Entrevista com João Bid: ofício da música e do tempo

ELOISA ARAGÃO (Historiadora convidada do Blog do Simoes)- A luz, os sons e a poesia do tempo ali, no jardim, onde João Bid costuma tomar sol sentado numa cadeira de praia, em alguma hora da manhã. (Estamos no isolamento, a pandemia impondo suas regras.) Outro dia passei diante de sua casa e o cenário em que o avistei foi esse, uma espécie de beira-mar. Cumprimentou-me, disse poucas palavras e eu soube que estava num momento de criação. A contemplar, ciente do jogo de luz e sombra do Flamboiã, captando o sutil rumor do trabalho das formigas sob a grama, a comunicação secreta com as flores da paciência.  

O canto e o desempenho de letrista são o ofício de João Bid. Não faz muito tempo, entre aqueles em que me tornei moradora de Mairinque (SP), tive a sorte de conhecê-lo.  Descobri recentemente com muita alegria que ele e Lisa Camargo, sua mulher, são meus vizinhos, mas os conheci antes através da arte a que se dedicam. Lisa, ao teatro, atualmente é diretora da prestigiada Companhia de Eros. João, à música – conhecido de muita gente e reconhecido por sua primazia musical desde o tempo em que foi integrante do célebre Grupo Catavento. Entre as produções do músico, pude apreciar com a devida atenção o belo CD O tempo e a paciência, de 2006, cujas canções têm por mote a memorável crônica de José Saramago, de igual título.

Nessa obra musical, destaca-se uma afinada relação entre música e teatro, entre João e Lisa. As personagens e os cenários compõem-se das histórias desvendadas nas canções, por meio de um canal de sensibilidade conectado ao roteiro (a seguir, entre colchetes), sugerido pelo texto poético do escritor português. Assim, temos na sequência do CD:

1. “O tempo e a paciência” (introdução do texto poético de José Saramago); 2. [A gota de água] Rio do tempo; 3. [O suor] Panorama; 4. [As flores de pedra] Meio lá pro sertão; 5. [A pérola suspensa] A estação esperando o trem; 6. [A união] Lisa; 7. [O olho fascinado] Sodrelha; 8. [A memória] Saudade do interior; 9. [A estalactite] Para Juliana; 10. [A coluna] Ao Jabá; 11. [A luz] Velho poeta; 12. [O rio] Canções; 13. [Os homens] Todos os nomes; 14. “O tempo e a paciência” (parágrafo final da crônica de Saramago).

A necessidade de entender o tempo, a natureza e as relações humanas forjaram o olhar de José Saramago na produção de umas crônicas que publicava no jornal A Capital (1969) e no Jornal do Fundão (1971-72), ainda num tempo de excessiva vigilância e censura nas terras lusas. Elas foram reunidas no livro A bagagem do viajante, publicado pela primeira vez em 1973, e de onde foi retirada a que é o fio condutor desse projeto musical de João Bid.

O tema do tempo abarca uma possibilidade em aberto, remete a uma multiplicidade de sentidos, e talvez diga muito das voltas que o mundo dá para que sejam contadas as histórias mais vibrantes. Isso é o mínimo que posso relatar de quanto foi impactante para mim ler a referida crônica de Saramago e ouvi-la declamada, na abertura do CD e ao final. Do recanto do meu imaginário, onde vive um unicórnio, talvez possa divagar sobre essa impressão que me ficou, sentindo-a como se o tempo fosse uma personagem, personagem que enfrenta  uma situação-limite que é dada a cada ser humano e da qual não se pode fugir, em que não há ensaio da peça, mas se exige toda sua fragilidade e sua força radical.

