Para brindar a lei de socorro à Cultura e matar saudades do imenso Aldir Blanc e seu legado, uma geladinha e um whisky com guaraná, por favor

“Sentindo frio em minh’alma
Te convidei pra dançar
A tua voz me acalmava
São dois pra lá, dois pra cá
Meu coração traiçoeiro
Batia mais que o bongô

Tremia mais que as maracas
Descompassado de amor
Minha cabeça rodando
Rodava mais que os casais
O teu perfume gardênia
E não me pergunte mais
A tua mão no pescoço
As tuas costas macias
Por quanto tempo rondaram
As minhas noites vazias
No dedo um falso brilhante
Brincos iguais ao colar
E a ponta de um torturante
Band-aid no calcanhar
Eu hoje me embriagando
De whisky com guaraná
Ouvi tua voz sussurrando
São dois pra lá, dois pra cá.

(Dois Pra Lá, Dois Pra Cá, clássico de 1977, de Aldir Blanc, eternizado na voz de Elis Regina)

MARCO MEGUIZZO – A um só tempo, erudito e popular. Parafraseando Olavo Bilac em seu célebre poema, um esteta da última flor do lácio da MPB, cujo talento superlativo foi eternizado em obras-primas como Amigo É Pra Essas Coisas (1970), Cabaré (1973), O Mestre-sala dos Mares (1974), Incompatibilidade de Gênios (1976), o bolero mesmerizante Dois Pra Lá, Dois Pra Cá (1977), Querelas do Brasil (1978), O Bêbado e o Equilibrista (1979), hino da anistia política e um clássico da MPB imortalizado na voz de Elis Regina, além de Bala com Bala (1977) e Corsário (1981), entre outras canções cantadas e aplaudidas ao longo do último meio-século.

Um “ourives do palavreado”, como sintetizou o doce baiano de voz tonitroante Dorival Caymmi (1914-2008). Letrista monumental, Aldir Blanc Mendes, de 73 anos, cuja vida foi levada, nestes tempos sombrios, pela Covid-19, assim como vários de seus colegas músicos anônimos e artistas brasileiros, na madrugada do dia 4 de maio de 2020, uma segunda-feira desta longa quarentena, cujo calvário completou neste domingo (7/6) seu 102º dia, com o triste saldo de mais de 35 mil brasileiros mortos até este instante.

A obra de Aldir sempre foi significativa como uma trilha sonora de sua época, incluindo os piores anos da ditadura militar, vivida entre os anos 60 e meados dos 80 do século passado. Mais: poucos letristas escanearam tão profundamente a alma de seu país e do Rio como um símbolo transversal no tempo. Eterno, seu legado monumental inclui um tesouro sublime de cerca de 600 letras, cujo conjunto precioso exibe uma espécie de alegoria nacional, um emocionado manifesto lírico coletivo.

Crédito: Renato Aroeira / Caricatura da Capa: Baptistão

“O Brazil não merece o Brasil / o Brazil tá matando o Brasil”, profetizou Aldir nos versos contundentes de Querelas do Brasil (1978), que desde a chegada da internet viu diminuírem os dividendos de seus direitos autorais. Defensor militante da classe artística desde sempre, ele não foi homenageado ou, absurdamente, sequer lembrado pela então secretaria da Cultura, a ex-atriz Regina Duarte. Tapa na cara da classe artística e uma afronta à Cultura do país.

(Em tempo: o compositor batiza um projeto de lei, aprovado nesta semana pelo Senado, que prevê o auxílio emergencial de R$ 3 bilhões para socorrer o setor cultural, durante o período de pandemia do coronavírus.  O texto segue para a sanção do presidente da república, Jair Messias Bolsonaro, que tem poder de veto, parcial ou total).

Tamanha desfaçatez e a mais vil indelicadeza a um dos maiores titãs da MPB talvez fosse respondida por ele de modo suave, sarcástico, com luvas de pelica, bem a seu feitio, com mais uma canção arrebatadora, inteligente, e sensível. Para os admiradores de seu talento estelar, a saudade pública que Aldir deixa é continental, imensurável, e jamais desaparecerá ou deixará de crescer.

