Abaixo a ditadura! Hoje e sempre

GERALDO BONADIO – Acompanhando no Youtube as manifestações antifascista e anti racistas de domingo, na avenida Paulista, surpreendi-me ao ver, entre as faixas portadas por jovens militantes, uma assinada pelo movimento Liberdade e Luta. Ela me levou de volta, em pensamento, a algo que aconteceu comigo, no final da década de 1970, no dia em que, como substituto do prof. Kardec Pinto Vallada, eu iniciava a minha primeira aula de Jornalismo Especializado II para os alunos de graduação da ECA/USP, na Habilitação de Jornalismo.

Naquele instante, difícil era a palavra que melhor definia a mim e ao contexto no qual eu me achava inserido. Eu saíra há pouco de um terrível abalo emocional causado pela perda, em seis meses, de meu pai e minha mãe. Em seguida, outros problemas exigiram que me mudasse para São Paulo, onde nunca vivera anteriormente.

Substituir o prof. Kardec, que, por questões de saúde, tivera que deixar a regência das aulas era tarefa que assombrava. Depois de viver dois anos de sua juventude nos Estados Unidos, ele, de regresso ao Brasil, integrara o grupo de publicitários que, após a Segunda Guerra, dera novas feições à nossa propaganda. Foi convidado, a seguir, para integrar a primeira geração de professores da ECA.

A disciplina em que deveria substituí-lo também era difícil. Lidava não com as colunas especializadas de jornais ou revistas nem com publicações destinadas a resenhar, pela rama, as novidades tecnológicas deste ou daquele campo e sim com periódicos, situados em algum ponto entre o jornalismo comum e a publicação acadêmica, destinados a manter atualizados os profissionais de campos específicos.

Naquele momento ninguém imaginava que, em poucas décadas, as publicações impressas entrariam em declínio. Bem ao contrário, revistas de alta especialização floresciam e a Abril criara, não fazia muito, um grupo para editar umas tantas.

Os estudantes matriculados na disciplina constituíam, um grupo altamente diferenciado. Muitos detinham expressivo conhecimentos em nichos bem delimitados de jornalismo para especialistas.

Eu entrara na sala pisando em ovos e, mal acabara de colocar a caderneta de professor sobre a mesa quando um grupo de outros estudantes da Escola pediu licença para entrar na sala e fazer um comunicado. Eram integrantes do movimento Liberdade e Luta (Libelu).

Mais jovens que os presentes à sala de aula, ainda sem inserção no mercado de trabalho, dedicavam à militância política uma parcela ponderável de seu tempo. Na comunicação que fizeram aos meus alunos, conclamaram-nos a participar de meia dúzia de atos públicos que, no espaço de 24 horas, ocorreriam dentro e fora da Cidade Universitária e, por fim, chamaram uma greve de fome para encarar uma situação cujo enfrentamento, exigia postura mais firme.

A referência à greve de fome estilhaçou a circunspecção com que os meus profissionais estudantes até aquele momento escutavam as palavras de ordem dos mais jovens. O riso aflorou em alguns rostos e o comando de mobilização, percebendo que perdera o chão, retirou-se.

Jovialidades à parte, a Libelu foi um movimento sério que formulou, pioneiramente, o lema Abaixo a ditadura e contribuiu de forma destacada para reconstruir a União Nacional dos Estudantes.

Mais tarde e em outras disciplinas, tive como alunos, dois militantes da corrente: Josimar Moreira, hoje jornalista de gastronomia da Folha, filho de Josimar Moreira de Mello que, nos tempos anteriores ao golpe de 64, dirigiu o jornal mais importante da esquerda católica, o Brasil, Urgente e Caio Túlio Costa que, na Editora Brasiliense, dirigia o jornal Leia Livros, para o qual, a seu convite, escrevi uma resenha. Posteriormente, foi chamado pela Folha para implantar o UOL.

Em 1989, a Libelu integrou-se ao Partido dos Trabalhadores, passando a constituir a tendência O Trabalho, sintonizada com a 4ª Internacional (Trotskista).

Por ela passaram figuras destacadas, da política e do jornalismo, que o tempo, como soe acontecer nas democracias, dispersou por diferentes correntes políticas: Clara Ant, Demétrio Magnoli, Luís Favre (ex-marido da ex-senadora Marta Suplicy), Miriam Leitão, Luís Gushiken, Paulo Moreira Leite e – nem tudo são flores – Antonio Palocci.

No dia 31 de maio, teve papel importante na articulação do Encontro Nacional online da Juventude Fora Bolsonaro. E, domingo, como vimos, retornou à rua, atenta, de certo, ao mau vento ditatorial que, a partir do Planalto, castiga o país.

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