos sufocados pelo odor dos perfumes da existência? O mais puro remédio é o Carpe Diem, a vida da alma, o tempo que apague o medo da morte e que esta seja e me encontre rodeada de amores, filhas, amigxs verdadeirxs, flores e pensamento.

In Memoriam Rose Rinaldi 😪

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