Todos a Bordo – Diário de um Pandemônio (blog coletivo com atualização diária)

10 DE JULHO DE 2020

Fim de semana de quarentena e longe do chuveiro

Charge / Crédito: Frank Maia

9 DE JULHO DE 2020

Covid e as Feique Nius

FREDERICO MORIARTY

Bolsonaro não está com Covid. Simples. Como justificar para as famílias de quase 70.000 mortos o comportamento pérfido do presidente? Até o fim de julho serão mais de 90.000 óbitos. Contem-se os familiares próximos e temos cerca de 1 milhão de brasileiros que perderam e sofrem por seus entes queridos que se foram. Além disso, temos 2 milhões de infectados. Desses, cerca de meio milhão ficou em UTIs ou entubados (ou os 2). Faça as contas: DEZ milhões de brasileiros passaram o escambau por causa desse vírus e da doença. E, boa parte, pelo comportamento negacionista do chefe de estado.

Muitos profissionais da saúde que tanto brigaram pela sua eleição, hoje, decepcionados, o rejeitam. A doença vai longe, talvez agosto inteiro. Junte com a recessão brutal que abriu as portas. O comércio reabriu em vários cantos e as ruas e xópins, apesar de lotados, estavam eram tomados de voyeurs. Gente sem grana e sem emprego, batendo perna só pra sair de casa tomar um ar (contaminado). Bolsonaro culpou a China, a Ciência, os ministros, os governadores, os comunistas, a globalização. Agora não resta mais ninguém. (E o PT? Esse é a serpente do Paraíso). O cidadão sacou que não é uma gripezinha. E que a maldita veio pra deixar a gente de bolso vazio.

Fotos: Bancos de imagens digitais gratuitos


Um filme. Pensem num filme. Ele passa mal. É internado. Ficamos sabendo que foi para UTI. A nação reza pelo Salvador. O homem que irá sofrer por nós. Ele agora é vítima da pandemia. Os pastores oram (de máscara). Os médicos receitam-lhe Cloroquina. Afinal, o que fazer com os milhões de cápsulas compradas do amigo militar? Milagrosamente, lá pelo fim de julho, ele resiste. Andará sobre as águas do Lago Paranoá. Como um Deus retornará ao país que, ajoelhado, pedia pela vida do seu líder. Na entrevista aos órgãos de comunicação, ele, com os pés levemente úmidos, dirá: não sou Jesus, mas sou o Messias.

Jair é a ilusão da verdade. A mentira que prevalece e governa. Não é como Getúlio, que pra livrar a cara meteu um tiro no coco e virou mártir. História não se repete. Foi tragédia, agora é farsa dantesca.

Tudo pronto para a votação triunfal nas eleições de novembro.


Rei da selva

(Para ler a coluna desta quarta-feira (8/7) da jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, clique na imagem acima ou aqui).

Jogo da velha da floresta

MARCO MERGUIZZO

Criação: Marco Merguizzo

Filho de porco, porquinho é

Crédito: Meme anônimo

7 DE JULHO DE 2020

Um beatle octogenário que só quer paz e amor

MARCELLO FONTES

Caricatura / Crédito: Quino

Hoje, Sir Ringo Starr faz 80 anos. Ao contrário do que o senso comum sempre disse, não foi simplesmente sortudo nem irrelevante. Foi escolhido para substituir Pete Best, em 1962, quando o primeiro demonstrou não ser capaz de segurar o ritmo correto na primeira gravação na EMI por já ser conhecido à época como o melhor baterista de Liverpool.

Ringo introduziu personalidade própria à bateria que acompanha cada canção dos Beatles. Nunca gostou de solos (de fato, há apenas um registro, em You never give me your money / carry that wheigt) e esta ausência de um virtuosismo exacerbado é por vezes confundida com limitação. Afora sua personalidade afável, conciliadora e divertida, que produziu um legado de carinho e amizade contínua não só entre os Beatles mas também entre o mundo do rock, como bem demonstra sua All Star Band.

Como de costume, hoje haverá uma “festinha” com muitos convidados especiais, desta vez em seu canal no YouTube às 21h (horário de Brasília): https://youtu.be/7YjPfyflyvQ

Vida longa, paz e amor, Ringo!

Faixa-título do último álbum de Ringo Starr, Give more love: bela e tocante

Agenda da Quarentena

Entrevista sobre Covid-19, peça de Paulo Betti e palestra sobre Villa-Lobos são boas opções da semana

JOSÉ CARLOS FINEIS

Público vai poder participar com perguntas da live ‘Covid-19: quando (e como) tudo isso vai terminar?’

Data: 7 de julho
Horário: 19h30
Participação gratuita

O público de Sorocaba e região poderá participar com perguntas da transmissão on-line ao vivo marcada para a noite desta terça-feira, 7 de julho, com o tema “Covid-19: quando (e como) isso tudo vai terminar?”

A live é uma realização do Fórum em Defesa da Vida, que reúne mais de 60 entidades representativas dos mais diversos setores populares, entre eles, organizações de profissionais da Saúde, sindicatos, conselhos municipais, partidos políticos, movimentos sociais e acadêmicos.

Para tirar as dúvidas da população, foram convidados o professor da UFSCar Bernardino Geraldo Alves Souto, médico intensivista e epidemiologista, mestre, doutor e pós-doutor na área de Infectologia; e o técnico de enfermagem André Antonio Fonseca Diniz, diretor regional do Sindicato dos Trabalhadores Públicos da Saúde no Estado de São Paulo (SindSaúde-SP).

A mediação será do jornalista José Carlos Fineis, representante do Coletivo de Blogueiros Independentes Terceira Margem — uma das entidades que integram o Fórum em Defesa da Vida.

As perguntas podem ser enviadas inbox para a página do Fórum em Defesa da Vida no Facebook (link abaixo) e para o whatsapp (15) 99132-3216.

Endereço: https://www.facebook.com/forumdefesavida


‘Autobiografia Autorizada’ de Paulo Betti estreia na quinta com apresentações ao vivo e ingressos a R$ 10,00

Datas: 9, 16, 23 e 30/7 (quintas-feiras)
Horário: 17h
Ingresso: R$ 10,00

O ator Paulo Betti sobe ao palco do teatro Petra Gold, no Rio de Janeiro, nesta e nas próximas quintas-feiras de julho, para apresentar o seu monólogo “Autobiografia autorizada”.

O projeto Teatro Já foi organizado pelos artistas do Rio, como alternativa para o fechamento dos teatros, devido à pandemia de covid-19. Os ingressos on-line são vendidos ao preço único de R$ 10,00.

Durante três meses, haverá apresentações de peças teatrais, monólogos e shows musicais transmitidos ao vivo, sempre às 17h, pela internet, e com apenas uma pessoa na plateia, representando o público on-line.

Para mais informações e a programação completa, leia o último post do Blog do Paulo Cabra, publicado aqui no Terceira Margem:

Se você não vai ao Rio, o Rio vai até você. Jornada teatral e musical on-line começa neste sábado


As muitas dimensões de Villa-Lobos são apresentadas em curso gratuito que começa nesta sexta-feira

Datas: 10 e 17/7 (sextas-feiras)
Horário: 17h
Participação livre mediante inscrição

Pela primeira vez desde que foi criado, 11 anos atrás, o projeto Schaeffler Música deixa de ocupar os palcos dos teatros e vai para a internet, com um curso gratuito sobre o maestro e compositor brasileiro Heitor Villa-Lobos.

As aulas on-line serão ministradas pela jornalista e especialista em música clássica Camila Fresca.

Por duas sextas-feiras seguidas, Camila falará sobre aspectos importantes da biografia e do legado de Villa-Lobos, que incluem sua participação na Semana de Arte Moderna de 1922, seu projeto de canto orfeônico e sua relação com as artes e a política de sua época.

A inscrição é gratuita e deve ser feita obrigatoriamente pelo WhatsApp da MdA: 15-3211-1360 até as 14h da sexta-feira, 10. Após se inscrever, o interessado receberá um link para assistir à palestra.

Veja no vídeo abaixo um resumo do curso, apresentado pela pesquisadora Camila Fresca.


6 DE JULHO DE 2020

No “Novo Mundo”, máscaras vão moldar padrões sociais

MARCO MERGUIZZO

Foto: Arquivo

Já era: um mundo sem reconhecimento facial em toda parte.

Já é: leitura biométrica da córnea que faz reconhecimento facial.

Já vem: super câmeras de satélites posicionadas ao redor do globo (que não é plano, taokey?!) para fazer a identificação pessoal sem nenhuma margem de erro.

Enquanto isso não se consolida, até daqui a pouco, nestes tempos atuais de “cecentena” – quarentena de exatos 102 dias – uma coisa é líquida e certa: com as máscaras contra o coronavírus rapidamente se tornando itens de uso diário e, ao que tudo indica, fazendo parte do nosso cotidiano por um longo tempo, passaremos a usá-las mais do que imaginamos ou gostaríamos.

Ou seja, elas vão determinar e moldar, queiramos ou não, os novos padrões de comportamento social pós-pandemia. Ou seja: o “Novo Mundo” será de “mascarados”. E, como resposta a essa nova demanda iniciada pela Covid-19, várias iniciativas já estão em marcha.

Uma delas que chamou minha atenção foi a de um empresário belga resolveu que era hora de humanizá-las – literalmente. A notícia saiu num site alemão, o Deutche Welle. Utilizando uma cabine de fotos, software e um aplicativo para celulares, o inventor da ideia, Charles de Bellefroid, passou a produzir máscaras cuja parte inferior têm o queijo, boca e a ponta do nariz do usuário impressa nela – uma ideia simples e simpática que agradou aos seus conterrâneos.

A belga Virginie no supermercado: “Dá pra saber agora quem é quem
Qualquer semelhança com o velho silk-screen não é mera coincidência

Após fazer o pedido, a pessoas recebe um link para baixar um aplicativo que permite tirar uma foto de seus rostos e enviar para a empresa. A máscara com a parte inferior do rosto impressa é enviada, então, pelos correios alguns dias depois. Custa 19,99 euros e pode ser lavada, antes de ser descartada, de oito a dez vezes.

Uma máscara é impessoal. Aqui, tendo nossos rostos impressos, é mais amigável, é mais divertida”, apoiou esta iniciativa Virginie Thys, mãe de duas crianças e moradora de Genval, próximo a Bruxelas. “Agora mesmo, estamos todos usando máscaras e sabemos com quem estamos falando. Achei uma grande ideia” elogiou.

