Carlos Roberto de Gáspari

CARLOS ARAÚJO (Blog Outro Olhar) – Muitos são os homens que contribuem para a composição da narrativa histórica, mas raros são os que marcam a passagem por este mundo com o exemplo de quem faz a diferença nos rumos da história de uma geração. Carlos Roberto de Gáspari, o sindicalista falecido nesta quinta-feira (4), pertence à categoria dos brasileiros que fizeram a diferença nos momentos decisivos da história de Sorocaba e Região e se projetaram na galeria dos grandes sindicalistas brasileiros.
Eu o conheci em 1987 como repórter que tinha como rotina cobrir as ações do movimento sindical, especialmente dos metalúrgicos e dos trabalhadores do transporte. Foi o ano em que, procedente de Jandira, na Grande São Paulo, cheguei em Sorocaba para morar e trabalhar. Foi o período em que também conheci o sindicalista Wilson Fernando da Silva, o Bolinha, lendária referência dos metalúrgicos e do sindicalismo brasileiro.
Evoco Bolinha nesta reverência a Gáspari porque, assim na vida como no movimento sindical, o companheirismo é fator de fundamental importância para as conquistas de uma categoria de trabalhadores. O grupo em torno de Bolinha era uma verdadeira seleção de figuras com vocação para a atividade sindical e social. Entre eles, Gáspari era um dos que mais se destacavam pela coragem de ação, inteligência de articulação e capacidade de liderança nos momentos mais decisivos da história dos trabalhadores.
Seguindo o perfil do grupo que atuava com a liderança de Bolinha, Gáspari era um sindicalista de linha de frente. Uma palavra sua era capaz de mudar os rumos de uma greve e de uma negociação com os patrões. Um gesto seu tinha a extraordinária capacidade de mobilizar milhares de trabalhadores. Nas assembleias, sua voz ao microfone tinha um magistral poder de conscientização e direção. E como aconteceu com a maioria dos sindicalistas de sua época, tinha em Luiz Inácio Lula da Silva um grande amigo e fonte de inspiração.
Desde 1983, quando este grupo rompeu o modelo de peleguismo vigente em período anterior e surpreendeu a burguesia regional com novas formas de defesa dos interesses dos trabalhadores, Gáspari participou e foi protagonista em todas as transformações e conquistas promovidas pelo momento sindical.
Na década de 1980, o Sindicato dos Metalúrgicos também se projetou, entre outras características, por ter 25% de sua diretoria composta de universitários. E Gáspari estava entre os sindicalistas universitários. O fato atraiu a atenção de um repórter do Jornal do Brasil, que viajou a Sorocaba para verificar o que estava acontecendo. Seu faro jornalístico o levava a crer que os universitários estavam invadindo o movimento sindical e isso podia ser uma articulação da esquerda brasileira com sabe-se lá qual objetivo. Saiu decepcionado porque não havia nenhum tipo de articulação, e publicou uma reportagem com destaque para o perfil universitário da diretoria com o título: “De fura-greve a bacharel.” Claro que era um título negativo, que não correspondia à verdade, e a diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos não gostou nada disso. O Jornal do Brasil não tinha distribuição em Sorocaba e diretores foram a São Paulo para terem acesso a exemplares da publicação.
Gáspari foi um dos sindicalistas decisivos para a produção do meu livro “Companheiros: a Hora e a Vez dos Metalúrgicos de Sorocaba”, publicada em 2012 com edição da Loja de Ideias. Agora, folheando o livro, vejo que, ao contrário de outros sindicalistas com cargos de direção, ele e Bolinha não tiveram na obra um capítulo com perfil específico de suas trajetórias. E isso aconteceu simplesmente porque a atuação deles perpassa todo o livro como fios condutores da história dos metalúrgicos a partir de 1983. Suas atuações atravessaram várias gerações da história dos metalúrgicos e seus perfis não podiam ficar restritos a períodos específicos.
Em 1992, Gáspari teve a perspicácia de promover a criação do conceito de Sindicato Cidadão para dar início a um novo ciclo na história dos metalúrgicos. Era o momento de transformar o Sindicato não só em instrumento de luta da categoria, mas também da sociedade. Isso significou colocar o sindicato a serviço das questões de cidadania. E este foi um conceito pioneiro de sindicalismo no Brasil.
Bolinha faleceu em 2008. Agora, quis o destino que Gáspari entrasse para a memória dos trabalhadores brasileiros que se destacaram pela luta por direitos humanos, democracia, trabalho e salário dignos. É mais uma vítima da Covid-19, que também levou no mês passado outro dirigente metalúrgico, João Farani. É mais um companheiro que deixa para as futuras gerações um legado de força e coragem, qualidades de criaturas humanas que vieram a este mundo para fazer as grandes diferenças.

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