O que terá sido para João esse encontro com o tempo reforçou suas parcerias musicais, e sua memória afetiva agitou-se pelas saudades dos amigos que já partiram, tanto que dedicou o trabalho ao Abê Fonseca, músico que também integrou o Grupo Catavento, e ao Adriano Stuart, ator, diretor de teatro e cinema. Aconteceu, ainda, um evento feliz que precisa chegar ao conhecimentos dos leitores. João e Lisa estavam apreciando umas telas do artista plástico angolano, Valter Lereno, expostas num espaço cultural em São Roque (SP). Não tiveram dúvida de que aquela em que estava representada uma senhora negra, idosa, com lenço na cabeça e o olhar vago e humilde que reluzia o encontro do tempo e da paciência ficaria ótima na capa do CD. Assim foi feito. Levaram Bebeca, título da obra em pastel seco, para casa e combinaram com Lereno a divulgação da imagem. Difícil imaginar que houvesse outra a expressar tão generosamente o significado de uma vida longa, paciente, cartografia de experiências guardadas no lume do olhar, que nunca envelhece.

João, como foi o processo de você se dedicar às suas próprias letras e composição musical?

No fim do século passado e início deste, resolvi me dedicar às minhas composições. [João transita numa temporalidade poética, e me irmano com essa medida, de maneira que isso é um aviso para quem estiver lendo e, por acaso, sentir falta de precisão quanto aos marcos temporais.] Componho há mais de quarenta anos e, por conta da carreira com o grupo Catavento, minhas composições foram ficando de lado. O maior trunfo do Catavento era na interpretação. No fim dos anos de 1990, inventei de comemorar o fim do século através de um projeto que ligasse a literatura à música explicitamente, compondo e cantando um livro. Conversando com a Lisa e com minha prima Valéria, expus minha intenção e elas sugeriram o livro Dom Casmurro, de Machado de Assis, que coincidentemente comemoraria 100 anos de seu lançamento em 2000. Então, reli o livro várias vezes e coloquei minhas impressões em letras, que foram musicadas por Robson Silvestrini. O CD foi gravado em 2003 pela LINC (Lei de Incentivo à Cultura de Sorocaba), com o título Dom Casmurro na canção.

No CD O tempo e a paciência, há uma forte relação entre música e teatro. Normalmente, pensamos em um sentido que a música dá ao teatro, porque nele há o enredo que os atores representam, num cenário, e a sonoplastia (e em alguns casos mesmo há música) integra um dos elementos da peça. Mas em seu caso foi diferente: do teatro para a música. O que significou a concepção do projeto e roteirização da Lisa Camargo em seu CD?

Então, depois de um tempo do lançamento de Dom Casmurro na canção, comecei a pensar em fazer uma retrospectiva de minhas composições, com meus diversos parceiros, e registrar num CD. Novamente, eu e Lisa, minha companheira que toma conta do meu tempo o tempo todo. Pois bem, nós abrimos o debate sobre essa ideia e ela me questionou a quem interessaria tal CD, já lembrando do conceito de que eu deveria “subir nos ombros de um gigante para ver mais longe” (pesquisando, descobrimos que esse conceito é atribuído ao filósofo Bernardo de Chartres). Ela me disse isso e sugeriu a crônica “O tempo e a paciência”, de Saramago, como orientação desse trabalho, já que se tratava de recolher várias canções compostas no meu tempo como compositor. Fiz a seleção das canções, ela roteirizou, fazendo suas ligações com a crônica, e concordei na hora.

Como vocês foram combinando os procedimentos? Conte um pouco dessa trajetória das atividades até chegar ao trabalho final.

Penso que o registro de uma obra musical tem que contar uma história, por isso nada melhor do que incluir uma “contadora de histórias”, através do teatro, no meu projeto. Adorei a ideia da Lisa de ter a crônica de Saramago como orientadora do projeto e abrindo o CD. Fui relê-la, entendê-la e percebi que tinha tudo a ver comigo, com minha vida no plano pessoal e mesmo como compositor.  Fiz a seleção das composições e a Lisa cuidou de roteirizar o CD: foi ela quem estabeleceu a relação entre as canções e a crônica de Saramago. A minha ligação com o texto já estava consumada, mas penso que, com o passar do tempo, cada um fará a sua analogia – um exercício de liberdade que colabora para que o trabalho seja reconhecido como arte. Como eu e Lisa já morávamos juntos, o papo sobre o projeto era diário, mas não exclusivo, porque a Lisa sempre teve seus projetos. Em 2004 estava tudo pronto, quando montei o show com as músicas escolhidas e apresentei algumas vezes, até chegar ao CD, que foi lançado em 2006.                                                                                                                                                        

Qual a impressão mais forte para você do texto poético de José Saramago? Há canções em que ele mais se destaca no CD?