Máscaras high-tech transparentes

Neste modelo, o rosto fica visível mas põe “cavanhaque” até em mulheres

Mesmo que a recomendação seja de que fiquemos em casa, quando precisamos sair para algum compromisso inadiável, ela é obrigatória. Por esquecimento, descaso ou, pior, por pura negligência mesmo, nos pegamos sem ela e relutamos em incorporar esse novo costume, ainda mais quando as opções de máscara são por vezes sufocantes, além de ocultarem o nosso rosto e a nossa identidade.

Para tentar resolver parte desses problemas, uma empresa norte-americana, a LEAF, desenvolveu uma máscara de silicone transparente. Certificada pela Food and Drug Administration (FDA), o novo modelo filtra o ar e é dotada de um mecanismo de autopurificação que evita o embaçamento – touchée! para quem, como eu, não pode ficar sem os óculos. No design desta máscara, que lembra filmes de ficção como Blade Runner e Alien, o oitavo passageiro, o filtro fica localizado abaixo do queixo.

Enquanto você respira, o ar passa por esse filtro, fornecendo 99% de ar puro. De quebra, é possível manter o nariz e a boca visíveis. Além disso, a máscara é inclusiva, principalmente para deficientes auditivos. Único senão parece ser um detalhe estético: a cor do filtro, que é cinza.

Quando a máscara é colocada, parece que há sob o queijo um cavanhaque. Um problema ainda a ser resolvido pela fábrica. A menos que a vaidade dos homens – e sobretudo das mulheres – não interfira na decisão de compra da novidade.

De todos os modelos, esta pareceu ser, pelo menos para mim, a mais próxima de uma “nova normalidade” e de uma volta à vida que tínhamos antes da pandemia. Mas, certamente, um mundo bem diferente daquele, no qual passaremos a viver numa “sociedade dos mascarados” literalmente, a nova ordem social pós-Covid.

Charge / Crédito: Nani

5 DE JULHO DE 2020

Um conto borgiano em tempos de pandemia

GILBERTO MARINGONI (*)

Personagem classe média, em home office, mulher e filhos pequenos, se tranca na despensa com um laptop para participar de uma série de reuniões durante o dia sem ser importunado.

A primeira prolonga-se além do tempo, ele entra na segunda pelo celular, a primeira termina, ele engata numa terceira enquanto a segunda perde-se numa espiral de relatórios e urgências inadiáveis, não sai para almoçar e nem para ir ao banheiro. A mulher, entretida com os filhos faz jantar para os pequenos, dá banho em cada um e dorme exausta com os dois, na cama.

Dia seguinte acorda tarde, vai até a despensa, porta trancada, vozes variadas, ela imagina que o conge segue em nova rodada com o pessoal da matriz, ou com a equipe de vendas, cuida da casa, entretém-se com as crianças, faz almoço, janta, limpa cocô até que, oito da noite, decide voltar à despensa, bate na porta, ouve vozes, busca a cópia da chave, não encontra, tenta arrombar inutilmente, grita, chora esperneia, não consegue chamar ninguém por força do isolamento e passa a noite em claro.

Dorme na manhã do terceiro dia, enquanto as crianças pintam e bordam pela sala, quartos e cozinha. Ninguém se machuca. Resolve chamar o cunhado, desconfia que o marido teve algum treco no meio do trabalho – covid não pode ser, não é tão rápido assim – e caiu em cima do computador. Chega cunhado com um pé de cabra e máscara, arromba a porta e não há ninguém no recinto. Olham por todo lado, ele não podia ter se jogado pela janela basculante – é muito pequena – e ficam sem saber o que fazer.

Família Addams (1964): o que era exótico e pura ironia virou real

De repente, do fundo da tela do computador, Zoom ligado, ouvem um fio de voz ao longe:

– Ajuda!! Pelamordedeus! Me tirem daqui, rápido, vai acabar, vai acabar…

Puf! A bateria chega ao fim, a tela escurece, o computador desliga. Nunca mais volta.

Ninguém tem o seu login e senha.

(*) Gilberto Maringoni é jornalista, cartunista e professor universitário.


4 DE JULHO DE 2020

Home office da mamãe da Scarlett

Vídeo / Crédito: Twitter BBC News Brasil

3 DE JULHO DE 2020

Vírus no ar: tá todo mundo louco?

MARCO MERGUIZZO

Desenho: Angel Boligan / Fotos: Arquivo

Sim, estamos doentes. E não só fisicamente – também da cabeça. E não são poucos. Por certo, muito, muito mais que as 510 mil vidas roubadas pela Covid-19 até esta sexta (3/7) em todo o mundo, 63 mil delas só aqui no Brasil. De fato, um motivo mais do que suficiente para devastar qualquer ser humano e abalar o emocional de todo aquele que tem alguma sensibilidade, consciência e empatia, e luta para sublimar este terrível e grave momento pelo qual estamos passando.

Além dos inúmeros artigos sobre projeções, conjecturas e possíveis mudanças de comportamento que se darão após o choque sanitário, econômico e de realidade que foi a pandemia, tenho visto reportagens sérias e bem fundamentadas sobre os efeitos nefastos do isolamento social no nosso dia a dia relacionados à psique humana.

O que inclui desde a reprovável e inaceitável violência doméstica contra mulheres, lamentavelmente em alta no país, ao número expressivo de pessoas que sabiamente está sabendo lidar e tirar lições, adaptando-se e reinventando o seu modo de vida ante a nem sempre simples e fácil rotina do confinamento. Por outro lado, há quem esteja mergulhando profundamente na depressão.

É o que relata uma das reportagens que chamou minha intenção, publicada recentemente pelo portal on-line do tradicional Estado de Minas, de Belo Horizonte. O jornalão, em sua versão digital, destacou na capa a disparada dos casos de estresse, angústia, depressão e ansiedade em meio à quarentena em todo o país.

HQ / Crédito: Céllus

Para embasar o texto, o jornal citou um estudo realizado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) através de um questionário on-line enviado, entre março e abril, a 1.460 pessoas de 23 estados. O levantamento aponta que os casos de depressão quase dobraram e os de ansiedade, angústia e estresse tiveram um aumento de 80%. Além disso, a pesquisa revelou que as mulheres são mais propensas que os homens a sofrer de ansiedade e estresse durante este longo e exaustivo período de isolamento.

Outros fatores de riscos também foram apontados como catalisadores de estresse e ansiedade, como a alimentação desregrada, doenças preexistentes, ausência de acompanhamento psicológico, sedentarismo e a necessidade de sair de casa para trabalhar.

Na matéria, um professor da UERJ, Alberto Filgueiras, alertou para a pressão social destes tempos, o que impõe ainda mais uma carga extra de estresse sobre as pessoas. “Isso pode gerar ainda mais angústia”, disse. “Portanto, respeite o seu estilo de vida e limites e não mude seus hábitos radicalmente de uma hora para outra”, aconselhou.

Bunker anti-Covid
Pela bagatela de R$ 187 mil é possível ter um bunker básico de concreto

Outro conteúdo que mereceu minha atenção, reflexão e boas risadas foi o registro do portal do pra lá de idôneo BBC News Brasil que noticiou uma explosão na procura nos Estados Unidos por ‘”bunkers anti-Covid” (sim, é isso mesmo, você não leu errado) – e não só por ricaços americanos e uma legião de preppers preocupada com o fim do mundo.

Geralmente associados a milionários e aos chamados preppers (termo que designa o grupo de pessoas que se prepara para o apocalipse), esses abrigos subterrâneos têm atraído uma clientela variada, assustada com a crise e temerosa de que a situação possa se agravar no futuro.

Empresas ao redor do país relatam que o número de pedidos aumentou tanto nos últimos meses que tem sido difícil atender à demanda. Os preços oscilam em U$ 35 mil (o básico de concreto) a U$ 2 milhões, que dá direito ao dono proteger-se da hecatombe em um mega apartamento de luxo de dois andares, com direito à sala de ginástica, sauna, bar e piscina privativos e todo conforto e mordomia.

“Ao longo dos últimos dez anos, houve algumas catástrofes que geraram muita procura”, destacou o dono da Survival Condo, Larry Hall na reportagem, citando como exemplos o terremoto e tsunami que atingiram o Japão em 2011, o asteroide que caiu na Rússia em 2013 ou o medo da epidemia de ebola no meio da década. “Mas este é o maior aumento que já vimos”, disse. “Com a covid-19, houve aumento de cerca de 800% (na procura).”

O objetivo de quem busca esses abrigos é garantir um local seguro para sobreviver a possíveis catástrofes, sejam terremotos, ataques nucleares, desastres naturais ou outras calamidades que desencadear instabilidade política, colapso econômico, saques e caos generalizado. Ou seja, os bunkers não protegem contra a pandemia (hello!). “Você tem o mesmo nível de proteção do que em sua sala de estar”, comparou de forma irônica um outro construtor, Brian Camden, da Hardened Structures.

Engraçado? Talvez. Triste? Por certo. Mas tudo isso é muito, muito preocupante. Como dizia uma velha canção do cantor Sérgio Britto, lançada em 1976, “Pare o mundo que eu quero descer”. Ou, ainda, um outro grande sucesso dele, de 1979: “Tá Todo Mundo Louco”. Invisível, o vírus está no ar mas, como se vê, também pode contaminar nosso emocional e, infelizmente, afetar nossas cabeças.


100º dia de quarentena: tem gente que ainda não entendeu

Cartum / Crédito: Quino

2 DE JULHO DE 2020

Ano perdido

FREDERICO MORIARTY

Sim, 2020 é ano perdido. Paramos tudo em 90% do mundo. As ruas ficaram vazias, as praças desertas, escolas silenciadas, fábricas e lojas fechadas, como num filme de terror. O mundo deixou tudo em ponto morto. A economia entrou em recessão. Olhando dessa forma, temos certeza: 2020 deveria ser riscado do mapa, as folhinhas e agendas jogados ao lixo. Quanta besteira. Ahh, Frederico, desde quando o bolso não importa? Amigxs leitores, antes da Pandemia eu devia pra meio mundo, depois dela ficarei em débito com a outra metade. Então, lhes digo: a questão financeira não é o centro.

Pra mim 2020 é um ano fantástico. Talvez jamais teremos outra possibilidade de rever tudo. Trabalhamos feito doidos, não temos tempo pra nada e nunca. A vida pra maioria das pessoas, é um corre-corre infinito entre um dia do trabalho e o outro. Não rezamos pelo fim-de-semana para comemorar no bar. A cerveja é só um desafogo, uma tentativa de esquecer as tensões e preocupações da vida. Não bebemos por prazer, engolimos algo que desafogue nossa tristeza.

