Um coronel bom de samba

GERALDO BONADIO – Em 16 de abril do ano que vem completam-se os cem anos de nascimento, no Rio de Janeiro, cidade em que também faleceu em 1996, de Antônio de Pádua Vieira da Costa, integrante da Força Expedicionária Brasileira, que, como tenente de infantaria, participou de combates na Itália e, como músico, compôs o Hino da Academia Militar das Agulhas Negras, até hoje executado nas solenidades daquela instituição.

Vieira da Costa chegou ao posto de coronel e, nessa condição, foi designado para servir no gabinete do presidente João Goulart, onde foi surpreendido pelo golpe de 31 de março de 1964 que lhe cassou os direitos e transferiu para a reserva.

Em paralelo à carreira militar, dedicou-se à música popular em sentido amplo, camuflado sob o pseudônimo de Luís Antonio e, nessa condição, compôs, em parceria com os também militares Klécius Caldas e Armando Cavalcanti, o samba-canção “Somos Dois”, gravado em 1948 por Dick Farney; a marchinha Sassaricando, em parceria com Jota Júnior e Oldemar Magalhães que – na voz da vedete Virgínia Lane saltou do palco do teatro de revistas para as ruas, tornando-se um enorme sucesso carnavalesco; musicou, em parceria com José Maria de Abreu o poema “E tome polca”, de Luiz Peixoto, gravado por Marlene e, ainda, um número enorme de canções que levaram Miltinho a saltar da condição de crooner do conjunto de Durval Ferreira, para uma longa e vitoriosa carreira solo: Cheiro de Saudade, Devaneio, Mulher de Trinta, Eu e o rio, Menina moça…

Neste momento de pandemia, ganha uma especial atualidade o conjunto de sambas – facilmente acessáveis no Youtube e gravados por intérpretes do porte de Marlene, Heleninha Costa e Elza Soares -, nos quais retratou, com enorme sensibilidade, as desigualdades sociais do Rio de Janeiro:

“Barracão de Zinco (Ai, barracão, pendurado no morro / e pedindo socorro / à cidade / a seus pés), Lata d’água (Lata d’água na cabeça / Lá vai Maria / Lá vai Maria / sob o morro e não se cansa / pela mão leva a criança / lá vai Maria), Patinete no morro (Patinete lá no morro / é um cabo de vassoura / e tampa de goiabada), Zé Marmita (Quatro horas da manhã / sai de casa Zé Marmita / pendurado na porta do trem / Zé Marmita vai e vem).”

E, especialmente válido para este momento em que recomendações médicas como a de lavar as mãos com frequência são impossíveis de serem cumpridas por milhões de brasileiros, o irônico Bica Nova, gravado originariamente por Jamelão (O Claudionor comprou uma lata nova / pra inaugurar mais uma bica lá no asfalto / cortaram a fita / que discurseira / no fim de tudo não tem água na torneira).

Houvessem as recomendações implícitas na obra desse coronel do Exército bom de música gerado políticas públicas de saneamento e não precisaríamos ter generais nem tão bem sucedidos assim, acampados no governo, tentando reduzir, no papel, o número de mortes de brasileiros pobres, cuja exposição ao vírus se dá, antes de tudo, pelas suas condições subumanas de moradia e higiene pessoal.

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