Acredito que todo trabalho artístico deve ser verdadeiro, ressaltando suas raízes culturais. Deve também ser poético. Se existe uma canção que me coloca nu, que expõe todas as minhas verdades, é A estação esperando o trem. Para mim, ela é a trilha sonora da crônica “O tempo e a paciência”, mas cada canção do CD mantém uma ligação com ela. Dando um exemplo, sobre a canção Rio do tempo, uma música que o Módolo compôs e me mandou para letrar. Ele se inspirou na mulher dele, quando ainda namoravam, e me disse que via algumas imagens. Isso foi antes de eu ter decidido incluir a crônica no CD. Então, eu escrevi a letra com este verso: “Numa gota do rio do tempo…”. No fim da letra, questiono: “Como será nosso filho?”. Não bastasse a coincidência de a crônica definir a paciência do tempo através da gota de água que constrói uma minúscula pedra… Sabe o que aconteceu alguns anos depois? O Módolo teve um filho com aquela mulher, o Francisco (a pedra construída pela gota de água), e esse nome foi uma homenagem ao Chicão, que morreu num acidente de carro junto com Kiko, ambos foram nossos companheiros na primeira formação do Grupo Catavento.

Como bem escreve Saramago, não sabemos o que é o tempo senão o que ele faz em nós, ou faz por nós. Acredito, no entanto, que o sentimos por meio de uma memória afetiva. Como é o tempo de sua criação artística? Quanto de inquietude, entusiasmo, redenção vivenciou ao produzir o CD?

É curioso, porque ao longo dos anos passei a entender que o grande tema de Saramago é o tempo, e esse também é o meu tema. Sem querer definir, penso que o tempo se compõe de lembranças e memórias. Lembrança é um amontoado de fatos, que está a um milésimo de segundo deste tempo. Já a memória é aquilo que cala, é a essência dos fatos, é a gota de água que vai construindo aquela minúscula pedra. Meu trabalho artístico é a minha memória, é a pedra. De fato, esse não é um processo fácil, e o CD O tempo e a paciência me deixaria nu, considerando minhas dúvidas com relação ao trabalho, se realmente é arte, se tem profundidade. Foi a hora de apresentar minhas memórias, minhas verdades, e isso é sempre precedido de dúvidas, medos e inseguranças. É uma sensação recorrente e quando eu estava comemorando meus 60 anos, no CD Ensaio sobre nossas coisas, como introdução à última faixa, A estação esperando o trem, gravei um texto meu sobre o tempo e num dos trechos ressalto que a gente não muda, apenas adquire conhecimento, em meio aos encantos, às tristezas e decepções. Depois, acrescento: “Ah! O mais importante. O tempo te dá a oportunidade de encontrar as artes. Mas você é a mesma pessoa. Mais velha, mas a mesmíssima pessoa. O tempo te ensina, entre muitas outras coisas, que o seu tempo é o tempo do mundo”.

Panorama é uma canção que traz a atmosfera de um universo rural, de uma raiz antiga, lá onde as pessoas têm amor pela natureza, pela plantação e colheita. Qual é a história dessa música?

Panorama é uma cidade do extremo oeste do estado de São Paulo e faz divisa com o Mato Grosso do Sul. Se estivermos na cidade, para ir ao Mato Grosso é preciso atravessar 2,5Km de um lado ao outro do Rio Paraná. Em meados da década de 1980, eu e um grupo grande de amigos passamos uma semana num rancho no Mato Grosso. Fomos de trem até Panorama e atravessamos o Rio Paraná até o Porto João André, Mato Grosso. Do lado de São Paulo, civilização, do outro, não. Fomos orientados a não entrar em discussão com os moradores, porque lá o Rio Paraná era a Justiça. Os atritos eram decididos pessoalmente e o destino do perdedor era o Rio Paraná. Porém, o que vimos lá, foi um povo simples, pacífico, que trabalhava a terra. Numa noite, o Kiko pegou o violão e fomos letrando a canção que ia nascendo, e assim criamos Panorama.