Primeiro ganho: posso abrir uma latinha, tomar um suco, uma caipirinha, só pelo prazer de beber. Ter mais tempo em casa significa mais lazer. Quem gosta de novela pode acompanhar todos os capítulos sem traumas. Sem precisar justificar nada. Para os que adoram música tivemos shows ao vivo (láive, fala láive), de graça, com todos os gêneros musicais conhecidos.

Seriados? Eu assisti alguns que estavam nos “favoritos” há séculos. Filmes? Até o chatíssimo ” Parasita” acabei por ver, mas chorei mesmo foi com Toy Story 4. Os que gostam de ler puderam se refestelar. Eu li mais de uma dúzia de romances nesses 3,5 meses. Até o Cirque du Soleil vi com a Luana Milani e sem precisar pagar 50 pilas numa pipoca. E a proximidade?

Estamos em casa (quem teve o privilégio) e isso permitiu que os laços de afetividade crescessem. Pais e filhos se ajustaram. Mães ressentidas em deixar a casa, puderam ficar ao lado de quem amam. Irmãos que quebram o pau, aprenderam a conviver e quebrar o pau mais civilizadamente.

Saudade. A pandemia nos permitiu sentir saudades dos que temos amor, afeto e carinho. E entender o quanto desperdiçamos tempo em ficarmos afastados deles. O coração é muito mais valioso do que a prata. O isolamento social, claro, ressaltou problemas. Violência doméstica, incomunicabilidade, ódios, rancor, tristeza, solidão e depressão se avolumaram em tormenta e dor.

Mas estas condições já existiam antes e ninguém garante que sem a pandemia esse movimento também não ocorreria. Talvez até a concretude do problema seja um referencial maior pra muitos enfrentarem os traumas. 2020 é perdido pq o passado foi insatisfatório. 2020 é perdido pq o futuro é de sucesso e realizações (econômicas de novo!). O que interessa é o agora.

Quando vemos os 61.000 falecidos com a Covid no Brasil e os mais de meio milhão no mundo entendemos isso. Tantas vidas importantes, tantas histórias maravilhosas, tanta tristeza causada pela velocidade e inesperada morte de alguém tão amado. Sem despedidas, sem abraços, sem sequer um último olhar. Pra todos os que amam e perderam alguém, sim, 2020 é perdido.

Para todos os outros, 2020 é um ano vivo. Por aqui, tive 4 meses ao lado das minhas filhas, na melhor fase da vida delas ( que pra mim dura uma eternidade). Entre uma aula virtual e outra, pude ver Júlia e Laura me trazer felicidade o dia todo, a semana toda, toda hora e feriado. Conversei (à distância) muito mais com meus amigos e amigas. Falta um abraço, um churrasco, uma risada conjunta, mas antes não tínhamos tempo pra nada.

Fora a possibilidade de podermos nos distanciar dos inimigos, dos traíras, dos inescrupulosos. Só aí, 2020 já é um ganho. Quantas histórias teremos pra contar? Até parto de cachorra nós fizemos ( com meia dúzia de cachorrinhos crescendo pela casa). Profissões menosprezadas foram resgatadas: motoboys, lixeiros, profissionais da saúde, profissionais de limpeza, professores.

Só falta melhorar o respeito, o salário e as condições de trabalho delas. 2020 é um ano dos espíritos, dos sentimentos. Quem sabe seja o início da Era de Aquário. Então, cante e dance, reze por saúde, reze pelos cientistas, pelos médicos. Agradeça a Deus por um ano tão distinto como 2020. Quem estava perdido éramos nós.


DE JULHO DE 2020

A lanterna, Coalhada e o eterno 7x1

MARCO MERGUIZZO

Foto: Reprodução (Arquivo)

“E daí?, lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre”, ironizou, no final de abril, o presidente negacionista. De lá para cá, JMB demitiu dois ministros da Saúde (hoje a pasta é ocupada por um general), o número de casos passou de 1 milhão, o de mortos saltou de 5.000 para 60.000, número alcançado neste triste e sombrio primeiro dia de julho de 2020. Perplexa, a população defende-se como pode. A grande maioria, felizmente, de forma sensata, permanece em quarentena e respeitando o isolamento social.

Logo, não é por acaso que o Brasil ocupe a vergonhosa última colocação em um ranking mundial de avaliação de ações dos governos frente à pandemia do coronavírus. A pesquisa leva em conta a opinião da população residente em cada uma das 53 nações avaliadas. Os dados são do Índice de Percepção da Democracia, um levantamento feito pelo Instituto Dalia, da Alemanha, no período entre e abril e junho.

No grupo de países ou governos mais mal avaliados, o Brasil conta com a companhia dos Estados Unidos, de Donald Trump; do Chile, de Sebástian Piñera; e do México, de López Obrador. Entre os que aparecem bem na foto, os destaques ficam com a China, em primeiro lugar; o Vietnam, em segundo; a Grécia e a Malásia, todos com aprovações acima ou em torno de 90%.

No Brasil, mais de 60% da população avalia que o governo de JMB não fez o suficiente para conter a pandemia de covid-19. Mais uma vez, é a pior avaliação entre os 53 países do ranking. A pesquisa foi feita pela internet com 124 mil pessoas de 53 países. No Brasil, foram realizadas 3.032 entrevistas. A margem de erro é de 3,25%.

Brasil: o último da lista (Fonte: Instituto Dalia, Alemanha)

O fato é que desde o início, JMB minimizou a pandemia e apostou todas as suas fichas contra o coronavírus que, segundo ele, não passava de uma “gripezinha” ou de um “resfriadinho”. O presidente deixou de tomar medidas básicas recomendadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e por alguns dos melhores especialistas brasileiros, como criar uma barreira sanitária para impedir a propagação do vírus, unir governadores e prefeitos em torno de uma causa comum, incentivar o isolamento social, rastrear e monitorar os doentes e investir na realização de testes.

Pelo contrário, sempre que teve oportunidade ele criticou o trabalho que vinha sendo feito e desrespeitou a quarentena: “Esse vírus trouxe uma certa histeria. Tem alguns governadores, no meu entender, posso até estar errado, que estão tomando medidas que vão prejudicar e muito a nossa economia”, disse logo no início das medidas de isolamento, em meados de março.

Como resultado dessa contrapropaganda, desarticulação e sabotagem presentes a todo momento, desde o início da quarentena, em pronunciamentos e manifestações presidenciais e do seu grupo politico, a escalada de mortes simplesmente dobrou no último mês, de forma exponencial, passando de 30.000 vítimas, no dia 1º de junho, para 60.000, neste 1º de julho, uma coisa avassaladora, inaceitável, sob qualquer ponto de vista.

Não por acaso o Brasil também entrou na lista negra da União Europeia (UE), que passou a restringir e a proibir, desde ontem (terça, 30/6), a entrada de cidadãos brasileiros no Velho Continente em razão de sermos atualmente não só um dos epicentros mundiais da pandemia mas por termos negligenciado o pacote de medidas de contenção da transmissão do coronavírus preconizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Para montar essa lista, os membros da UE seguiram critérios técnicos epidemiológicos, como a curva de contágio de cada país e o número de novas contaminações. Também levaram em conta a confiabilidade dos países, a capacidade de realizar testes e de rastrear contatos de infectados e as regras de prevenção em vigor. Ou seja, continuamos levando de 7 a 1. Nossa culpa, nossa máxima culpa.

Na guerra sanitária e no jogo mortal contra a Covid-19, além da posição de lanterninha, o Brasil continua levando de goleada para a Ciência, o bom senso e a razão ao afrouxar a quarentena e negligenciar as medidas de proteção adotadas pela maior parte dos países no mundo.

E pior: o camisa 10 e capitão do time, tal como o jogador perna de pau Coalhada – personagem celebrizado décadas atrás pelo maior humorista brasileiro de todos os tempos, o insuperável Chico Anisio -, que deveria comandar a nação no combate ao vírus e ganhar o jogo em defesa da vida de milhares de brasileiros, só faz gol contra. “Mas, hein?”


30 DE JUNHO DE 2020

Diagnóstico da pandemia

Desenho / Crédito: Angel Boligan

29 DE JUNHO DE 2020

Inumeráveis e inesquecíveis

MARCO MERGUIZZO

Aberal Ribeiro, 56 anos: o que a vida lhe dava de oportunidades, ele agarrava. A luta não o intimidava. Ailton Atto de Souza, 51:  um mestre confeiteiro, pai, esposo e amigo, cuja doçura se via em sua fé, lealdade e devoção. Celina Silva Dias, 86 anos: sempre sorria e abraçava a neta quando esta chegava em sua casa e lhe pedia a “bença”. Rêmulo Antonio Silva, 56: “Não se prendam a bens materiais. Ser honesto e ter gratidão são deveres!”, sempre dizia.

Aberal, Ailton e Celina e Rêmulo integram a extensa e sombria lista dos mais de 57 mil brasileiros mortos nos últimos três meses pela Covid-19. Uma guerra cruel, invisível e avassaladora tão letal quanto as mais de 50 mil (oficial) e 300 mil (não oficial) vítimas da guerra civil em Serra Leoa, nos anos 90 (1991-2002), durante os quase onze anos que durou o conflito. Ou de um outro embate fratricida no “Continente Negro”, o de Ituri, no Congo, cuja violência local tirou a vida de 60 mil seres humanos.

Reprodução da homepage do novo site

Mas ao contrário dos números oficiais, frios e das estatísticas nada confiáveis do Ministério de Saúde e dos órgãos governamentais, esses brasileiros de diferentes idades e classes sociais têm uma face e ganharam um rosto visível graças artista Edson Pavoni, criador ao lado de outros outros empreendedores sociais, jornalistas e profissionais de comunicação do novo site Inumeráveis (http://www.inumeraveis.com.br), uma espécie de memorial dedicado na rede mundial de computadores às vítimas do coronavírus no Brasil.

Nele, seus autores narram num trabalho voluntário, a várias mãos, as diferentes histórias humanas de algumas dezenas das quase 60 mil vítimas hoje no país desta tragédia contemporânea hoje. Com relatos verdadeiros, curtos e sensíveis, porém, sem nenhuma imagem ilustrando os textos, o fio condutor que permeia as dezenas de perfis é o sentido de solidariedade e de humanidade ante à morte e à tragédia, e que liga cada um nós desde que o homem começou a irmanar-se e a viver em comunidade há milhares e milhares de anos.

Crédito: Imagens & História 3.0

Em meio a uma cobertura midiática por vezes indiferente e desconectada da maior tragédia humana dos últimos 100 anos, em matéria de saúde pública e na qual estamos e estaremos mergulhados durante um bom tempo, essa iniciativa fantástica de os Inumeráveis merece aplausos.

Portanto, vale conferir – e muito – e se emocionar com as muitas histórias do site, como a do enfermeiro Edinho, que morreu aos meros e precoces 45 de idade.


