Racismo e contexto

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LÚCIA HELENA DE CAMARGO – O clássico filme “…E o Vento Levou”, de 1939, foi recentemente retirado da plataforma de streaming pela HBO Max (serviço de vídeo sob demanda operado pela WarnerMedia), por ter sido alvo de polêmica nos Estados Unidos, depois da morte de George Floyd, que fez aflorar discussões sobre racismo no mundo todo.

Queria fazer um convite para que pensemos juntos se essa é uma ação louvável ou mesmo necessária. Entendo o valor de certas revisões históricas, em casos extremos. Afinal, não convém permitir que membros de grupos de supremacia branca saiam por aí empunhando bandeiras nazistas. Seria por demais desrespeitoso a todos aqueles que morreram e sofreram em consequência dessas ideias execráveis, além de pernicioso para toda a sociedade, pela própria disseminação do ódio.  

Também não acredito que faria sucesso um hipotético filme que, em 2020, trouxesse um enredo no qual os negros são retratados como pessoas de uma casta inferior à dos brancos, mostrando esse estado de coisas como se fosse bom ou aceitável. Qualquer pessoa com uma mente sadia sabe disso. Vamos fazer de conta que não existem neste mundo os babacas preconceituosos, que veem a cor da pele como algo relevante.  

Isso dito, nos parece exagero tirar do ar um clássico apenas porque nele os negros são retratados como se não tivessem consciência de sua condição de escravos e serviçais. Gente, o filme é de 1939!

Ganhador de oitos prêmios da Academia de Hollywood, o filme “…E o Vento Levou” mostra a Guerra Civil americana, e inaugurou a presença de uma atriz negra, Hattie McDaniel (1895-1952, na foto em cena, com Vivien Leigh), entre as premiadas pelo Oscar. Na edição de 1940, levou a estatueta de Melhor Atriz Coadjuvante. Ela foi, aliás, a primeira mulher negra a comparecer à cerimônia de premiação como convidada (e não como copeira ou faxineira, como acontecia com as demais). A organização da festa do Oscar teve que obter uma autorização especial para que Hattie pudesse participar do evento, pois o prédio no qual a cerimônia ocorreu não permitia à época a entrada de pessoas negras.

No Brasil, todo mundo sabe, a escravidão oficial deixou de existir em 1888. Porém, nesse ano de 1939 muitos países do mundo ainda mantinham regimes de escravidão. Veja: a Mauritânia, no noroeste da África (fica entre o Saara Ocidental e o Senegal), o último país do mundo a abolir essa excrescência de desumanidade, só a decretou por finita em 1981. Isso mesmo, 1981, época que você provavelmente dançava nas discotecas ao som “I Fell Love”, de Donna Summer (1948-2012). A referência não é gratuita, mas eu decidi que não vou explicar. Você já entendeu.

Se tudo demora tanto a evoluir, em qualquer lugar, o jeito de fazer a coisa andar mais rapidamente é apagar a história? Não é difícil lembrar das distopias nas quais o poder estabelecido apaga tudo (fotos, matérias jornalísticas, referências) o que não for  conveniente ou adequado ao seu próprio projeto de dominação.

Assim, não creio que seja produtivo tirar filmes de circulação. Talvez propor uma discussão sobre o assunto, chamando a atenção para seus elementos, fosse mais útil no sentido de fazer com que as pessoas entendessem que a escravidão foi algo ruim, que não deve ser repetida, que temos que combater como pudermos o racismo, que temos que tentar refletir sobre nós mesmos, se não somos racistas no cotidiano, se não alimentamos o preconceito de alguma forma.

Conversei, para escrever este texto, com um amigo historiador, Marcelo Bussab. A declaração que ele concedeu vai na mesma linha de raciocínio: “Acho que todos os revisionismos desse tipo são perigosos. Porque podemos cair no anacronismo. Pensar um momento histórico com a cabeça do século 21 é não entender a construção cultural de outras épocas”, disse ele.

Como hoje tudo se discute via redes sociais, a HBO recebeu tanto elogios quanto críticas pelo ato de retirar “…E o Vento Levou” do sistema, e parece ter se convencido de que mais gente condenou do que aprovou. Ou então aproveitou o celeuma que o debate provocou para gerar engajamento e atrair clientes. Seja lá como for, a empresa resolveu voltar o filme ao catálogo, incluindo uma explicação sobre o contexto histórico no qual foi produzido.

Também via redes sociais, a empresa fez esse comunicado aos espectadores: “…E o Vento Levou é um retrato de seu tempo e mostra alguns dos preconceitos étnicos e raciais que, infelizmente, têm sido comuns na sociedade americana. Essas representações racistas estavam erradas na época e estão erradas hoje, e sentimos que manter esse título sem uma explicação e uma denúncia dessas representações seria irresponsável”, diz a nota. E continua: “Essas representações certamente são contrárias aos valores da WanerMedia. Portanto, quando colocarmos o filme de novo na HBO Max, ele retornará com uma discussão sobre seu contexto histórico e uma denúncia dessas mesmas representações, mas será apresentado como foi criado originalmente, porque fazer o contrário seria o mesmo que alegar que esses preconceitos nunca existiram. Se quisermos criar um futuro mais justo, equitativo e inclusivo, devemos primeiro reconhecer nossa história”, finaliza o comunicado.

Bom. Ou menos mal.

Aqui neste blog já falamos uma vez sobre o filme: https://atomic-temporary-154439899.wpcomstaging.com/2019/06/12/amor-guerra-e-o-vento/

Lúcia é jornalista.
luciahcamargo@uol.com.br

E escreve também no blog www.menudalu.com.br

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