Tem outra canção em que você traz o tema da terra, da gente do campo, cujo título é Meio lá pro sertão…

Exatamente! Na década de 1980, o sertão era tema recorrente na MPB, dado o contexto do Nordeste com relação à seca e à pobreza. Nessa época, muitos compositores nordestinos expressavam por meio da música sua terra e sua gente. Como já disse antes, penso que o artista tem que ser verdadeiro e deixar que suas raízes culturais se apresentem em sua arte. Um dia, o Kiko chegou com essa música, já com esse título e me pediu a letra. Torci o nariz, pois não tínhamos a vivência necessária para falar sobre esse tema. Decidi escrever, mas procurando manter a distância. Enfim, eu tinha um desafio claro, através da canção, que era o de procurar não querer ser um nordestino, mas alguém que estava em outro terreno. Minha voz era de alguém que dizia de uma situação conhecida, não vivenciada, mesmo porque o título já demonstrava a distância, Meio lá pro sertão. Esse foi o tema do primeiro show do Catavento, com objetivos profissionais. Uma curiosidade ocorreu quando essa canção foi mostrada para um nordestino e este afirmou que aquela letra só podia ser de um nordestino. Ele citou o verso: “E o boi, sem ter culpa da sede, deixa a ossada no chão”. Aquilo me deu a tranquilidade necessária para que a canção fosse incluída no CD, então nos anos 2000.

Tem mais uma canção que resultou de um encontro com outras paisagens. O que você conta a respeito de Sodrelha?

Sim, foi outra canção nascida numa viagem. E novamente com o Kiko. Acho que o Kiko foi o único parceiro com quem consegui letrar uma música assim que ela surgia. Sabe aquela coisa de pegar o violão, ir fazendo a música e a letra vai saindo? Acho que foi o único. Sodrelha [a forma escolhida pelo coração dos músicos, mas o nome oficial é Sodrélia] é um lugarejo, situado entre Bernardino de Campos e Santa Cruz do Rio Pardo, ambas cidades do estado de São Paulo.   O parente de um amigo nosso tinha uma fazenda nesse lugar e fomos lá passar uns dias. Como era praxe, sabíamos que sairia uma canção e esta foi amadurecendo à medida que os dias passavam. O lugar era lindo! Sem muita comodidade, mas lindo. Realmente, nossos olhos ficaram fascinados. A letra é cheia de imagens vistas lá; imagens que fazem a gente querer trazer o lugar com a gente, quando volta. Curioso que, anos depois, conversando com uma pessoa, soube que ela, e grande parte da família também, nascidos e criados em Sodrélia vieram morar em Mairinque. Era o Tio Zico, da pastelaria Tio Zico e Tia Fia, pai do Carlos Nego, um garoto também ligado à música. Imediatamente dei um disco ao Zico e à Fia e nossa amizade começou ali.

A associação à memória, em virtude do roteiro, está associada à canção Saudade do interior, na parceria com Robson Silvestrini e conta com a participação especial do grupo A quatro vozes. Como foi a interlocução com ele, Silvestrini?

A primeira mulher do Robson Silvestrini, Isabela, é mineira e morava em São Paulo, quando a conheci. Certo dia, enquanto conversávamos, ela revelou estar incomodada de morar na cidade de São Paulo e falava com saudade da tranquilidade da terra onde nasceu. O Robson havia feito uma música e me mostrou, querendo que eu a letrasse. Logo pensei em tratar daquele sentimento que havia identificado na Isabela e, assim, saiu Saudade do interior. Quando fui gravar, fui apresentado às maravilhosas meninas do A quatro vozes, e elas se apaixonaram, tanto pela canção quanto pela história, uma vez que elas são mineiras. Toparam na hora gravar. Depois, elas fizeram um CD chamado Interior, motivadas pela canção, e gravaram essa canção, minha e do Robson Silvestrini, no CD delas.