Edson Francisco da Silva

1975 – 2020

Mesmo doente, tentava tranquilizar os colegas, enfermeiros como ele. Deixou saudade.

Edinho, como era chamado pelos colegas, amigos e alunos do curso de enfermagem, que também viravam amigos, estava sempre disposto a ajudar, a somar.

Dedicou sua vida a ser o melhor e mais solícito enfermeiro, além de o mais solidário ser humano.

Pai de duas filhas, foi lutando e tentando acalmar os colegas, que tentaram, até o último instante, salvar sua vida. Justamente como ele faria por qualquer paciente.

Edson nasceu em Paraguaçu Paulista (SP) e faleceu em Barretos (SP), aos 45 anos, vítima do novo coronavírus.

(Jornalista desta história: Cláudia Renata de Toledo Alves, em entrevista feita com a amiga Maria Angélica de Toledo, em 23 de Maio de 2020. 



Vem aí Julho!


28 DE JUNHO DE 2020

Green New Deal

FREDERICO MORIARTY

Em outubro de 1929, o mundo assistia à maior crise econômica de sua história. O “crack da Bolsa” teve como consequência a maior recessão da história do capitalismo nos anos subsequentes. Três anos depois, o partido Democrata elege Franklin Delano Roosevelt para a presidência dos Estados Unidos. Roosevelt traz para o ministério das Finanças o economista John Maynard Keynes. O professor de Oxford faz a mais importante reforma no capitalismo até hoje. Nem socialismo, nem capitalismo selvagem, menos ainda o capitalismo fascista de Alemanha e Itália.

Nascia o plano “New Deal”. Um capitalismo intervencionista. Um Estado gerador e distribuidor de renda. Fomentador das atividades econômicas Deu certo? Roosevelt se reelegeu em 1936, 1940, 1944. Só não venceu em 1948 porque morreu antes, mas seu vice, Harry Truman, ganhou. Em 1952, vinte anos após o New Deal, os EUA eram a maior potência da história, dona de 53% do PIB mundial.

Ano passado, deputados progressistas do partido Democrata lançaram um novo “New Deal”. O “Green New Deal”. Vejam as principais propostas dos comunistas de lá:

Transição dos Estados Unidos para energia 100% renováveis e com emissões zero de carbono. Garantia de emprego (principalmente público). Saúde e Educação universais. Investimentos públicos crescentes. Fortalecimento a produção e uso de carros elétricos e trens de alta velocidade. Imposto do carbono. Valorização do salário mínimo. Combate aos monopólios. Licença gestante e férias remuneradas. Política habitacional com casas a preços populares. Acesso universal à água. Incentivo a despoluição. Seguranca alimentar. Eficiência energética e esforços para o fim da emissão dos gases dependentes dos combustíveis fósseis.

E o que isso tem a ver com a pandemia? Tudo! O vírus da Covid-19 é o terceiro e o mais letal de todos que surgem nos anos 2000. É consenso entre os ambientalistas que a mistura entre destruição de solos pelo agronegócio, perfurações das camadas profundas da terra em busca de combustíveis fósseis, a expansão desenfreada da urbanização, o consumo vultoso e desnecessário das mercadorias, água contaminada, poluição ambiental e distribuição cada vez mais assimétrica e concentradora da renda são os ingredientes das pandemias.

A culpa não é da China, portanto, é de toda a humanidade. O tal do “novo normal” se for baseado em máscaras de proteção, álcool em gel e lavar as mãos, só nos faz esperar pela próxima e mais terrível pandemia. Aquela que colocará mais dois ou três zeros depois do número final de óbitos.

Por um GREEN NEW DEAL!!


Raul 75

MARCO MERGUIZZO

Classe de 1945, Raul Seixas, um dos nomes superlativos e mais originais, inventivos e talentosos da música brasileira, faria neste domingo, 28 de junho, 75 anos. Infelizmente, ele nos deixou em 1989. Como curiosidade, nos inícios da pandemia, uma de suas músicas mais famosas, “O dia em que a Terra parou”, composta no longínquo ano de 1977, foi compartilhada centenas de milhares de vezes nas redes sociais, como uma letra que parecia prever o futuro.

“No dia em que todas as pessoas, do planeta inteiro, resolveram que ninguém ia sair de casa”, vaticinou de forma profética. Como esta antologia da MPB, Raulzito deixou um legado impressionante, com obras-primas premonitórias e ao mesmo tempo atemporais.

Caso de “Eu nasci há 10 mil anos atrás” (1976) e “Metamorfose ambulante”, de 1973, uma das minhas prediletas, um primor de canção que é uma espécie de mantra ou hino contra o imobilismo e o acomodamento que por vezes nos acomete, já que a vida nos impõe mudanças, transformações e movimentos constantes para continuarmos a viver e a tirar o melhor da nossa breve existência e passagem por aqui.

Sábio Raul Seixas. Viva.

Toca, Raul!

METAMORFOSE AMBULANTE

Prefiro ser essa metamorfose ambulante
Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo

Eu quero dizer agora o oposto do que eu disse antes
Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo

Sobre o que é o amor
Sobre que eu nem sei quem sou
Se hoje eu sou estrela amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio amanhã lhe tenho amor
Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um atorÉ chato chegar a um objetivo num instante
Eu quero viver nessa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo

Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou
Se hoje eu sou estrela amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio amanhã lhe tenho amor
Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um ator

Eu vou lhes dizer aquilo tudo que eu lhe disse antes
Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha, velha, velha, velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha, velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha, velha, velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo


27 DE JUNHO DE 2020

Na pátria dos mascarados e cegos da pandemia, salve-se quem puder

MARCO MERGUIZZO

Charge / Crédito: Jota Camelo

A recomendação e a obrigatoriedade do uso de máscara como forma de proteção contra a Covid-19 fez com que esse acessório passasse a fazer parte da vida da maioria dos brasileiros. Muita gente, porém, têm negligenciado este item que diminui em 30% a probabilidade de contaminação pelo coronavírus. O isolamento social e a quarentena, por sua vez, que perpassa o terceiro mês, continuam sendo as melhores estratégias de contenção da pandemia, já que não se tem até agora uma vacina comprovadamente eficaz e segura.

Ou seja, há um exército de zumbis negacionistas da ciência que insiste em jogar contra toda a tentativa de controle de transmissão da doença que, até este sábado (27/6), já havia tirado a vida de 57.070 pessoas, uma verdadeira tragédia humana, além de 1.313.667 casos confirmados, outro pesadelo e uma bomba-relógio a nos assombrar e às nossas famílias.

É o caso, dentre tantos representantes do atual (des)governo, do ministro da Economia, Paulo Guedes, e do atual ocupante do Planalto, flagrados publicamente inúmeras vezes sem máscara. Sobretudo este último, que deveria ser o guardião e mentor do maior desafio sanitário dos últimos 100 anos, colocando-se à frente e empregando todas as suas energias no combate ao vírus mortal.

Em tempo: na manhã de domingo (28/6), o vice-presidente, Hamilton Mourão, foi fotografado pedalando sem máscara por Brasília. Ele estava acompanhado de dois seguranças que, estes sim, usavam máscaras de modo responsável e consciente.

A máscara de proteção no Distrito Federal é um item obrigatório desde o dia 30 de abril, por decreto assinado pelo governador Ibaneis Rocha (MDB), como uma das medidas de prevenção contra o novo coronavírus. Em caso de descumprimento da regra, há previsão de multa de R$ 2 mil.

Mourão pedala sem máscara próximo ao Palácio do Jaburu — TV Globo

Porém, sua ‘Excremência’, em um mundo paralelo de delírios e idiossincracias, está sempre às voltas cotidianamente em suas guerrilhas particulares. O que inclui rachadinhas familiares. O flagrante envolvimento com a indústria das fake news que o elegeu e o exército manipulador de robôs digitais que o mantém ainda “vivo” no cargo ao qual ele se apegou – acima de tudo e de todos.

As negociatas com os partidos, igrejas e a sua “base” política. A troca permanente de ministros incapazes para os postos a que são destinados. Lembremo-nos que a pasta da Saúde, ocupada “interinamente” por mais um militar de pijamas, não tem um ministro técnico, um médico, há mais de 40 dias, demonstrando a sua total inépcia política na condução sanitária e na gestão econômica do país.

Em resumo: como o então candidato da arminha em punho previu durante a época de campanha, em 2018, num de seus habituais rompantes públicos que destilam ódio, ele não viria para construir e, sim, para “destruir isso daí”. Taí: promessa e vaticínio cumpridos. Resultado? Terra arrasada. E o que dizer daqueles que ainda o apoiam diante do desastre, representados por 32% dos entrevistados da última pesquisa do Datafolha, publicada nesta sexta (26)? Sim, você leu certo: trin-ta-e-dois por cento.

Após a prisão de Fabricio Queiroz na casa do ex-advogado do filho do presidente, na cidade de Atibaia, interior paulista (mas que tremenda ironia, não?), cai por terra um outro argumento dos defensores de primeira hora do bolsonarismo: a adoção de um político de estimação. Como diz a velha máxima, o mundo gira. Já para os incautos e “desavisados” cidadãos de bem da Terra plana, ele capota.

Salve-se quem puder.


26 DE JUNHO DE 2020

As profecias

JOSÉ CARLOS FINEIS

Até que ponto o fato de algo ter sido profetizado por alguém, e essa profecia ter passado de geração em geração como algo que um dia se concretizaria, pode modelar o futuro?

Os profetas preveem o que vai acontecer, ou apenas imaginam o que pode acontecer, fazendo com que as pessoas do futuro acreditem ser inevitável que o profetizado aconteça?

Parecem perguntas bobas, e provavelmente são (favor lançar na coluna “doideiras da pandemia”). Elas me ocorreram ao lembrar de uns versos de Raul Seixas e Paulo Coelho, na canção “As Profecias”, de 1978.

A letra é longa e pontilhada de referências bíblicas e históricas, bem ao estilo do Paulo Coelho. Acordei com os dois primeiros versos na cabeça (“Tem dias que a gente se sente/ Um pouco, talvez, menos gente”).

Ao ouvir a música inteira (vídeo abaixo), deparei com essa profecia da MPB, de que o mundo se acabará “sem guerras mortais” ou “glórias de mártir ferido”, “sem um estrondo, mas com um gemido”.

Espero que o Mago e o Maluco Beleza estejam errados e que o mundo continue existindo ainda por séculos e séculos, amém.

Mas para os quase 60 mil brasileiros mortos (em grande parte) pela negligência do governo federal na sua tarefa de proteger as pessoas da covid-19, foi exatamente assim que o mundo acabou. No silêncio de uma cama, sem guerras ou destruição — apenas a dor.