Bravo, monsieur Aldir Blanc, merci beuacoup.

Tu es éternel. Dieu te bénisse. R.I.P. Santé!

Emicida, rapper e compositor de músicas de cunho político e social e ativista cultural que prega o empoderamento das classes marginalizadas das periferias do país

João Bosco: parceria e dueto indissolúveis

Classe de 1946, Aldir é de fato e de direito um dos compositores mais talentosos e celebrados da música brasileira. Eternizado por dezenas de canções escritas em parceria com João Carlos Bosco, o compositor abandonou a profissão de médico, em 1973, para dedicar-se exclusivamente à música. Nessa época, ele já tinha emplacado sua primeira composição de sucesso, “Amigo é Pra Essas Coisas”, parceria com Sílvio da Silva Jr., que foi premiada com o segundo lugar no Festival Universitário de 1970.

Aldir e João: dupla celestial (Fotos: arquivos digitais gratuitos)

Posteriormente, juntou-se a outros compositores, como Ivan Lins e Gonzaguinha, para criar o Movimento Artístico Universitário (MAU). Em 1972, a célebre Elis Regina escolheu pela primeira vez uma canção de Aldir Blanc e João Bosco para integrar um de seus discos: Bala com Bala. Desde então, passou a receber as composições dos autores em primeira mão e a parceria dos três se eternizou em outras músicas, como O Caçador de Esmeralda, Cabaré, O Mestre-Sala dos Mares, Caça à Raposa e O Bêbado e o Equilibrista, a mais aclamada. 

Aldir Blanc e João Bosco se afastaram em 1982, sem brigas. O craque das letras buriladas também fez parcerias de sucesso com outros artistas, como Guinga, Cristóvão Barros, Ivan Lins e Moacyr Luz. Além disso, Aldir também se destacou como cronista e escritor. Ao longo da vida, publicou ao todo onze livros.

A alma carioca de um carioca da gema
Crédito: Quinho

De um talento raro e inato para perpetrar canções estupendas, Aldir, que era médico psiquiatra de formação, representa e é o mergulho mais radical e autêntico da musicalidade carioca. Sobre esta sua característica pessoal e peculiaridade musical, Caymmi diria enfaticamente com sua manemolência e sabedoria próprias: “Todo mundo é carioca, mas Aldir Blanc é carioca mesmo”. 

Nas composições impecáveis deste carioca da gema nascido no bairro do Estácio, zona central da Cidade Maravilhosa, havia um maná espiritual, uma cosmovisão sensível temperada ao sentimento tipico do jeito de ser e de pertencimento de quem nasce na capital fluminense, como a malícia, a ironia, a crítica social, tudo isso moldado com alegorias linguísticas brilhantes.

Além de O Bêbado e o Equilibrista, espécie de música-hino dos anos de chumbo, os poemas em música de Aldir sempre tiveram arrebatamentos imagéticos, visuais delirantes em uma única linha e, ao mesmo tempo, uma narração marcada, costurada aos fatos, cujo realismo comum sublimava às alturas suas composições. Na lista de álbuns seus imprescindíveis figuram obrigatoriamente Galos de BrigaTiro de MisericórdiaLinha de PasseEssa é a sua Vida, o citado Bandalhismo e Comissão de Frente.

Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão no mar reapareceu
Na figura de um bravo feiticeiro
A quem a história nunca esqueceu

Conhecido como Navegante Negro
Tinha a dignidade de um mestre-sala
E ao acenar pelo mar
Na alegria das regatas

Foi saudado no porto
Pelas mocinhas francesas
Jovens polacas
E por batalhões de mulatas

Rubras cascatas jorravam das costas dos santos
Entre cantos e chibatas
Inundando o coração do pessoal do porão
Que a exemplo do feiticeiro gritava então

Glória aos piratas, às mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça, às baleias
Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história

Não esquecemos jamais
Salve o Navegante Negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais

Mas salve
Salve o Navegante Negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais

Mas faz muito tempo

(Mestre-Sala dos Mares, Aldyr Blanc/João Bosco, 1974)

Crédito: Renato Aroeira

Fã de chope e de uma geladinha

Embora tivesse uma vida social discreta, Aldir, como todo bom carioca e boêmio, gostava de bebericar um chopinho bem tirado e uma cerveja estupidamente gelada (para descobrir os diferentes estilos de cerveja, métodos de produção e outras dicas, clique aqui).

