Quando o filme salta da tela

GERALDO BONADIO – Pouca gente sabe que o comendador Pereira Inácio, futuro proprietário da Fábrica Votorantim – que deu origem a um dos maiores grupos empresariais do país – construiu sua fortuna em Boituva, à frente de um grande armazém, cuja localização estratégica lhe permitia habilitar-se como fornecedor de diferentes gêneros às cidades que, com a expansão ferroviária, iam brotando ao longo dos trilhos da Sorocabana e da Noroeste.

Imigrante português, tangido para o Brasil pela pobreza, foi bancado, na montagem do armazém em Boituva, por um grupo de patrícios do Rio de Janeiro, comerciantes de grossa fortuna e maçons como ele, que acumularam ganhos expressivos graças ao talento que Pereira Inácio demonstraria ao gerir seus capitais.

Em Boituva, também, ele protagonizou uma das primeiras tentativas ocorridas no país de se fazer do saneamento básico um negócio, capitaneando uma das duas empresas que se organizaram simultaneamente naquela cidade, para fazer da captação e distribuição de água um empreendimento lucrativo. Nenhuma delas duas prosperou e o saneamento, em Boituva, só ocorreu quando passou a ser bancado pelo poder público.

No momento em que, aproveitando-se do fato de as atenções dos brasileiros estarem focadas na passagem de várias “boiadas” – a pandemia, o descalabro governamental, o agravamento das condições de miserabilidade da maioria dos brasileiros – supostos liberais impingem à nação um marco regulatório do saneamento básico focado em interesses outros que não os da maioria dos brasileiros – é oportuno, além de recordar o vetusto malogro boituvense, focar as situações de dois municípios vizinhos ao nosso que, quase ao mesmo tempo, privatizaram o saneamento – Votorantim e Itu – cotejando ambas as experiências com as de Sorocaba.

Em Votorantim o saneamento foi privatizado no governo do petista Carlos Augusto Pivetta. A população não gostou, a ruptura do contrato com a Águas de Votorantim chegou a ser insinuada, mas não executada, pelo seu sucessor, o tucano Erinaldo Alves da Silva sob a alegação de que os cofres públicos não suportariam o impacto financeiro da reversão à operação pelo poder público. Favorecida pelas amplas possibilidades de captação, que reduzem em muito seu custo operacional, a empresa privada, ao que parece, vem conseguindo dar conta do recado.

Em Itu, a privatização, efetuada no governo do hoje deputado Herculano Passos, não deu bons resultados. A topografia plana e a rede hídrica pouco generosa exigiriam da Águas de Itu, que arrematara o serviço, investimentos de maior folego. Atento à insatisfação popular com a qualidade dos serviços, o prefeito Reinaldo Gazolla, tão logo assumiu o cargo, retomou o controle do saneamento.

Sorocaba, diferentemente daquelas duas cidades e da maioria dos outros municípios da região, onde o saneamento é operado por uma empresa pública do governo do Estado – a Sabesp – optou, há mais de meio século, em confiar os serviços de captação, tratamento e distribuição de água e de coleta e tratamento de esgotos a uma autarquia municipal, o SAAE.

Viabilizada por um financiamento de longuíssimo prazo, com recursos cedidos ao país pela Aliança para o Progresso, na gestão do presidente norte-americano John Kennedy, o SAAE de nosso município é um bom exemplo de que é possível confiar a política de saneamento aos municípios, desde que se conte com uma estrutura adequada e um gerenciamento eficaz.

O SAAE teve administrações controversas. Há muito a se fazer no sentido de aprimorar suas estruturas e seus padrões de gestão, mas a verdade é que ele universalizou a distribuição de água tratada – reduzindo drasticamente as doenças de veiculação hídrica que eram o tormento dos verões sorocabanos, quando os hospitais não davam conta do atendimento das centenas de crianças atingidas pela diarreia e desidratação, muitas das quais pereciam. Além disso, está perto de universalizar a coleta e tratamento de esgotos, cobrando preços muito menores que os praticados pela Sabesp.

Nesse contexto, o Senado, numa operação comandada pelo senador Tasso Jereissati (PSDB/CE), homem de negócios que atua em muitas áreas, mas se destaca pelas suas conexões com a Coca Cola, obteve a aprovação de um marco regulatório do saneamento básico cujos detalhes não chegaram a ser suficientemente discutidos e que, aparentemente, fragiliza o papel do Estado num campo em que políticas públicas, firmes e claras, são essenciais.

No processo de aprovação daquela norma teve como forte parceiro o senador Cid Gomes (PDT/CE) – fato que coloca o ex-ministro Ciro Gomes, sempre rigoroso cobrador de situações mal explicadas, na contingência de esclarecer as dúvidas que cercam o texto agora aprovado.

A coisa toda lembra muito o Quantum of Solace, filme da franquia 007, em que James Bond enfrenta e desmascara o empresário Dominic Greene, que, fingindo ser um ambientalista, armava um golpe militar na Bolívia para assumir o controle das reservas de água do país.

No caso brasileiro, o vilão do filme parece haver saltado das telas para a realidade, mas o 007 amarelou.

O Brasil precisa, sim, de investir pesado em saneamento, até porque se trata de uma área em que dispomos de toda a tecnologia necessária para gerar milhões de empregos, inclusive para profissionais de baixa qualificação, e assim enfrentar a dupla desgraça das políticas neoliberais (que nos afligem desde o desgoverno Temer e se intensificaram com a economia sob o comando do inepto Paulo Guedes) e da pandemia.

Em vez disso, o tucanato, o centrão, o bolsonarismo e uma fatia apreciável do PDT se associam para consumar uma empreitada, salvo engano, que vai engrossar as fortunas de uns poucos, sem garantia de que o saneamento será universalizado e, menos ainda, se tal universalização ocorrer, seus preços caberão nos depauperados bolsos e bolsas da nossa gente.

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