Para quem não conhece ou quer matar a saudade, aqui vão a letra e um vídeo com a música.

Tem dias que a gente se sente
Um pouco, talvez, menos gente
Um dia daqueles sem graça
De chuva cair na vidraça
Um dia qualquer sem pensar
Sentindo o futuro no ar
O ar, carregado, sutil
Um dia de maio ou abril
Sem qualquer amigo do lado
Sozinho, em silêncio, calado
Com uma pergunta na alma
Por que nessa tarde tão calma
O tempo parece parado?

Está em qualquer profecia
Dos sábios que viram o futuro
Dos loucos que escrevem no muro
Das teias do sonho remoto
Estouro, explosão, maremoto
A chama da guerra acesa
A fome sentada na mesa

O copo com álcool no bar
O anjo surgindo no mar
Os selos de fogo, o eclipse
Os símbolos do apocalipse
Os séculos de Nostradamus
A fuga geral dos ciganos
Está em qualquer profecia
Que o mundo se acaba um dia

Um gosto azedo na boca
A moça que sonha, a louca
O homem que quer mas se esquece
O mundo do dá ou do desce
Está em qualquer profecia
Que o mundo se acaba um dia
Sem fogo, sem sangue, sem ais
O mundo dos nossos ancestrais
Acaba sem guerras mortais
Sem glórias de mártir ferido
Sem um estrondo,

mas com um gemido

Ouça aqui ‘As profecias’

Imagem principal de Christian Trick por Pixabay


Profecia II

JOSÉ SIMÕES

É preciso ouvir todo o dia
Como um mantra
Para lembrar como era
Para acreditar como pode ser

“Já está previsto por todas as videntes e pelas cartomantes.”

Cai!

Inesquecível show “Transversal do Tempo”


25 DE JUNHO DE 2020

Dica de leitura: um clássico pacifista

CARLOS ARAÚJO

Quem ama a literatura habitualmente se rende à mania de elaborar seleção pessoal de obras fundamentais. Um romance que acaba de entrar para a minha lista é “Matadouro 5” (Editora L&PM), do norte-americano Kurt Vonnegut. Um livro perturbador. Inspirado em experiência vivida pelo autor, conta sua experiência como prisioneiro dos alemães na Segunda Guerra Mundial.

Em dezembro de 1944, numa das sangrentas batalhas da região das Ardenas, Vonnegut caiu prisioneiro dos alemães. A pé e em viagem de trem, nas piores condições, foi conduzido à cidade alemã de Dresden. Lá ele estava, com outros prisioneiros, abrigado no matadouro que dá título ao livro, quando, de 13 a 15 de fevereiro de 1945, a aviação dos Aliados bombardeou a cidade. O lugar ficou em ruínas. Milhares de mortes.

O sobrevivente contou a história nesta obra publicada em 1969, que se transformou em símbolo pacifista e tornou o autor conhecido no mundo.
O balanço de mortes é controverso, como em toda guerra. Vonnegut cita 135 mil, mas há estudos que falam em 25 mil. Fotos da época, que podem ser acessadas no Google, mostram a cidade totalmente destruída pela tempestade de fogo de 3.900 toneladas de dispositivos incendiários e bombas altamente explosivas.

Dresden não era um alvo de importância militar. Vonnegut assegura que não havia unidade militar nazista na cidade que justificasse o ataque genocida. Por sua vocação cultural, Dresden era conhecida como a “Florença” da região da Saxônia, na Alemanha. Não é de hoje que a cultura é alvo da brutalidade. A população civil era maioria, juntamente com refugiados e prisioneiros de guerra. O acontecimento entrou para a história como um dos mais brutais crimes de guerra do século XX, comparável ao horror de Hiroshima.

Vonnegut é genial ao diferenciar ficção de jornalismo. Ele cria o personagem Billy Pilgrim para contar a sua versão da história. O estilo é carregado de sátira, delírios, efeitos de fadiga de guerra. Desgraças pessoais, perdas de amigos soldados entre as Ardenas e a Alemanha, apimentam ainda mais a narrativa. As descrições das ruínas de Dresden são de arrebentar a alma. A linguagem é clara, concisa. A obra é uma leitura que mostra a dimensão da vida como força humana e vale como inspiração de esperança para atravessar esses tempos de pandemia.


Como cortar o cabelo em casa sem abrir um caminho de rato

JOSÉ CARLOS FINEIS

Uma maquininha de cortar cabelo tem muita utilidade numa pandemia em que você está preso em casa. A minha eu comprei há pouco mais de três anos, não para cortar o cabelo: precisava depilar as virilhas para fazer uma angioplastia. Esse é o tipo de coisa que barbeiro não faz.

A operação deu certo, minha artéria descendente anterior foi desentupida e voltou a irrigar com generosidade meu coração civil. Devidamente higienizada, a maquininha de cortar cabelo passou a ser usada só de vez em quando para conter a barba dura (de ver) e cheia (de falhas).

Agora na pandemia, por imposição do coronavírus, tornei-me meu próprio barbeiro. Em abril, o cabelo estava subindo nas orelhas. Vi algumas aulas no YouTube e pus mãos à obra. Deu certo. Fiz um corte simples, sem pretensões artísticas. Ficou, por assim dizer, apresentável.

Na segunda vez (anteontem) me distrai e abri um caminho de rato sobre a orelha direita (caminho de rato é modo de dizer: abri uma picada na cabeleira). Percebi o erro no ato, mas já era tarde. Petrificado diante do espelho, pronunciei a única frase possível nessas ocasiões:

“Putz, fiz cagada.”

Caminho de rato é um negócio que não tem conserto. É como colocar muito sal na comida, com a diferença que comida a gente joga e faz outra; cabeça não. Mas a gravidade do fato é relativa. Explico: de longe, mal dá para perceber. De perto, pela trilha aberta, pode-se ver o couro cabeludo.

Este, como se vê, é um texto de autoajuda, em duas lições. A elas, pois.

Lição número um

Ao desbastar o cabelo com a maquininha, concentre-se no que está fazendo. Só faça se estiver sóbrio. Respire fundo, esvazie a mente. Não ouça música, não deixe a TV ligada. Não converse, não cante. Não pense em política, no Queiroz ou no coronavírus. Não deixe que conversem com você.

Jamais comece com o pente de corte numa distância pequena. Você pode se arrepender. Comece a aparar a cabeleira, sempre, com o pente de corte na distância máxima. Passe a máquina algumas vezes na mesma região. Observe o resultado. Reduza um ponto, experimente de novo.

Vá reduzindo ponto a ponto e observando o resultado. Experimente uma distância de corte menor nas laterais, uma distância maior no topo da cabeça, para ficar com aquele topetinho que você pode pentear para o lado, para trás ou arrepiar com gel, conforme seu estado de espírito.

Lição número dois

Deixe para fazer os retoques com a lâmina vibratória, sem o pente de corte, no final de tudo. “Retoque” o nome já diz: vem depois do toque. Jamais, portanto — jamais! –, nem para limpeza, tire o pente de corte antes de terminar por completo de aparar seus cachos e mechas.

Foi nesse ponto que eu errei. No meio da apara, retirei o pente de corte para fazer o contorno das orelhas. Para um míope, posso dizer que fiz o contorno magistralmente. Mas ainda faltava aparar melhor as laterais e o cocuruto. Queria o cabelo um pouco mais curto nos lados.

Esqueci de recolocar o pente de corte. Passei a máquina confiante na lateral da cabeça. A máquina fez um som estranho, um tufo de cabelo caiu no lavatório. Na hora, fiquei inconformado, com raiva de mim mesmo. Depois, pensei como era bom estar em isolamento.

Me consolei quando vi na TV, mais tarde, que uma frente fria das bravas está por chegar. Com um misto de derrota e resignação, vesti um gorro. Por sorte não saio de casa e tenho uma alguns gorros e boinas, para aparecer nas reuniões on-line, que são frequentes nesta fase.

O tempo corre a meu favor. Agora mesmo, enquanto escrevo, os cabelos estão lá, crescendo. Centésimos de milímetros, mas estão. Crescem inclusive enquanto durmo.

Lá pelo final de julho, o cabelo terá crescido e, se o isolamento não tiver terminado, farei um novo corte no capricho, sem esquecer de pôr em prática o que acabei de ensinar.


24 DE JUNHO DE 2020

Mudamos já ou corremos o risco de viver num Jurassic Park tabajara

MARCO MERGUIZZO

Desenho / Crédito: Angel Boligan

Na era das lives sem fim, veiculadas diariamente e quase de hora em hora no celular, no tablet e notebook sobre todo tipo de assunto, alguns interessantes mas a maioria desimportante, tenho ouvido especialistas e franco-atiradores que, fazendo o papel de pitonisas da New Age, anunciando tendências para o Brasil e pro mundo pós-pandemia.

A Covid-19 vai rever valores e mudar hábitos da sociedade isso é líquido e certo. Toda lição, amarga e dura como a que vivemos hoje, nos traz compulsoriamente uma série de aprendizados.

Pano rápido, tais tendências passam, entre outras atitudes, pelo consumo consciente, sustentável e sem desperdício; morar, quando possível, próximo ao locais de trabalho; (aceitar em) trabalhar home-office, uma coisa inexorável e sem voltar, e atuar mais no coletivo com colegas de empresas e vizinhos do bairro, etc., etc..

Também é fato que o coronavírus acelerou e muito algumas desses comportamentos. antecipando mudanças que já estavam em curso, como o trabalho remoto, a educação a distância, a busca por sustentabilidade e a cobrança, por parte da sociedade, para que as empresas sejam mais responsáveis do ponto de vista social.

Outras mudanças estavam mais embrionárias e talvez não fossem tão perceptíveis ainda, mas agora ganham novo sentido diante da revisão de valores provocada por uma crise sanitária sem precedentes para a nossa geração. Como exemplos, podemos citar o fortalecimento de valores como solidariedade e empatia, assim como o questionamento do modelo de sociedade baseado no consumismo e no lucro a qualquer custo.

Para compreender essa transformação radical, listei alguns pontos que considero importantes, a partir de algumas boas reportagens e análises que eu li ao longo destas últimas semanas, para a reflexão de quem acompanha aqui as impressões dos blogueiros do Terceira Margem, pois constato que alguns desvios de comportamento persistem inexplicavelmente.

Sobretudo em relação à crescente e preocupante negligência em relação ao isolamento social, não só por parte da população mas também das maiores autoridades do país e de algumas empresas, que deveriam dar o exemplo e cujas fichas – enormes – ainda não caíram e, talvez, jamais caiam um dia.

