Janela de outono

CARLOS ARAÚJO – Da janela olho para a avenida na madrugada fria. Passam uma moto, um automóvel, um homem a pé. Um ciclista empurra a bike no trecho de subida. Tudo parece tranquilo. Nenhuma ameaça à vista. E pensar que a grande ameaça não é visível.
Recomendam ficar em casa. Outros dizem que é possível sair desde que se use máscara. Fico em dúvida se o vírus pode entrar pelos olhos. Fecho também a janela. Medo de o vírus entrar por uma fresta.
Há cinquenta dias não saio de casa nem ao menos para ir ao supermercado ou à farmácia. Recebo alimentos e remédios via delivery. Os entregadores deixam os produtos numa caixa de metal junto ao portão. Pago as contas por aplicativos.
A comunicação com os poucos amigos é feita por WhatsApp. As companhias virtuais ajudam a passar o tempo. O humor dos memes às vezes faz a gente rir em meio à tristeza causada pela contagem diária de mortes. O riso sai e é sufocado por uma estranha sensação de culpa.
Penso que o vírus pode entrar pelo ar no interior da casa e aí os cuidados serão inúteis. Contenho o impulso de me render ao desespero e abrir a porta e sair à rua sem máscara como se não houvesse amanhã.
Ainda estou aqui. Ainda não fiz nenhuma bobagem. Ainda consigo controlar o medo de ficar doente e ter que ser intubado e enfrentar o drama de não encontrar vaga na UTI e morrer sem ar por falta de respirador.
A tragédia humana me deixa muito mal. As milhares de covas abertas com antecedência à espera dos novos corpos são imagens que dilaceram a alma. E o presidente sorri, faz piada, passeia de jet ski, debocha da agonia de um país em luto.
Incrível como os dias de outono são lindos. Contraste da natureza com os tempos da pandemia. É como se o meio ambiente seguisse o seu ritmo em outra sintonia.
Amanhã será outro dia. Nunca a incerteza da vida foi tão intensa como agora. Sinto a urgência de viver que arrebata o condenado momentos antes do fuzilamento. É como se o tempo estivesse mais escasso. Sinto um medo terrível de não existir o amanhã.
E eu ainda consigo me isolar porque sou aposentado. Penso no risco de muita gente que entra nas aglomerações de ônibus e trens lotados para se dirigir ao trabalho. Penso no desespero de quem não tem emprego e nenhuma renda e se desespera com a fome. O desamparo é angustiante.
As coisas já estavam difíceis antes da pandemia e se agravaram muito com a desgraça do vírus. As mobilizações de ajuda aos necessitados ainda são tímidas. É como se a gente vivesse uma guerra jamais vista, jamais imaginada.

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