Algo mais poderoso que a morte fermenta no silêncio e na tristeza

José Carlos Fineis

Havia muitos anos que eu não o via. Ele estava diferente, mais gordo, cabelos bem brancos, mas eu reconheceria aqueles óculos e aquele sorriso mesmo depois de muitas décadas. Era mais que uma figura. Era uma presença marcante.

Pense num cara legal, íntegro, sempre pronto para batalhar por boas causas. Esse era o Gáspari – Carlos Roberto de Gáspari. Sindicalista que eu conheci nos tempos de foca que cobria a editoria de Cidades para um jornal que existiu em Sorocaba até recentemente.

Nas reportagens sobre o primeiros Natais sem Fome, a criação do Banco de Alimentos, a organização da Cooperativa de Reciclagem de Sorocaba (Coreso), era ele o cara que estava sempre ou envolvido, ou à frente de tudo. Profissional, atencioso, elegante como pessoa e como fonte de informação.

Por isso, num dia qualquer de novembro de 2019, dei a volta com alegria no balcão do Dom Leopoldo para dar um abraço apertado no colega sorridente que acabara de entrar em nosso café com outras pessoas conhecidas e queridas.

Ele perguntou algo como: “Você ainda se lembra de mim?” E eu, num rasgo de espontaneidade, disse que ele continuava exatamente o mesmo, apesar de mais gordo. Ele admitiu que havia ganhado peso e rimos muito dessa minha observação impertinente.

Essa era uma das partes mais encantadoras de ter uma café, hoje fechado temporariamente por causa da pandemia: todos os dias, sem falhar um dia sequer, eu reencontrava um amigo que não via há tempos, quando não mais de um – mas essa é outra história, que um dia talvez eu conte aqui.

No grupo de visitantes, além do Gáspari, estavam o advogado Imar Eduardo Rodrigues, assessor político do Sindicato dos Metalúrgicos e autor de “Forte e Vingador – A era de ouro do Atlético Mineiro” (belíssimo livro que a Sandra e eu tivemos a honra de editar pela Loja de Ideias) e o ex-vereador e secretário de Organização do SMetal, Izídio de Britto.

Conversamos bem umas duas horas naquela tarde, entre cafés e pães de queijo – que, para minha alegria, foram aprovados pelo mineiríssimo Imar. Falamos sobre política, imprensa, internet, redes sociais. Fiquei sabendo que Gáspari estava à frente de um projeto social, uma entidade nova (para mim, pelo menos): o Instituto Gestão Cidadã.

O ex-metalúrgico e sindicalista que se fez também professor de História era dessas pessoas inquietas, que você jamais encontraria enfiado em pijamas, olhando para um álbum de fotografias. Seu viver era um eterno criar e dar forma para coisas boas que não existiam até então, e que ele pôs para funcionar. Sorocaba e a região devem muito a ele.

Gáspari, Imar, Izídio, Sandra Nascimento, José Fineis

Tiramos naquela tarde a foto sem foco e mal enquadrada que ilustra este artigo e que acabou sendo o único registro daquele encontro de velhos e bons companheiros.

Nos seis meses em que o Dom Leopoldo esteve aberto, Gáspari nos visitou duas vezes. Depois nos encontramos e conversamos rapidamente em outras ocasiões, já que o Dom Leopoldo ficava a poucos quarteirões do Sindicato dos Metalúrgicos e da sede do Instituto de Gestão Cidadã.

De alguns dias para cá eu acompanhava apreensivo as mensagens que a Caroline, sua filha, disparava para manter os amigos informados sobre o estado de saúde do pai. Gáspari estava na UTI com Covid-19.

Durante não sei quantos dias, rezei em silêncio pelo amigo, com o coração angustiado, enquanto ele lutava inconsciente contra a morte num leito do Hospital Samaritano. Pelos boletins diários da Carol, eu ficava sabendo que hoje os rins estavam respondendo bem, ou tinham piorado; que a sedação havia sido aumentada ou diminuída; que ele estava com tantos por cento de respiração artificial.

Eu tinha esperanças sinceras de que Gáspari, com seu espírito de resistência e inconformismo, venceria mais essa, e muitas vezes respondi à Carol, sem a intenção de ser apenas gentil, que seu pai era um lutador e, com a graça de Deus, logo estaria em casa.