Nascido no Estácio mas criado em Vila Isabel, bairro de classe média situado na zona norte do Rio, ele adorava bater ponto no restaurante Salete, na vizinha Tijuca, verdadeiro patrimônio carioca, famoso pelas empadas de massa caseira, levinha e saborosa e pelo filé.

Amigo do dono e fundador do lugar, seu Manolo, ele era habitué deste endereço e ficava a maior parte do tempo conversando com conhecidos e bebendo um chopinho em pé no balcão. Sentava-se apenas para comer e pedia invariavelmente a famosa empadinha de camarão da casa escoltada por um chope gelado servido, segundo sua preferência, com um dedo tão-somente de colarinho de espuma.

Encontro etílico no extinto “O Pasquim”: Aldir, Vinicius, Noel e Jaguar

A apreciada bebida à base de cevada e lúpulo, porém, não ficou eternizada em nenhuma de suas obras. Ao contrário da cachaça (clique aqui e descubra a origem e os segredos das caninhas de qualidade), que aparece na letra da belíssima canção Mestre-sala dos Mares, e do whisky diluído com guaraná – de longe a beberagem que o compositor consagrou, cuja combinação e criação tipicamente brasileiras foi inspirada nos drinks sodas e é evocada em Dois Pra lá, Dois Pra Cá.

Confira as letras dessas duas belas canções e ouça a ambas nos vídeos, logo abaixo, interpretadas respectivamente por João Bosco e Elis Regina, e o relato histórico de Aldir sobre a origem de seu mais famoso bolero.


Whisky com guaraná: comfort taste

Drinque predileto do meu falecido pai, lembro de ter dado uma bicada e provado pela primeira vez as notas tostadas amadeiradas, do malte de cevada e da turfa presentes em um bom e legítimo scotch whisky, aos meros doze anos. Confesso que desde cedo fiquei viciado naquele drinque paterno, que Aldir também reverenciou em seu irresistível boleirão, Dois pra lá, dois pra cá, uma de suas mais conhecidas composições.

Potente e com teor alcoólico em torno de 40º, 45º, sabiamente, o meu velho diluía a potente bebida escocesa com algumas pedras de gelo – uma heresia, por sinal, segundo os puristas e os próprios escoceses, já que o correto é adicionar água puríssima em temperatura ambiente, para liberar os aromas inebriantes do single malt (mais nobre e caro) ou de um blended de qualidade do “uisge beata” (nome original do whisky, que significa em gaélico “água da vida”), mais indicado para fazer esta preparação.

Para finalizá-la, que se tornou irresistível ao meu paladar e “mágica” à minha mente e coração por evocar uma doce e terna lembrança paterna toda fez que eu a preparo e a aprecio, ele a completava adicionando uma ou duas partes de guaraná (obrigatoriamente o Guaraná Champagne Antárctica), dando um toque docinho e saborosamente frutado àquela “mágica alquimia” – touchée! Um verdadeiro comfort taste para o meu paladar e minha alma.

Uma vez mais, gratíssimo, Aldir Blanc. Este é especial pra você.

E, claro, em memória do meu pai muito amado.

Muitas saudades de vocês. Saúde!


PARA OUVIR, VER E CURTIR

DOIS PRA LÁ, DOIS PRA CÁ – A CRIAÇÃO DA MÚSICA (1977)
MESTRE-SALA DOS MARES – POR ELIS REGINA (1974)
INCOMPATIBILIDADE DE GÊNIOS (1976)
O BÊBADO E O EQUILIBRISTA (1979)
MARCO MERGUIZZO 
é jornalista profissional 
especializado em gastronomia, 
vinhos, viagens e outras 
coisas boas da vida. 
Escreve neste Coletivo 
toda sexta-feira. 
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acessando @marcomerguizzo  
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