Rei Pelé: (quase) 80 anos

FREDERICO MORIARTY – Quarta feira, 19 de novembro de 1969. Eu estava prestes a completar 2 anos de idade. O Jornal Nacional noticiava a segunda viagem do homem à Lua. Mas nada superava a ansiedade em assistir o jogo pelo Roberto Gomes Pedrosa, o Brasileirão dos anos 60. De um lado do Maracanã, o Vasco da Gama. Doutro, o imortal Santos Futebol Clube. Em campo, o sobrenatural rei do futebol. Aos 33 minutos do segundo tempo, sob protestos de 1 milhão de esmeraldinos, o árbitro marca pênalti para o alvinegro praiano. O tempo retrocedeu.

À beira do gol mil (Foto: jornal O Estado de S. Paulo)

Num recôndito tricordiano qualquer, cercado de cachorros do mato e gatos arredios, há 80 anos, dona Celeste gritava de dor. Chovia pedregulhos naquele dia, o céu estava tempestuoso. Dondinho chutava fantasmas invisíveis pela sala, desesperado. Era tarde, a parteira suava de cansaço. Veio um raio, daqueles fortes, de partir carvalho ao meio. Logo depois o estrondo. Nesta hora, tudo acalmou, as nuvens se desfizeram, o sol foi saindo, as dores cessaram e dona Celeste pois um menino no mundo.

O pai, eufórico, deu um pulo e socou o ar de punho fechado “vai chamar Édson”, e assim foi escrito (meteram-lhe o patronímico da mãe e do pai pra completar). Virou Edson Arantes do Nascimento. Cresceu correndo atrás de bola, queria ser como o pai. Corria tanto, que aos 9 de idade os meninos de 16 o proibiram de passar do meio campo pra frente – injusto com eles, diziam. Aos seus 16, ele saía da cidade caipira paulista (mais famosa pelo sanduba de queijo e pepino do que pelo menino), para morar na praia. Ali ficou 18 anos, virou Rei e tornou-se história.

Um dia, eu sentado num consultório médico, esperando o atendimento após duas horas de atraso, encafifei de ler uma revista Time novinha ( de uns parcos 10 anos antes). Era um texto do Henry Kissinger. O secretário de estado americano nos anos 60 e 70 dissertava sobre três negros fenomenais do esporte mundial e pretendia escolher o maior de todos os atletas da história. Um era o bailarino do boxe, Marcelus Cassius Clay (Muhamad Ali após a conversão ao islamismo); o outro, o maior cestinha do basquete até então, o gigante Wilt Chamberlain e o último, o único não americano, um tal de Pelé.

Depois de descrever com maestria o boxeador e o pivô, Kissinger rasgava elogios ao filho de Celeste e Dondinho. Terminava com um fato incontestável: num esporte onde metade das partidas ninguém faz gol e outro um quarto delas apenas um tento é anotado, um cidadão marcar 1173 gols ( depois do artigo, o santista fez mais 109 gols pelo Cosmos de Nova York) em pouco mais de 1000 jogos era um feito inigualável. Ninguém poderia ser como Pelé foi um dia; como Pelé ninguém era e jamais será.

A famosa comemoração agora no Cosmos


Cresci ouvindo de meu pai palmeirense, meu tio corintiano,do meus irmãos santista e palmeirense, etc.., que nada se igualava ao Pelé. E o máximo que via pela tevê no final dos anos 70 era uma dúzia de gols e dribles e claro, os gols dele na Copa de 58 e 70. Nos anos 2000 fizeram um documentário (Isto é Pelé, fraquinho por sinal). Fui ao cinema e vi mais de 350 gols e jogadas de Pelé. Acabou ali. Pelé é um hiato do tamanho do Grand Canyon para o futebol. Nada sequer terá a capacidade de se aproximar do que fazia em campo. A mídia nos martela com “novos Pelés” a cada 2 ou 4 anos. Beira a sandice.

Um dos muitos gols de bicicleta


Mas o rapazinho, aos 17 anos, oriundo de um país pobre e agrário, subdesenvolvido e analfabeto, desceu na Suécia e nos gramados do Velho Continente matou no peito a bola, meteu dois chapéus dentro da área e finalizou sem sequer deixar a bola cair. A gente vê um gol assim a cada 10 anos, mas nunca numa final de Copa do Mundo, e num molecote mirrado. Seria feito comparável a um jovem ganês de 16 anos meter 3 gols numa hipotética final de Copa contra a França atual. Proeza feita por um molequinho que nascera num país perdido no mapa. Pelé e Brasil em 58 seria como se um craque da Senegâmbia ganhasse uma Copa dentro da Alemanha hoje em dia.

