O vale dos vilões

CARLOS ARAÚJO (Blog Outro Olhar) – Os vilões são capazes de negar o sol em pleno verão de quarenta graus à sombra. Os vilões têm o prazer de negar a própria negação quando desdizem no minuto seguinte o que acabam de afirmar agora. Os vilões ignoram a história, os documentos, as provas, as certificações de conhecimento acumulado em séculos e gerações.

Os vilões negam a ciência, a cultura, a arte, a filosofia, o esporte. Negam a dor humana, o sofrimento, a solidão. Julgam a dor do outro pela dor que não conhecem e não são capazes de sentir. Desqualificam o desamparo alheio com o deboche do “mimimi”, numa flagrante arrogância de quem se acha imune às quedas e perdas que devastam corações e arrebentam sentimentos, como se fossem super-heróis possuidores da ilusão de forças imaginárias.

Os vilões assassinam e esquartejam a verdade e espalham os pedaços nos caminhos sombrios abertos em veredas estreitas, espinhosas.
Os vilões fazem valer a narrativa que decretam, sem levar em conta as leis do tempo e do espaço, e chegam ao ponto de fraudar registros oficiais como se fossem operadores do grotesco.

Os vilões não reconhecem a escravidão, negam as revoltas populares contra a intolerância e jamais aceitam o contraditório.

Os vilões censuram as biografias de líderes negros em plataforma digital de entidade criada justamente para preservar a cultura negra.

Os vilões negam a política até mesmo quando fazem a pior política o tempo todo.

Os vilões negam a poesia, o amor, o diálogo, a tolerância, a paz entre as criaturas de boa vontade.

Os vilões debocham, agridem, torturam, admiram torturadores e os elevam à condição de heróis, os vilões atropelam e matam os sentidos da existência, e com esse perfil ainda são capazes de invocar valores divinos (como propaganda e marketing pessoal) que se contradizem e não se sustentam.

Os vilões negam o vírus, a pandemia, as mortes que tentam sonegar como quem sequestra o direito de vida e de morte sobre os seres humanos.

Os vilões não amam, são incapazes de amar, pois fazem do ódio uma profissão de fé, um estilo de ser e de viver, como se fossem esculpidos pelo ódio e nada mais.

Os vilões são os inventores da fake news, da brutalidade, da necropolítica medonha.

Os vilões desprezam Einstein, Newton, Copérnico, e negam Sócrates, Platão, Shakespeare, Fernando Pessoa, e são indiferentes aos Beatles, Tom, Vinicius, Cartola, e ignoram Zumbi, Mandela, Floyd.

Os vilões devastam as identidades dos povos, dos índios, de todas as minorias. Aniquilam os patrimônios, as florestas, a suave esperança que brota das flores no asfalto selvagem.

Os vilões pregam a fúria dos ditadores, a justiça dos carrascos, a igualdade do topo da pirâmide. E são indiferentes à desgraça dos anjos caídos, vomitam palavrões com a altivez dos toscos, dos sociopatas, e pregam a violência como método de justiça seletiva e de exclusão.

Os vilões são seres sem compaixão que derrubam cruzes fincadas na areia da praia durante homenagem às vítimas da pandemia.

Os vilões, numa prática típica dos covardes, promovem torturadores à categoria de heróis ao mesmo tempo em que ofendem figuras de grande expressão histórica e cultural. Soberbos aqui, ajoelham-se perante outros vilões mais fortes mundo afora. Invertem números de equações complicadas para manipular a realidade. Habituam-se a culpar a janela pela feiúra da paisagem e a solução que encontram é fechar a janela.

Os vilões neutralizam o debate, aprisionam as ideias, sequestram o diálogo. Rompem as noções de tempo e espaço, de altura e profundidade, de zero à esquerda e zero à direita. Minimalistas da linguagem, gritam para intimidar o outro e o mandam calar a boca, como se só eles tivessem o que dizer com suas palavras ao vento.

Os vilões declaram guerra à filosofia, à sociologia, à antropologia, às artes, aos livros, à criatividade, aos pilares da decência.

Os vilões abrem cruzadas de ataques contra os índios, os quilombolas, os sindicatos, os trabalhadores rurais, os habitantes das periferias.

Os vilões conseguem negar toda a utopia e abrem a era da distopia mais triste e sombria. Até o momento em que serão negados pelos seus próprios corações, pelos precipícios que escavam, pela história.

Os vilões viram as costas à inteligência e celebram a burrice, ignoram a competência e aderem ao despreparo, desprezam a elegância de comportamento e vibram com a truculência rasteira, esmagam o prazer de viver e inauguram a geração das trevas, negam a educação e a saúde e aplaudem tudo o que é retrocesso e sociopatia, estilhaçam a confiança e tornam suspeito tudo o que tocam, pensam, olham.

E o que fazer além das inúteis notas de repúdio contra os vilões, dos gritos de indignação que se perdem no vazio, da brutal sensação de asfixia que dificulta a respiração?

Fugir ou bater de frente, já que a verdade acabou?

Não há respostas, elas se derreteram no fogo insensato da vilania.

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