Não era só um rolinho de canela, era Cinnabon

Lucy Rocha

Ao longo dos anos em que trabalhei para uma empresa na Pensilvânia, viajava pelo mundo e, por um bom tempo, o lugar mais familiar para mim eram os aeroportos. Desses anos, ficaram recordações indeléveis que, na minha memória, estão marcadas pelo cheiro inconfundível dos Cinnabon rolls que tomava conta dos aeroportos americanos, dos quais eu decolava rumo ao mundão e nos quais aterrissava nas minhas voltas à casa.

Se você nunca viu um Cinnabon roll, o mais perto que posso chegar de uma descrição é de um pão doce super fofinho feito em camadas intercaladas por uma mistura mágica de açúcar mascavo e canela que, depois de assado, recebe uma generosa porção de glacê feito com manteiga, baunilha, cream cheese e muito açúcar que derrete sobre o pão quente, entrando pelas camadas e cobrindo os lados, conferindo-lhe aquela textura molhadinha imoral.

O conhecimento popular diz que essa combinação inconstitucional de ingredientes deve ser consumida quente, assim que sai do forno, pois não há relatos por todo o hemisfério norte de qual seria seu sabor quando frio, afinal, quem esperaria?

Daí chegou esse friozinho e decidi tentar, depois de anos de hesitação, reproduzir em casa esses pecados de canela. E me perdoe você que já está salivando, mas meus rolinhos ficaram tão bons quanto os originais e eu posso comprovar.

Meus Cinnabons perfeitos (Fotos: Arquivo pessoal)

Hesitei a tentativa por anos porque sabia que quando tomasse essa decisão, teria diante de mim um grande desafio. A frustração gerada se não acertasse algum aspecto de algo tão perfeito seria devastadora. Como quem pega um avião para encontrar uma garota em Paris e ela simplesmente não dá as caras, minha entrada na nave do tempo em busca dos cheiros e sabores de um Cinnabon perfeito poderia quebrar meu coração em pedaços se ao final me visse diante de um simples “pão doce”.

Explico. A perfeição que eu temia não alcançar está em cada detalhe desse rolinho dos deuses, a começar pelo cheirinho de um Cinnabon recém-tirado forno e… espere!

Antes de prosseguir, preciso dizer que, ao compartilhar essas memórias, não desejo ser aquela influência nefasta que vai fazer você sair dessa leitura direto para a cozinha. Confio que você, que ama a leitura e me parece uma pessoa equilibrada, tenha algum autocontrole aí dentro de você quando se trata de decidir entre transgredir ou não.

Pois bem. Ao pisar num aeroporto onde existisse um desses estabelecimentos, os quais, ainda suspeito, funcionam de forma ilegal, o perfume me seduzia as narinas, me obrigando a ir até o balcão. Me sentia como um menino apaixonado que ninguém é capaz de impedir ou como o Pica-Pau da minha infância, que flutuava até a comida apenas deixando-se levar pelo cheiro.

Grudada na vitrine, um pensamento me atormentava: “Cinnabon não é bom para você”. Além disso, acreditava que se alguém que me levava a sério me visse ali, perderia de vez o respeito por mim. Aliás, aquela definitivamente não era a escolha de alguém com autorrespeito. Eu sabia disso, mas não importava.  Aquela monstruosidade açucarada de canela era uma afronta à natureza e ao politicamente correto; a maneira perfeita de alertar seus pais para o fato de que você é uma decepção. Mas isso, também não importava.

Na hora, quando estava ali pronta para fazer meu pedido, eu achava que o certo seria combinar meu Cinnabon com uma longa soneca; um período em que pudesse reavaliar todas as minhas decisões de vida que me levaram ao momento fatídico. Ao invés disso, acabava combinando meu Cinnabon com um copinho extra de glacê que eles vendiam por 50 centavos a mais. E era assim que eu escolhia um lugar discreto para sentar, no qual pudesse enfiar a cara no Cinnabon sem ser vista enquanto sucumbia à autopiedade.

Para mim, o Cinnabon era uma representação poética da sociedade moderna. Me fazia pensar em como ultrapassamos os limites sem nunca perguntar: “Deveríamos?”

E assim, como aquelas estranhas e desconhecidas criaturas marinhas, deixava que o respeito por mim mesma mergulhasse nas profundezas do mar, enquanto puxava lentamente camadinha por camadinha daquela obra-prima colocada diante de mim.

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