O Rei na Copa de 1970


Muitos o desprezam: mas só ganhou duas Libertadores e dois mundiais. Não amigos, o Santos disputou 3 libertadores e mundiais só, deixou de lado outros 5 porque só dava prejuízo. Teria ganho outros 3 com o pé nas costas. Ganhou todos os títulos possíveis e imagináveis (3 Copas do Mundo, 6 brasileiros, 11 campeonatos paulistas, entre outros). Foi artilheiro de tudo, quase todas as vezes (fez 58 gols num Paulista só).

No Paulista, aliás, foi 11 vezes o maior goleador. Fez gol de cabeça, de bico, de pé esquerdo, pé direito, de falta, de escanteio, de bicicleta, do meio de campo, de ombro, de peito, de mão. Corria pelo campo todo. Judiou do Corinthians por 11 anos. (e só aí já merecia estátua). Quem mais, sem apoio da Nike ou Globo, seria capaz de parar uma guerra na África? E Pelé parou o conflito de Biafra por 1 dia. Mas parou.

Pra quem reclama da qualidade de outrora, saibam que Cruzeiro, Palmeiras, Botafogo, Fluminense (vez ou outra), Flamengo e Corinthians (estes muito raramente), São Paulo tinham esquadrões que derrotariam com facilidade qualquer campeão desse tal de “brasileirão”. Até o glorioso São Bento era capaz de bater em Pelé (confira a história em nosso blog aqui). E muitos dos times citados estariam nas fases decisivas da “Xampions”. Veja alguns lances e gols abaixo:


Quem seria capaz de fazer a torcida adversária demitir o juiz e trazer o algoz do time inimigo, expulso justamente, de volta ao gramado. Pelé fez isso na Colômbia. Foi expulso no final do primeiro tempo por entrada violenta. A torcida invadiu o campo, das arquibancadas atiravam-se pedras. O árbitro teve de sair escoltado. Volta o segundo tempo com o bandeirinha no apito e o negão com a camisa 10 no círculo central, como se nada tivesse acontecido, para dar reinício a partida.

Qual jogador mais estrearia na seleção brasileira contra a poderosa Argentina e de quebra faria os 2 gols da Vitória? Detalhezinho: o rapaz estava com 16 anos.

Talvez a maior dupla do futebol mundial: Garrincha e Pelé (Revista Cruzeiro)

“Ah, ele fazia gol contra a Botafogo”, dizem os críticos. Sim, Pelé meteu 8 gols numa partida contra o time de Ribeirão Preto. No campeonato paulista daquele ano o Botafogo terminou em 10° lugar. Nos outros 29 jogos levou 45 gols. Foram 11 derrotas no total, só duas acima de 3 gols, os 4 a 1 para o Santos no 1° turno e o histórico 11 a 0 com os 8 gols de Pelé. Na semana seguinte o adversário do Santos era o poderoso Corinthians.

Pobre alvinegro de São Jorge. Santos 7 a 4. Pelé? Fez 4 gols. Messi, Cristiano Ronaldo e cia jogam contra ninguém a maior parte do ano. Quantos times bons existem no espanhol? 2,5! E no francês? 0,5! A turminha faz gol contra a Ucrãnia, Bielorússia, Islândia e você questionando o negão ter feito dezenas de gols no time do Garrincha.

Fotos inéditas dos 8 gols reveladas pelo Fantástico, da Rede Globo, em 2019

Descobertas pela filha Silvia Herrera do fotógrafo Antonio Silva

Pelé tem casos folclóricos aos mil. Num deles, contra o Vasco em 1963. O Santos apanhava de dois a zero. O Maracanã cantava ” Eu vim pra ver o Rei. Cadê o Rei? O Rei sumiu. Foi pra…”. Aos 43 minutos do segundo tempo lá vem Pelé, dribla um, dribla dois e chuta no canto. Santos 1 a 2. Último minuto, o Santos aperta, a bola corre toda a área, o centroavante fura.

Mas o sobrenatural acontece: vindo não se sabe da onde o ” crioulo” se arrasta no chão e bota a bola no fundo das redes. Em dois minutos Pelé faz dois gols e empata a partida. O Rei pega a bola e entrega para o grande zagueiro Fontana (foi titular da seleção). “Fala pra sua mãe que é presente do Rei”. A mãe era mentira, mas a gozação contra o zagueiro incansável é verdadeira.

