95 velas para Dalton Trevisan

CARLOS ARAÚJO (Blog Outro Olhar) – Nesses tempos tristes e sombrios, em virtude das milhares de mortes da pandemia entre as quais ocorreram grandes perdas para a cultura brasileira (Aldir Blanc e Sérgio Sant’Anna, entre outros), a possibilidade de comemorar o aniversário de um mestre da literatura é uma oportunidade marcante. Esse mestre é o paranaense Dalton Trevisan, o maior contista vivo do Brasil e um clássico que integra a galeria dos maiores craques da história curta no mundo. Ele completa 95 anos neste domingo (14). O título acima é uma alusão a “Uma vela para Dario”, um dos seus contos mais extraordinários.
Ler Dalton Trevisan é um perigo estético. Você se torna refém dele e jamais consegue se livrar de uma espécie de aprisionamento que ele constrói com sua linguagem concisa, clara, descarnada. E que ele tece com suas histórias que são as narrativas de todos nós no cotidiano dentro de casa, na rua, no parque, no bar, no supermercado, no hospital. Todos esses seres circulam por uma Curitiba que se faz universal e que tanto poderia ser Sorocaba, São Paulo, Rio.
Dalton Trevisan é um milagre da cultura num Brasil que habitualmente reage com muito desprezo aos seus pilares no campo da arte. Bem verdade que ele não precisa de bajulação, embora tenha recebido prêmios importantes ao longo da vida – entre eles, o prêmio Camões. É difícil e pode ser até mesmo inapropriado comparar autores, mas é certo que ele elevou o conto à categoria da obra de arte e nesse aspecto sua produção se equipara aos clássicos do gênero como Tchcckhov, Maupassant, Babel, Hemingway, Borges, Cortázar.
Trevisan é estilo, criatividade, mistério. Estilo, porque criou uma linguagem muito própria, inimitável, provocante; criatividade, porque inventou um mundo a partir da realidade que o cerca e fez dele um palco para a exibição de personagens em conflitos; mistério, porque se fechou de tal forma que não dá entrevistas, ninguém o vê na rua, ninguém consegue se aproximar dele. Na contramão do culto à personalidade das redes sociais na era da internet, ele se esconde, foge da curiosidade pública, e a reclusão acaba por provocar uma publicidade às avessas.
A literatura gerou outros reclusos, de J.D. Salinger a Thomas Phynchon e até mesmo Rubem Fonseca. Trevisan se integra a esse grupo. Numa rara declaração, ele escreveu que “tudo que tenho de interessante para dizer está nos meus livros”. Seu primeiro livro importante foi “Novelas Nada Exemplares” (1959). Depois vieram “Cemitério de Elefantes”, “Morte na Praça”, “Guerra Conjugal”, “Desastres de Amor”, “O Vampiro de Curitiba”, entre tantos outros. Foram mais de quarenta livros.
Nos anos mais recentes, reduziu os contos a textos cada vez mais curtos, ao ponto de transformá-los em haicais ao estilo do guatemalteco Augusto Monterroso, o autor deste que é considerado o menor conto do mundo: “Quando acordou, o monstro ainda estava lá.” Trevisan dá sua contribuição nessa linha de minicontos: “A velhinha meio cega, trêmula e desdentada: — Assim que ele morra eu começo a viver”; “Em toda casa de Curitiba, João e Maria se crucificam aos beijos na mesma cruz.”
Não seria exagero dizer que Trevisan antecipou a linguagem cada vez mais concisa das redes sociais. Sempre cortante, ele também entra no debate que se arrasta há mais de cem anos a partir da pergunta se Capitu traiu Bentinho em “Dom Casmurro” de Machado de Assis: “Se Capitu não traiu Bentinho, Machado de Assis chamou-se José de Alencar.”
“Novelas nada exemplares” já apresentam duas obras-primas do conto: “A Velha Querida” e “João Nicolau”. Mesmo com a qualidade que surpreendeu muita gente, um crítico célebre na época, Otto Maria Carpeaux, fez restrições à obra. Mas reconheceu nele o “observador atento dos pormenores da realidade”. “Morte na praça”, o conto que dá título ao volume de contos, é magistral. Tempos depois, o romancista Carlos Heytor Cony escreveu sobre Dalton que “a sua presença em nossas letras marca um dos momentos mais puros e belos da nossa época literária”. Só o comitê do Nobel não reconheceu isso até agora. Ainda há tempo.
Trevisan fundou a revista “Joaquim”, uma publicação literária que durou 21 números, de 1946 a 1948. Nela, publicou vários contos de sua autoria e de outros escritores brasileiros da época. Há 20 anos, quando eu era repórter do “Estadão”, o crítico Daniel Piza, já falecido, recebia muitos livros de editoras e tinha o hábito de distribuí-los para a redação numa mesa acessada pelos jornalistas. Eis que o amigo Maurício Moraes pega uma caixa entre os livros e lá estão todos os 21 exemplares da revista “Joaquim”. Desesperado com a perda da oportunidade de ter esse “tesouro literário” em meu poder, usei toda a capacidade de convencimento para pedir que Maurício me desse a caixa. Fui atendido. A publicação foi uma iniciativa do governo estadual do Paraná para homenagear o “vampiro” de Curitiba. Guardo comigo todos os exemplares da revista e hoje ela é uma das peças literárias raras na minha estante.
A referência ao “perigo estético” de Trevisan é que sua influência é inevitável e ela pode ser tanto boa quanto ruim para quem escreve. Boa, porque o autor normalmente descobre o quanto é apenas aprendiz se se atrever a comparar o que escreve com os contos do “vampiro” de Curitiba. E um risco, porque essa comparação pode levar o aprendiz a desistir de escrever. Um amigo que também admira Trevisan, Adalberto Vieira, confessou um dia que desistiu de escrever ficção ao ler esse autor paranaense. O padrão de qualidade de Trevisan é tão acima, que pode desestimular projetos literários.
Quanto a mim, Trevisan foi uma angústia igualmente difícil. Como criar um estilo próprio e um mundo particular com a mesma força? Este é um fenômeno identificado pelo crítico norte-americano Harold Bloom em seu livro “A angústia da influência”. O desafio é fugir de influências e buscar a sua própria identidade. Muitos autores sofrem esse problema com relação a outro autor, William Faulkner: libertar-se é uma necessidade. Para sorte ou azar, o aprendiz de escritor acorda um dia disposto a resolver o problema com a decisão de que só pode escrever como sabe e nada mais, mesmo que o resultado seja medíocre.
Até porque, os grandes escritores também passam pela fase de buscas. Trevisan chegou a rejeitar os seus dois primeiros livros, “Sete Anos de Pastor” e “Sonata ao Luar”. Se tudo é processo, por que a escrita seria diferente? Até mesmo o genial Machado de Assis precisou passar por obras de principiante até chegar aos magistrais “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, “Dom Casmurro”, “O Alienista”.
Do seu “esconderijo” em Curitiba, imagino um Dalton Trevisan que também rejeita comemorações de aniversários. Isso é o de menos. Nós, os seus fãs e reféns por essência e definição, comemoramos a data por ele. E temos o privilégio de encontrar em sua obra o melhor presente que, na contramão da tradição, são os leitores que recebem do aniversariante com as oportunidades de leituras e releituras de uma obra mágica.
Fica aqui o nosso abraço virtual, prezado “vampiro” de Curitiba, pois só contato virtual é possível nesta época de isolamento social e tempo de sobra para a leitura e releitura dos seus contos que perturbam, desequilibram, abalam os sentidos.

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