Eis que agora você pode me relatar algo a respeito de Para Juliana, cuja música é da Maria Cândida. Essa bela canção me deixou intrigada, tem algo de enigmático nessa figura feminina idealizada.

Juliana é o nome de uma garota muito linda, que nos anos de 1980 trabalhou como garota de programa numa boate chamada Pierina, que funcionava onde hoje é o espaço Laço Aberto, na divisa de Mairinque e São Roque. Ficava encantado de vê-la na noite, mas nunca me aproximei dela, não sei se por medo, ou para preservá-la nos meus sonhos.  Ela era a mais solicitada, sua beleza era arrasadora, e na madrugada ela ia para outras casas noturnas, onde tomava conta. Um dia, porém, ela sofreu um acidente. Aconteceu algo muito triste. Ela estava na garupa da moto de um rapaz e, ao atravessarem a linha férrea, foram atropelados pelo trem. Juliana ficou três meses afastada, talvez internada, não sei. Passado esse tempo, ela voltou, mas transformada, cheia de marcas no rosto. Não tinha mais o corpo que a consagrou, portanto não era mais a dona da noite. Fiz uma letra meio trágica, que a Maria Cândida musicou. A Maria usou apenas a primeira frase “Ela sentia-se rainha” e continuou a música. Posteriormente, eu fiz a adaptação da letra, que ficou como é hoje. Essa canção Para Juliana ganhou, em 1997, o Festival Nacional do Conservatório de Tatuí.

Ao jabá é uma canção que decidiu morar na minha mente, por conta da alegria que evoca e da aliteração (“já batem” que não é somente verbo, mas igualmente a reiteração do nome, Jabá). E as vozes das crianças, incríveis. Remete a um tempo de Mairinque de outrora, em que a praça fervilhava de gente que ia assistir a eventos culturais.

Jabá era o famoso pipoqueiro de Mairinque. Trabalhou vendendo pipocas durante 50 anos, em frente ao Cinema de Mairinque, hoje Centro Municipal de Educação e Cultura (Cemec). Essa composição faz parte de outro projeto, que se propôs a cantar Mairinque, em que eu e a Maria fizemos composições, todas a respeito da cidade. Convidei o Edson D’aísa para cantar comigo, porque ele também fez um trabalho onde cantou São Roque e porque ele é um dos meus irmãos musicais.

Que honra ter conhecido Gianfrancesco Guarnieri, personalidade monumental. Para ele, você e Lula Barbosa compuseram Velho poeta. O que deseja narrar sobre essa canção?

Em 1994, o Catavento foi convidado a fazer parte do Projeto Poeta, Mostra Tua Cara, para cantar as composições de Guarnieri, por escolha dele. Ficamos amigos de Guarnieri e Marília Medalha, que também foi convidada a fazer parte do projeto. Nos shows, além de nós, Marília e Guarnieri, a base do show, tínhamos sempre umas participações especiais dos parceiros de Guarnieri: Edu Lobo, Toquinho, Carlos Lira e Sérgio Ricardo. Fizemos várias apresentações e nossa amizade se enraizou. Eu o chamava de poeta e ele sempre dizia que não se considerava poeta. Quando voltamos de quinze apresentações no Rio de Janeiro, a letra “Velho poeta” estava pronta e o Lula Barbosa a musicou.

A simbologia do rio está presente muito forte em Canções, que nos faz lembrar que o rio não corre no mesmo lugar, que as águas lavam e levam, por sorte também hão de numa curva carregar os males desta era de fascismos… 

Sim, existe essa analogia marcante com o rio, porque essa canção é uma homenagem ao fazer arte, à construção de canções. Mais particularmente quanto o fazer canções é importante na minha vida e é importante para a vida das pessoas. Outro ponto relevante é que o rio é também a vida, são as canções que passam e nunca mais serão as mesmas, representando uma coisa diferente para cada pescador.

Todos os nomes é um tributo a homens, músicos ou escritores. Como foi essa composição? Aproveito o momento e deixo uma provocação: hoje se você fosse homenagear mulheres, da área da música, literatura ou poesia, além da Lisa Camargo (para quem escreveu a bela canção Lisa), quais seriam?