No dia seguinte Nelson Rodrigues escreveu em O Globo:

:A multidão parou. E o tento solitário de Pelé veio como um toque sobrenatural numa peleja decidida. Mas o Vasco continuava na frente. O Santos fizera o seu “goal” de honra e só. Pois bem – e continua a batalha. O time do Santos arquejava como um asmático em último grau. Era preciso impedir que Pelé tocasse na bola. Nos últimos segundos , há uma chance do Santos, Toninho enche o pé e fura. Estava salvo o Vasco. Não, não estava salvo. Falhou Toninho, mas Pelé apareceu. Não estava lá, mas vejam vocês – desabrochou na hora e no momento certo. Enfiou a bola lá dentro e com que graça, sortilégio, beleza e “goal” perfeito. Irretocável como um soneto antigo. E aí está porque nós o consideramos o maior jogador do mundo. Amigos, não há Santos e insisto: Há Pelé. Dizia-me um colega, ontem no Maracanã: “O crioulo teve sorte”. Exato. Mas a sorte pertence aos Pelés, aos Napoleões. A história deu a Bonaparte, de mão beijada, uma Revolução Francesa. E é claro que as potências misteriosas do destino carregam Pelé no colo. Alguém diria que para os dois “goals” Pelé pouco ou nada fez, pelo contrário: quem enfia nos três minutos de uma partida dois “goals” já fez tudo. E mesmo que não jogasse nada, amigos, só os pernas de pau, os cabeças de bagre precisam jogar bem. Um Pelé pode sentar em campo para ler gibi. Com um leve toque, marcou um “goal” , com um segundo toque imponderável, empatou”.

E falando em gibi, a lenda do Rei era tal que Mauricio de Souza criou seu primeiro personagem fora da turma da Mõnica: o Pelezinho. Pelé ainda foi ao cinema e derrotou Hitler (história do filme ao final).

Outro detalhe: por 18 anos ele vestiu uma camisa de clube apenas e viveu num país só. E pode ter certeza que a Espanha, a Itália, a Inglaterra, os sheiks árabes do petróleo e até Deus tentaram contratar Pelé. E ele, resoluto, ficou. Quando aos 36, aposentado, voltou aos gramados ( a pedido do Kissinger) para jogar nos EUA, exigiu que uma das camisas oficiais do Cosmos fosse branca, igual a do seu Santos.

Pelé deliciou os americanos que nada entendiam daquele esporte por 2,5 anos. Parou de vez aos 39 anos. A Revista Placar fez um teste físico com o Rei em 1972. O camisa 10 da Vila correu 100m em 10 segundos ( ou seja, estaria na final olímpica da categoria ainda hoje). A impulsão vertical era de 1 metro e 43 segundos. Pelé poderia cravar a bola no basquete e de costas. No salto em extensão chegou a 6 metros e 30. Ganaharia ouro em vários Panamericanos. Pelé não foi eleito o “Atleta do Século” á toa.

E muita gente xinga o homem Édson. Aí é parvalhice. Nelson Rodrigues era um boçal, mas foi o maior dramaturgo brasileiro. Câmara Cascudo era fascista. Colega que, infelizmente, fui obrigado a conviver, me contava em detalhes a vida de Machado: que a mulher do bruxo andava com rolhas no bolso para evitar que a língua do epilético escritor enrolasse. Rapaz, isso é de uma importância tão grande pra obra espetacular do Machado quanto um picolé derretido de limão pra 2ª Guerra.

A imortal comemoração do Rei


Então meus amigos, hoje é dia de dar os parabéns ao maior jogador de futebol de todos os tempos pelos seus quase 80 anos ( faltam 5 meses só). Viva Pelé!!! E deixo pra vocês a genialidade do gol nunca feito na mais fantástica jogada de uma semifinal de Copa.

Mas o Maracanã nos chama de volta. Pelé segura a bola, bota na marca de pênalti e chuta forte no canto esquerdo. Andrada, o goleiro vascaíno faz uma defesa monumental. Talvez a maior de sua carreira. Num uníssono, 200 mil torcedores emitem a maior vaia de toda a história do futebol. Todos ali pagaram ingressos para ver o 1000° gol do Rei.

Três generais da ditadura militar brasileira invadem o gramado e conversam silenciosamente com o arbitro. Ele corre pra grande área e faz sinal de que o goleiro vascaíno pulou antes. Pelé pega a bola novamente, bate com força no mesmo canto. Gol de Pelé. Gol do Rei do Futebol. O único jogador a chegar aos 1000 gols na história.

A famosa imagem em que o suor no peito de Pelé formam um coração. Pela seleção brasileira ele fez mais de 100 gols. O imponderável Pelé.

Depois do Rei, o blog contará, na próxima semana. histórias da Rainha Hortência. Não percam.

LEIA NO BLOG DO FREDERICO MORIARTY

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