Dinossauro” de máscara na cidade de Tijucas (SC): rumo à extinção?

Nestes tempos de quarentena, tenho recebido diariamente, e de modo insistente, ligações de bancos e operadoras telefônicas, com os quais sequer mantenho relacionamento, que parecem viver no passado, ao se utilizarem as mesmas e velhas estratégias de marketing e argumentos de venda, como se o mundo não tivesse mudado.

Sem contar a multidão que tem saído às ruas como se não houvesse um vírus mortal e invisível à espreita ou “não houvesse amanhã”, como diz a velha canção Pais e Filhos, do Legião Urbana. “Hello, gente! Hora de acordar pra vida”, como dizia outrora minha mãe.

Bem, listei algumas tendências que na minha opinião devem nortear e afetar a vida de todos nós, já a partir de agora ou, melhor, de ontem. Algumas óbvias outras, só o tempo dirá. Bem, vamos lá:

  • A completa revisão de crenças e antigos valores;
  • na hora de consumir passa a valer a regra simples de que menos é mais;
  • e de um novo modelo de consumo e da configuração do comércio;
  • crescimento do shopstreaming (vendas virtuais pela internet e redes sociais);
  • também haverá o ressurgimento bares e restaurantes em novos formatos: a ver (farei um artigo exclusivo sobre este tema no blog Aquele Sabor Que Me Emociona);
  • experiências culturais virtuais e imersivas;
  • e, por fim, outros pontos já em acelerada consolidação: o trabalho remoto e, quando não, morar próximo à empresa ou empregador e a busca de conhecimento por meio de canais digitais e através de cursos complementares e de especializações de EAD (educação a distância).

E aí? Qual a sua opinião?

Cuidemo-nos pra não virarmos dinossauros.

Ou pior: vivermos, a duras penas, em um Jurassic Park tabajara.


A pantera cor rosa tá certa: fique em casa. Mas na sua, por favor.

#FIQUEEMCASA #USEMÁSCARA #RESPEITEAQUARENTENA

23 DE JUNHO DE 2020

Memória e amnésia históricas

FREDERICO MORIARTY

Place de Vosgues, 1831. Victor Hugo publica “O corcunda de Notre Dame” e vai morar no sobrado. Ali, Hugo escreveu “Os miseráveis”. Saiu de Paris num auto-exílio por discordar do regime ditatorial de Napoleão III.

Fotos: Google Images

Em 1902, a casa virou um museu gratuito, contando a história e os costumes franceses da primeira metade do XIX, a partir da vida de Victor Hugo.

O sobrado (na foto abaixo em preto e branco) fica rua Cosme Velho, 18, no Rio de Janeiro. Machado de Assis viveu ali de 1882 a 1908. Escreveu obras fundamentais da nossa literatura nos seus cômodos. No lugar hoje, um típico prédio de classe média.

É fácil entender o comportamento de muitos nessa pandemia. Apagamos, menosprezamos e queimamos nosso passado.

No mesmo endereço hoje funciona um prédio residencial

22 DE JUNHO DE 2020

A arte de ser otimista

CARLOS ARAÚJO

A jornalista Carla Cristina Camargo, leitora muito especial que tem a generosidade e a paciência de acompanhar o que escrevo há 11 anos, pede uma crônica otimista e eu não posso deixar de atendê-la.

Ser otimista nesses tempos é um ato de resistência. Impossível não ficar abatido por compartilhar a dor e a tristeza do outro na contagem diária de mortos da pandemia em Sorocaba, no Brasil e no mundo. Impossível não se indignar com um governo selvagem, escorado em fake news e ameaças, notável por disseminar o caos, o horror, a destruição.

Impossível não se abalar com os crimes de racismo, também no Brasil e no mundo, que se traduzem em mais sofrimento, tortura, morte. Impossível ficar indiferente à avalanche de perdas, prejuízos, incertezas. Impossível não sofrer as aflições que devastam as periferias com o desamparo, o abandono, o esquecimento.

Conseguir ser otimista nesses tempos é, antes de tudo, uma condição privilegiada. Não é para quem quer, é para quem pode, isto é, para quem habitualmente possui uma renda que permite garantir a sobrevivência diária por longo período.

(Para ler o artigo na íntegra, acesse o blog Outro Olhar, do jornalista e escritor Carlos Araújo, ou clique direto no link: https://bit.ly/2V9gqth).


21 DE JUNHO DE 2020

Ignorância bronzeada

Charge / Crédito: Kleber


Luto

Crédito: capa do portal UOL deste domingo, 21/6/2020

20 DE JUNHO DE 2020

Doutor Cloroquina

FREDERICO MORIARTY

Cartum: Angel Boligan

Tive de ir ao ao médico. Tenho de provar que estou acima do peso. Não vale a calça 54 e nem o imc pra lá de alto. Já conheço o velho Doctor. Daqueles que só temos confiança pra atestado mesmo. Chego no lugar e está lotado. Sem indicações de distanciamento e nenhum vidrinho de álcool gel pra higienização. Estranhei. O Doctor começou a atender os pacientes. Três minutos em média. Mesmo assim a minha consulta atrasou 50 minutos. Convênio, pensei. Entrei na sala e o Doctor sem máscara.

  • Vc viu que estou sem máscara?! Enaltecendo o próprio ego.
  • Vi. Pq Doctor?
  • Pq não serve pra nada!
  • Mas todos os médicos, infectologistas, especialistas da área falam que é importante. Questionei.
  • Sabe o quê é isso? É o socialismo!
  • Socialismo. Ah, não entendi. Fazendo cara de Lucky Skywalker para o Yoda.
  • Esse estado policial. Outro dia um paciente brigou comigo!
  • Por causa do socialismo?
  • Não!! Da máscara… e depois vai no feicebuqui falar bem de médico.
  • Ah, isso eu não faço Doctor.
  • E esse livro sobre Fascismo?
  • É que vou dar uma láivi hoje à noite sobre o assunto.
  • Você sabe o que é fascismo?
  • Não.
    A gente tenta ser irônico, mas as pessoas não percebem. O sábio me explicou:
  • É uma palavra doce que cabe na boca de quem quiser.
  • Menos nas dos judeus né?
  • Quê? Você sabe onde começou o fascismo?
  • Não. Só pra saber onde ele ia.
  • Na Rússia.
  • Pensei que era na China.
  • Aqui está que nem lá. O povo contra povo por causa do socialismo. A gente tenta explicar e ninguém entende.
  • Ainda mais agora né, Doctor? O ministro da saúde é um general. Pra que médico, né? General que é bom. Bota ordem.
  • Você acha?
  • E pra mim essa doença é mentira. Pressão dos médicos. Afinal, o senhor fez 6 anos de faculdade e 2 de residência pra quê? Só pra ver o Brasil virar socialista. Não, jamais. Tem é de fazer que nem na Alemanha tacar fogo mesmo.
    Ele me olhou assustado.
  • Não precisa voltar. Você está bem.
  • Doctor? E a cloroquina?

Viola & poesia

MARCO MERGUIZZO

Enquanto o universo pop sertanejo mostrou tino comercial ao transformar as lives em negócios tão rentáveis quanto solidários, em modelo de apresentação que deverá resistir após o período de isolamento social para enfrentar a pandemia do coronavírus, artistas associados à MPB estão mostrando que, sem dinheiro, também é possível entreter seguidores na quarentena somente em nome da arte e de música de qualidade.

Uma das melhores vozes femininas hoje no país, a paulistana Mônica Salmaso tem sobressaído na era das lives com a série sagazmente intitulada Ô de casas. Salmaso não tem feito propriamente lives, mas vem disponibilizando nas suas redes sociais, desde 22/3, logo no início do isolamento, apresentações pré-gravadas em que a intérprete se “encontra” – à distância, claro! – com instrumentistas e cantores para revisitar o melhor da MPB.

O convidado toca um instrumento e/ou canta enquanto Salmaso entra com a voz de técnica apurada e ultra afinada. Até agora já foram 80 duetos. Neste, ela faz par com Rolando Boldrin, na moda de viola “Promessa de violeiro”, de Raul Torres e Celino. No final, Boldrin ainda dá uma colher de chá recitando um trecho de “Grande Sertão Veredas”, clássico de Guimarães Rosa, em um momento inesquecível.


Balanço (na real) da quarentena


19 DE JUNHO DE 2020

Balbúrdia junina em dose dupla

MARCO MERGUIZZO

Cartum / Crédito: Brum (Tribuna do Norte)

Em clima de quadrilha, o day after não poderia ser mais festivo. A prisão do ex-assessor de Flávio Bolsonaro, Fabrício Queiroz, e a demissão do ex-ministro da Educação Abraham Weitraub, nesta quinta (18), como retratou de modo divertidíssimo o cartunista Brum, da Tribuna do Norte, de Natal (RN), fizeram a alegria daqueles que lutam pela democracia.

Já nesta sexta-feira (19), um personagem emblemático que desempenhou um importante papel na redemocratização do país, nas últimas cinco décadas, lutando com suas músicas e peças de teatro contra a censura e e em prol da liberdade de expressão, comemora o seu 76º aniversário: ninguém menos que Chico Buarque, figura superlativa dos cenários musical, cultural e político brasileiros.

Escrevi sobre ele, a sua rica trajetória e predileções à mesa no meu blog aqui, no TM, em 2019, na passagem dos seus 75 anos. Em outro artigo, publicado também, há cerca de um ano, detalhei a origem da kafta, iguaria árabe que foi confundida de forma bizarra pelo recém-demitido ministro da Educação com o sobrenome do autor de O Processo e A Metamorfose, Franz Kafka. Tchau, Weintraub! Não sentiremos nenhuma saudades! Para ler ou reler estes dois artigos, ainda bem atuais, clique em cima das fotos, logo abaixo:

Para brindar o aniversário de Chico, as canções que lembram o seu precioso legado artístico, o ativismo e, claro, a boa mesa

Para comemorar nesta quarta (3/7) os 136 anos de Franz Kafka, a popular kafta árabe agrada ao brasileiro e não confunde o paladar


18 DE JUNHO DE 2020

Vai uma rachadinha, ops, uma raspadinha, aí?

MARCO MERGUIZZO

Raspadinha de laranja: boa pro paladar e, melhor, sem ser indigesta

Principal destaque do noticiário desta quinta (18/6), a prisão pela polícia paulista do ex-assessor de Flávio Bolsonaro, Fabrício Queiroz, em um sítio de Atibaia (tremenda ironia!… E não é que Terra plana nunca deixa de girar?), caiu como uma bomba nesta manhã, deixando de lado, pelo menos momentaneamente, a pandemia e as vítimas do coronavírus, que deveria ser a principal preocupação de atual ocupante do Planalto e de todo brasileiro.

