Terror trash no Cinema Brasil

CARLOS ARAÚJO (Blog Outro Olhar) – Antigamente você entrava no cinema para assistir a um filme de terror com todos os seus sentidos preparados para o pânico calculado e tão esperado. Hoje você começa o dia e a sensação é de que o filme de terror já está em andamento, você perdeu o início e desta vez não está preparado para os sustos da exibição. Não há como deletar ou ignorar a projeção da obra trash e todo mundo está ligado nela com a mesma paúra de quem assiste ao último lançamento de “O massacre da serra elétrica”.
Essas impressões pulsam desde aquela fatídica sexta-feira da exibição do vídeo da reunião ministerial. O vídeo transformou o Brasil numa imensa sala de cinema. Os palavrões, os insultos, as ofensas, as tramas, tudo o que foi exibido parecia ficção. Não era possível admitir como verdadeira uma reunião de governo que mais se assemelhava a um encontro secreto de conspiração e ataques aos inimigos. Nada mais surreal, inacreditável. E o mais trash de tudo era que aquilo era a realidade em sua representação mais brutal e cruel.
A comparação com um filme de terror exibido no cinema é só uma maneira de tentar entender o que aconteceu. O primeiro choque é que não dá para entender nada. Num momento de grandes sacrifícios marcado pela contagem diária de milhares de mortos pela Covid-19, em que o desemprego e a fome avançam pelo país, um grupo de senhores responsáveis pela nação faz um encontro de governo e ignora essas tragédias para focar suas atenções em egos, intolerâncias e xingamentos que não levam a nada. Que vergonha. Que infâmia.
E exatamente como numa sessão de cinema, o filme terminou e nada aconteceu além do previsto. Foi como se o público se levantasse de suas cadeiras, saísse da sala de projeção e voltasse para casa com a naturalidade de quem retorna de um programa de rotina. Era como se tivessem assistido a uma obra de ficção. Muitos usaram as redes sociais para aplaudir o desempenho dos atores, ainda que fossem de péssima qualidade; outros, dispararam críticas que se perdem como palavras ao vento; outros ainda, os omissos de sempre, preferiram o silêncio a qualquer ruído.
Como nada mais aconteceu, os roteiristas e atores do vídeo se sentiram estrelas de cinema dignas de prêmios. Nos dias que se seguiram, voltaram a bombardear o público com mais ameaças, rasteiras, coices selvagens. Agiram com a desfaçatez de quem sabe que manda e tem certeza de que todo mundo vai obedecer porque esse é o comportamento de um povo adormecido em “berço explêndido”. As reações a favor continuaram a aplaudir os arroubos verbais, enquanto as reações contrárias se limitaram às meras notas de repúdio e indignação.
Talvez no futuro alguém se volte para 2020 e conclua que o Brasil atravessou este ano castigado pela tensão de quem vive um filme de terror sem fim. Nas exibições sem cortes, vilões e covardes se enfrentam em conspirações palacianas enquanto o público vive o desespero da contagem dos mortos de uma pandemia devastadora.
Você não tem como ficar indiferente a esse tipo de cinema macabro e não consegue escapar aos efeitos de nojo, desesperança, sofrimento. Triste país, trágico destino, fúnebre outono.

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