Essa canção, eu e Módolo compusemos no Rio de Janeiro, numa de nossas estadas por lá. O Módolo propôs que compuséssemos algo ali, no Rio, num momento tão importante para nós. Falei para ele compor uma bossa, estávamos no Rio, seria bem apropriado. Ele fez e eu, já leitor de Saramago e tendo até ali o que eu considerava o melhor livro dele, Todos os nomes, resolvi me inspirar nessa obra. O livro trata do fato de as pessoas serem apenas um nome na prateleira do cartório de registro civil. Peguei esse gancho e na letra quis realçar a importância do ser humano que existe atrás de um nome: saiu Todos os nomes. Ah, muito interessante a observação sobre as mulheres. Como eu faria uma letra para homenageá-las? Boa ideia, então eu me comprometo a fazer essa homenagem, através de uma letra de música. Mas eu precisaria ir um pouco mais fundo na memória e me dedicar a uma pesquisa. De cara, me vêm artistas como a Elis Regina, a Elisa Lucinda e, no campo da política, Marielle Franco, Dilma Rousseff e muitas outras. Vou fazer algo reunindo todas essas mulheres. Vale ressalvar, porém, que já fiz homenagens a mulheres em minhas canções, e não foram só para os amores.

Há alguma particularidade no desfecho das canções, que é sua declamação do parágrafo final da crônica de Saramago?

Novamente o dedo da Lisa. Ela enxergou e me mostrou que o último parágrafo da crônica era o fechamento do trabalho. E realmente considerei muito apropriado e sensível. Por esse motivo, foi escolhido para fechar o CD, ao mesmo tempo que sempre fechava os shows dessa maneira, dizendo da humanidade, dizendo da “verdadeira matéria do tempo”.

Faz alguns anos, você escolheu ter uma moçada a seu lado, perfazendo uma trajetória musical. O que você aprendeu de novo ou nas formas de interagir com esses músicos?

No fim do século passado e início deste, minha proposta era fazer um trabalho acompanhado por músicos jovens. Meus parceiros, para esse trabalho, eram os antigos, sendo o mais novo o Robson Silvestrini, mas eu queria ser acompanhado por jovens. Por quê? Tenho dentro de mim que as experiências adquiridas durante nossa vida devem ser compartilhadas, para somar nas vidas de outros. Naquela época, eu já tinha uns bons anos de música, tinha me apresentado com muitos músicos bons, os CDs do Catavento tiveram grandes músicos e eu achei que era hora de começar a compartilhar minha experiência. E, talvez, acrescentar na vida artística de jovens, que iniciavam na música. Tinha comigo que o trabalho de resgate das minhas composições precisava contar minha história, minhas influências musicais e de vida. Quando eu era ainda criança, toquei bombardino em Mairinque, na banda de um padre. Então, eu queria um bombardino a me acompanhar, mas não consegui (bombardino estava fora de moda). Pensei em trombone, que tem um som semelhante, e encontrei, no início deste século, um menino de uns quinze anos, Filipe Fonseca, que queria seguir na música e já mostrava qualidades tocando seu trombone. Celsinho Andrade, com vinte anos, já me acompanhava no violão nas minhas cantorias noturnas. Montei o show “O tempo e a paciência” com os dois e, quando chegou o tempo de gravar o CD, foram eles os escalados para gravar. Celsinho Andrade tornou-se um empresário da música e toca na noite até hoje, além de ter seguido meu conselho para prestar um concurso e se tornar funcionário público. Filipe continuou na área da música, abraçou-a com gana e depois conseguiu concluir a graduação em Regência na USP. Atualmente, o Filipe é regente de coral, já bastante influente, e foi, durante um ano, assistente do Gil Jardim – amigo nosso – na regência da OCAM (Orquestra da USP). Acho que minha parceria e meu incentivo valeram.

Eloísa Aragão é historiadora (mestrado e doutorado em História Social pela USP), editora, preparadora e revisora de textos. Em seu olhar, o isolamento social evidencia o sentimento que une as pessoas mediante as artes, as trocas, os livros, as ideias transformadoras, os nossos melhores gestos. 

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