Ato contínuo, o caso Queiroz nos remete a algumas expressões como laranja, rachadinha, termos que se tornaram famosos e ganharam as manchetes da mídia há um bom tempo. Há cerca de um ano, em que já se especulava o “sumiço” do colaborador da família do presidente da República, publiquei no blog Aquele Sabor Que Me Emociona, aqui no Terceira Margem, um artigo sobre a origem de algumas dessas alcunhas e apelidos, cuja origem é a boa mesa e a culinária, e que se tornaram populares em todo o país.

Como hoje é quinta-feira, dia de #tbt (throwback, em inglês, expressão usada popularmente nas redes sociais que significa regresso ou um registro passado), vale a dica e a torcida para que todo o laranjal seja descascado e a verdade venha, enfim, à tona. Para conferir, clique duas vezes em cima do título ou na imagem dessa suculenta metade de laranja.


No cardápio do almoço desta terça no Alvorada: pato com laranja

Tranca a rua!!

FREDERICO MORIARTY

Um jornal britânico deu que 71% dos ingleses acreditam que a profissão menos necessária no mundo atual é a de artista. Como além de escritor (autointitulado artista) sou professor posso dizer com boca cheia que “sou fodido e mal pago”. Escritor é um cara antissocial por natureza. Odeia os outros, fala a verdade de quem conhece e dá palpite em tudo. Somos chatos profissionais. Escritor pop gosta de ser irônico. Isso é chato, porque a maioria não entende suas piadas chatas e os amigos riem pra não ficar chato.

Venho fazendo uns gráficos da Covid-19 na minha terra. Terra das feiras de mulas. Não sou matemático, sou chato, avisei. Só queria ressaltar três coisas:

1) a cidade ainda não estava no pico de casos quando as mulas resolveram pular a porteira;

2) após a reabertura precipitada ocorreria uma explosão de casos;

E o item 3, eu não lembro mais. Só sei que, da última vez, o cara veio detonar o meu gráfico. Sabem uma luta de boxe? Então, a gente já tomou uns 50 socos, 40 ganchos e teve 3 quedas, mas comentamos: “Ahrá, você usou mais a mão direita”. É o típico cidadão que confunde ejaculação com orgasmo. Passados mais uns dias fiz mais 3 gráficos no excel.

Precários, eu sei. Peguei as 3 últimas semanas, pois nelas estão o fim de semana que antecedeu a reabertura dos xópins e a libertação do $1,99 e os 17 dias de fim do isolamento. O primeiro é de casos. Pulou de 840 para 2.159. Em 21 dias, os casos pularam 2,5 vezes. Acho que se eu pegar a barrinha laranja do dia 28 e botar no dia 17 dá pra ver.

O segundo é a tristeza dos óbitos. Eram 43 e foram pra 87. Mais que dobraram. Detalhe: entre a 1° morte na cidade e a 43°, transcorreram 58 dias, agora bastaram 21 dias. Fiz até colorido pra turminha entender.

O último é a variação de casos por dia. Parece que a coisa tá crescendo??!! Só ontem foram 219 confirmados. Lembrando que os casos começarão a crescer mesmo após o dia 20. Vamos comparar?

Primeiro, o jargão preferido de muitos brasileiros: “Vai pra Cuba!!”. Casos: 2.280 (amanhã a gente passa eles); mortos: 84 (ganhemo!). Lembrem que a ilha de Castro tem 12 milhões de habitantes e Sorocaba, 675.000.

Que tal Nova Zelândia: 4,9 milhões de habitantes e 3 meses de lockout. São 20 dias sem novos casos. Em 3 meses, foram 1.156 casos e 22 óbitos.

Pô, Frederico, comparar Sorocaba com país é sacanagem. Tá bom, vamos pegar Florianópolis, que tal? Quinhentos mil habitantes, 23% a menos que Sorocaba. Casos: 1.072. Óbitos: 9. Deve ser o derretimento das geleiras do Nordeste brasileiro.

Sorocaba está com todos os hospitais abarrotados de doentes. O número de internados passou de 33 (dia 28/5 para 88 ontem). Será que os sorocabanos já podem voltar pra casa? E o nosso crítico de tabela sabe que uma descarga elétrica tem o mesmo efeito do esforço manual?


17 DE JUNHO DE 2020

Faça a coisa certa

MARCO MERGUIZZO

Fotos: Bancos de imagens digitais gratuitos

A vida imita a ficção e a sétima arte. Patrick Hutchinson, um manifestante negro, carregou nos ombros um homem branco defensor da “supremacia branca” até um local seguro para evitar que fosse linchado durante um confronto em Londres entre manifestantes antirracismo e oponentes de extrema-direita. Indagado sobre o porquê de ter agido daquela forma, respondeu: “Era simplesmente a coisa certa a fazer.”

A frase corajosa e moralmente definitiva de Patrick nestes tempos de pós-verdades, violências, preconceitos explícitos e intolerâncias de toda sorte, sobretudo as político-ideológicas e interraciais, remete à película do diretor de cinema americano e ativista negro Spike Lee, de 1989.

Nela, a questão do preconceito e os conflitos históricos enraizados na cultura americana está representada na história de Sal (Danny Aiello), um ítalo-americano de NY, que é dono de uma pizzaria em Bedford-Stuyvesant, no Brooklyn.

Vai aí alguns spoilers (e o trailer no final deste post) pra quem se interessar em assistir ao filme. Com predominância de negros e latinos, é uma das áreas mais pobres da Grande Maçã, a cosmopolita capital do mundo ocidental. Ele é um cara boa praça, que comanda a pizzaria ao lado de Vito (Richard Edson) e Pino (John Turturro), seus filhos, além de ser ajudado por Mookie (Spike Lee).

Cartaz do filme de 1989 do diretor e ator Spike Lee (à direita)

Sal decora seu estabelecimento com fotografias de ídolos ítalo-americanos dos esportes e do cinema, o que desagrada sua freguesia. No dia mais quente do ano, Buggin’ Out (Giancarlo Esposito), o ativista local, vai até lá para comer uma fatia de pizza e reclama por não existirem negros na “Parede da Fama”. Este incidente trivial é o ponto de partida para um efeito dominó que não terminará bem.

Pessoas de caráter como Patrick que questionam as pequenas e grandes atitudes da sociedade, independentemente de sua cor, raça ou classe social, são cada vez raras e surpreendem pela coragem e empatia incondicional. Fazem a coisa certa não porque queiram mudar o mundo mas porque se recusam a ser como o mundo é, a serem “mudados” e influenciados por ele, como vemos hoje, infelizmente, ocorrer com boa parte da humanidade anestesiada pela indiferença.

O estoicismo lhes define bem. Desafortunadamente são a exceção e não a regra, e nos dão uma pontinha de esperança que oxalá, um dia, coisas abomináveis e bárbaras como as manifestações racistas, xenófobas, de gênero e religião em nosso cotidiano, não terão mais vez no mundo, sequer naquelas coisas mais comezinhas, como um simples olhar, que expressem algum tipo de preconceito.

Obrigado, Patrick, pela atitude e por ser o que você é.

Nossas consciências agradecem.


16 DE JUNHO DE 2020

Nocauteados pelo Bloomsday

CARLOS ARAÚJO

Hoje (16 de junho) é dia de Bloomsday. A data de celebração literária faz sentido para os amantes da literatura, mas não significa nada para quem é indiferente aos livros. Bloomsday é pura imaginação. A comemoração é inspirada no clássico “Ulisses”, de James Joyce.

“Ulisses” descreve um único dia (16 de junho de 1904) na vida de Leopold Bloom na cidade de Dublin, na Irlanda. O romance foi publicado em 1922. Há controvérsias sobre quando começaram as comemorações do Bloomsday. Não importa. O tempo não existe, é mera invenção humana.
Li “Ulisses” aos 20 anos, na tradução de Antônio Houaiss. Na época, sem outras referências do universo joyceano, não entendi a obra. Agora tenho uma nova tradução, a de Caetano W. Galindo.

Só mais tarde, a partir de ensaios sobre o romance, vi que Joyce criou um paralelo com “A Odisséia” de Homero e que os personagens Leopold Bloom, Molly Bloom e Stephen Dedalus eram, respectivamente, criações simbólicas de Ulisses, Penélope e Telêmaco.

A leitura foi como um duelo com o texto. Eu nunca tinha visto nada parecido. Habituado até então à leitura de romances tradicionais, de repente “Ulisses” me leva ao nocaute com uma narrativa fragmentada, que abusa do fluxo de consciência. Cada página fazia doer como um “jab” de esquerda, seguido de um “cruzado” de direita. Havia total falta de sentido para tempo e espaço e extinção das ideias de começo, meio e fim. Foi uma travessia. Foi como uma luta de boxe de quinze rounds contra um adversário muito superior. No final, você sai nocauteado e precisa de socorro. Nunca mais será o mesmo.

“Ulisses” marcou a literatura como o “Decameron” e “Dom Quixote”. Se a intenção de Joyce foi extinguir o romance como gênero literário, ele ao menos tirou o sono dos críticos por trezentos anos, como pretendia. E abriu novas formas narrativas para as futuras gerações.

A obra influenciou todas as gerações de escritores que vieram depois, de Virginia Woolf a William Faulkner, de Mário Vargas Llosa a Ernesto Sabato, de Julio Cortázar aos brasileiros Paulo Leminski e José Agrippino de Paula. Todos foram nocauteados por “Ulisses” e precisaram de socorro. Todos foram abduzidos pelo Bloomdsay.


Cartunistas e brasileiros: uni-vos!

MARCO MERGUIZZO

Cartum / Crédito: Céllus

Quem achava que estávamos às portas de um autogolpe ou na antessala de uma ditadura disfarçada, com todo tipo de negacionismo da história, repressão e tortura perpetradas durante o período da Ditadura Militar de 1964, e todo o pacote antidemocrático que inclui a suspensão de uma série de direitos, como a censura e o cerceamento da liberdade de expressão, agora pode ter certeza: habemus uma semiditadura não de direito mas de fato.

Ao longo dos últimos meses e ao lado de uma sequência de manifestações contra os demais Poderes da República, dia sim, outro também, como o de domingo (14), o mais recente deles, em que foram atirados fogos de artifício sobre o prédio do STF, uma afronta inconcebível realizada por grupos de orientação nazifascista liderada pela agitadora bolsonarista Sara Winter – nesta segunda-feira (15), foi a vez do ministro da Justiça André Mendonça, a pedido de Jair Bolsonaro, anunciar que a Polícia Federal abrirá um inquérito contra o chargista Renato Aroeira e o jornalista veterano Ricardo Noblat, de O Globo, do Rio, que reproduziu a charge e criticou esta ação antidemocrática do governo em sua coluna no mesmo jornalão.