Essa ilusão que eu criei sobre o Gáspari super-herói se desfez por volta das 6h30 desta quinta-feira, 4 de junho, quando acordei e tateei no escuro em busca do celular para ver os recados – um vício nestes tempos de isolamento.

Com os olhos ofuscados pela tela brilhante, fiquei sabendo que Carlos Roberto de Gáspari havia falecido durante a madrugada. Seu organismo não aguentara a devastação causada pela Covid-19. Meu dia acabou antes mesmo de começar.

Levantei e fui fazer café, com a ilusão de que a repetição de algum gesto cotidiano ajudaria a acomodar a ideia.

Não funcionou.

A noite chegou com a certeza de que não se perde uma pessoa tão valiosa impunemente. “Se eu pudesse, apagaria este dia”, escrevi para alguém.

Carlos Roberto de Gáspari, sindicalista, professor, ativista social, pioneiro das cooperativas de reciclagem de materiais, do Banco de Alimentos e das campanhas de arrecadação de mantimentos que afastaram a fome de tantos lares, faleceu aos 61 anos, deixando a esposa e duas filhas jornalistas: Caroline e Daniela.

Uma das minhas atribuições do dia foi colaborar com a redação de uma nota de pesar do Fórum em Defesa da Vida, do qual o Coletivo Terceira Margem faz parte (leia a nota na íntegra no post Todos a Bordo – Diário de um Pandemônio). Isso me manteve ocupado e afastou a sensação de tristeza e de vazio por alguns momentos.

Mais tarde, lendo os recados, soube que a Prefeitura, cedendo a mais um lobby dentre tantos que infestam o Palácio dos Tropeiros – alguns, vergonhosamente, patrocinados por vereadores pagos para defender a população –, decidiu reabrir a Feira da Barganha, como se fosse, aquele, um serviço essencial. E que o governo do Estado anunciara (depois, por sorte, voltou atrás) o retorno “gradual” das aulas a partir de julho.

Pensei: nossas “autoridades”, a começar por aquele pervertido de Brasília que engendra um assassinato coletivo por meio de sua política mesquinha, tão bem definida na expressão “e daí?”, se comportam como pilotos de Fórmula 1 que, ao se aproximar de uma curva em alta velocidade, pisam fundo no acelerador em vez de frear e reduzir a marcha.

Enquanto escrevo estas linhas, é possível que a estatística de 56 mortos já esteja defasada. Sorocaba, que vinha num ritmo de dois ou três óbitos por semana desde março, agora dá saltos de três ou quatro mortes a intervalos de 24 horas. Em pouco mais de dois meses desde o óbito número 1, já morreram mais pessoas de Covid-19 na cidade do que em acidentes de trânsito em todo o ano passado.

Gostaria de estar inspirado para escrever algo à altura da indignação e da tristeza que sinto. Na falta de inspiração, escrevo o indispensável, sem qualquer preocupação literária. Apenas não admito que este dia passe sem um registro, neste espaço que tem sido, afinal de contas, um refúgio e uma trincheira contra a barbárie cotidiana.

É preciso registrar, mesmo num texto sem graça e estilo, que a memória de Gáspari nos inspirará e nos dará forças para lutar contra a ignorância de uns e a maldade de outros. Ele estará ao nosso lado quando chutarmos o fascismo covarde que ensaia seus passinhos, apoiado por uns poucos fanáticos abestalhados, de volta para a vala de esgoto de onde jamais deveria ter saído.

Lembraremos de Gáspari todos os dias, e mais ainda no dia radiante em que erradicarmos esses vírus todos de nosso País – o da Covid-19, o do ódio, o do golpismo que prega o armamento da população e flerta com o AI5. Sua lembrança e seu exemplo de vida jamais nos deixarão. Mas nesse dia em especial, que não está longe, entoaremos uma canção que fale de vida e liberdade, de esperança e reconstrução, e nossos corações irão repousar lá onde jaz sua memória, livres dos medos e das angústias que hoje nos tiram o sono.

E eu, como naquele novembro já agora distante, coarei um café no capricho e esperarei pelos amigos, e darei a volta no balcão para abraçá-los exatamente como da outra vez. E Carlos Roberto de Gáspari que a Covid-19 levou durante a madrugada estará entre eles. Eu sei que estará.

Ilustração principal: O Quarto Estado (Il Quarto Stato), óleo sobre tela de Giuseppe Pellizza da Volpedo (1868-1907), Museu do Novecento em Milão

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