Aroeira produziu uma charge em que compara o incentivo de Bolsonaro à invasão de hospitais ao nazismo. Na charge, uma cruz vermelha de um hospital é transformada em suástica, símbolo do regime de Adolf Hitler. O jornalista Ricardo Noblat reproduziu seu conteúdo e por isso também deverá ser aberto um inquérito contra ele.

A charge de Renato Aroeira que incomodou o ‘democrata’ JMB

A crítica do chargista é amparada pela liberdade de expressão, que é cláusula pétrea da Constituição brasileira, mas para Bolsonaro que já foi criticado pelo decano do Supremo Tribunal Federal ao comparar o Brasil atual à Alemanha hitlerista, e pela própria comunidade judaica por utilizar métodos de comunicação e slogans nazistas, a charge ofende a segurança nacional.

Em seu twitter, o ministro da Justiça justificou o pedido de investigação baseado na lei que trata de crimes contra a segurança nacional. O texto diz : “O pedido de investigação leva em conta a lei que trata dos crimes contra a segurança nacional, a ordem política e social, em especial seu artigo 26”.

Crédito: meme anônimo

Em resumo e em outras palavras: retrocedemos, em menos de 18 meses de governo bolsonarista, aos piores momentos da repressão da nossa história recente, com o cerceamento à liberdade de expressão, uma das práticas nefastas, dentre muitas, da golpe militar (foi golpe, sim), implantado no Brasil, há 56 anos.

Se não bastassem as perdas de vidas de brasileiros para a covid-19 e o descaso, inoperância e omissão governamentais ante à tragédia da pandemia, embarcamos, como numa máquina do tempo de volta ao pior ambiente dos anos de chumbo. Ou a um mundo de ficção como um remake mambembe do blockbuster O Exterminador do Futuro.

O Brasil de 2020 é um pesadelo sem fim, não é para principiantes, como já dizia de modo sagaz o maestro e compositor Tom Jobim (1927-1994).

Mas nós resistiremos. E não nos calaremos.

Força, Aroeira. Força, Brasil.

(Em tempo: não deixe de conferir neste sábado, a Edição 45 do Fora da Margem com as melhores charges desta semana).


15 DE JUNHO DE 2020

Bomba-relógio: a liberação massiva de agrotóxicos durante a quarentena

MARCO MERGUIZZO

Se não bastasse a tragédia humana, um novo escândalo de saúde pública em plena quarentena, agora paira sobre as nossas mesas, famílias e sobre o que comemos e aquilo que os nossos filhos consomem. Não é novidade para ninguém o compromisso assumido publicamente, ainda durante a campanha de 2018, pelo governo de Jair Bolsonaro com o agronegócio. 

Na prática, isso significa, em resumo, a liberação geral e irrestrita de agrotóxicos no Brasil, que foram simplesmente banidos em outros países adeptos de políticas agrícolas sustentáveis, responsáveis e que preservam o ecossistema e a saúde da população.

Ou seja, uma ameaça terrível para nós, brasileiros, de todas as classes sociais, que chega de forma invisível e mortal em nossos pratos, como uma bomba-relógio silenciosa e letal.

De acordo com reportagens publicadas ao longo da última semana pela Agência Pública e a ONG Repórter Brasil, desde a chegada da pandemia de Covid-19 no país, em meados de março, foram registrados mais de 20 agrotóxicos (a maioria de uso proibido lá fora), além de protocolados 67 pedidos de registro de pesticidas extremamente nocivos à saúde.

Nesse período, o Diário Oficial da União registrou 118 novos produtos, dos quais 84 são destinados para agricultores e 34 para a indústria. Também deram entrada no Ministério da Agricultura mais de 216 solicitações de registro de pesticidas por empresas produtoras, as quais estão sob a avaliação da pasta.

Ou seja, o Brasil virou definitivamente o paraíso sem freio das multinacionais do setor químico voltadas ao agronegócio, como a gigante Monsanto que domina internacionalmente o setor. Uma coisa inadmissível em qualquer país sério do mundo, um verdadeiro descalabro e descaso com a saúde da população.

Nos próximos dias, farei um post sobre isso no meu blog aqui no Terceira Margem (Aquele Sabor Que Me Emociona), com sugestões de mudanças de hábitos à mesa e de como podemos virar esse jogo não só como consumidores mas, também, como cidadãos. A bandeira do consumo consciente e essa revolução têm que começar obrigatoriamente dentro de casa, a partir de cada um de nós e de cada lar brasileiro.


14 DE JUNHO DE 2020

Disseram que eu fiquei americanizado

FREDERICO MORIARTY

A impressão de um leigo é que nossos economistas vivem numa disputa entre mais moeda (e Estadão) e menos moeda (Estadinho). Falta o velho azeite. Pega uma panela e bota alho e cebolas picados. Uma pitada de sal. Ervas finas, talvez uma cenourinha ralada. Aquece até dourar e incorpore o arroz. Depois a água (com uma colher de água de coco pra dar gosto). Espera cozinhar e terá uma porcaria de arroz. Como avisei, faltou o azeite.

Ele que faz as coisas dourarem. Dá uma tostadinha no arroz. Faz um bem-casado com o sal. E vai penetrar pelo arroz deixando ele soltinho e suculento. Empirismo e racionalismo são alicerces econômicos, mas é a vida prática que ensina: o que dá liga e gosto é o azeite.

E os Estados Unidos sabem como despejar o óleo de oliva na panela. São meio instintivos em fazer crescer o arroz/capitalismo.


Li artigo sobre a NBA. Faltavam em média 10 jogos para cada um dos 30 times da Liga encerrar a fase classificatória. Lançaram os dados num pc véio e chegou-se ao número de 22 equipes com chances matemáticas de se classificar para os playoffs (as finais do basquete). As 22 equipes vão se enfrentar em cruzamentos por 8 rodadas. Serão 88 jogos de agosto a começo de outubro. Depois de 5 meses parados, a NBA volta num pré-mata-mata. Vai lotar os ginásios.

Mas a turma foi mais longe: todos os jogos e todas as equipes estarão na Disney. As dezenas de parques temáticos fechados desde março serão reabertos com uma nova atração: o basquete. Olha o azeite interligando os pontos. Jogos da NBA costumam ter 17.000 pagantes. Em 2 meses teremos 1.496.000 adultos e adolescentes comendo dezenas de milhares de big macs, tomando zilhões de litros de cocão e comprando dúzias de centenas de camisas dos 22 times.

Já imaginaram a família: Bob Pai e filho mais velho vendo os Lakers jogar, enquanto Sara mamis e os dois menores fazendo sua estreia no parque Star Wars? Consumindo de tudo. Ginásios e brinquedos abarrotados de gente. Turistas do país todo virão pra assistir os Thunder jogar ou pra ver Harry Potter no quadribol. E os hotéis que estiveram por tanto tempo de portas cerradas, reabrirão em baixa temporada com leitos faltando.

As companhias aéreas vão cantar hinos de louvor: afinal os times da NBA tem sua sede nos 4 pontos cardeais. Vai ter torcedor-turista cruzando de avião o país. Diariamente. Quem tá longe e não tem grana, assina um pacote de jogos e pronto. Há uma imensidão de negócios a aparecer.

Aqui no Brasil, só nos resta chorar. O presidente em exercício, o ministro “impocível”, o outro do Nordeste gelado são um deserto de ideias. O economista de plantão tem 5 livros na estante (a gente vê pelas ‘laives’). Proposta de crescimento aqui é convocar o veio da Havan, com a roupa ridícula de super-herói ou reabrir as lojinhas de $1,99 da 25 de Março. Capitalismo aqui é sem azeite, sal, cebola, alho e com coentro até o tampo.


Domingo pede cachimbo e bota-fora!

André Vallias é poeta visual e designer gráfico

A ignorância e o fanatismo político são cruéis. Ambos contaminam e se propagam muito mais rápido que o conhecimento e o próprio coronavírus. Hoje, mais do que nunca, eles são letais. Vacine-se: fique longe dos grupos de WhatsApp. E #ficaemcasa (Marco Merguizzo, do Blog Aquele Sabor Que Me Emociona)

Crédito: politicalcartoons.com

13 DE JUNHO DE 2020

À espera do dia ‘D’ da Justiça

Reprodução da coluna do escritor Ruy Casto na Folha de S. Paulo
Reprodução do Instagram da jornalista carioca

12 DE JUNHO DE 2020

São Valentino

FREDERICO MORIARTY

 O último beijo de Romeu e Julieta, por Francesco Hayez (1823)

Valentinus de Terni nasceu em 176 d.C. sob o Império de Cláudio II. O primeiro Cláudio governou no início da dinastia julioclaudiana, sobrinho de Tibério, gago, meio manco, feio pra danar, mas excelente administrador. Deu sequência aos preceitos de Otávio e organizou o Império Valentinus.

Era bispo católico nos primórdios pobres da Igreja. O Imperador encasquetou que soldados solteiros eram melhores guerreiros para as legiões. Proibiu os casamentos para os milicos de então. O bispo desafiou o César, casava pessoas e soldados sem distinção.

Antes da aceitação do Cristianismo pelo poder romano, foi um risco grande. Como não havia ainda a exigência do celibato e o santo homem era chegado num matrimônio, não perdeu tempo e casou-se também. Existem três histórias de milagres realizados pelo bispo casamenteiro.

A primeira é que ele se apaixonou por uma moça cega e ao tocá-la, esta passou a ver. Ficou grata e casou-se com um crush antigo. A segunda diz que ele abençoou um casal que era rejeitado por todos. Às escondidas fez o casamento. Quando voltaram ao povoado foram seguidos por dezenas de pombos em círculos. Na frente dos pais, ao comentar a novidade, os pombos formaram uma imagem parecida a um coração (daí o termo ‘pombinhos’ para casais).

A última diz que Serapia e Sabino (um centurião romano) foram impedidos de se casar por rejeição da família. O centurião buscou o bispo, pois a amada estava gravemente doente e ele queria uma união eterna, antes da morte dela. O bispo abençoou e batizou o casal, depois disso os casou e eles morreram logo após. Serapia da doença e Sabino, envenenado (sim, Shakespeare bebeu em ombros de gigantes).

O.bispo incomodava tanto que foi decapitado por Furius, a mando do Imperador romano e passou a ser, anos após o martírio, São Valentino. A data do martírio é 14 de fevereiro de 228. O mundo todo comemora a data como Dia dos Namorados, o Valentine’s Day dos saxônicos. Outros historiadores falam que o 14 de fevereiro não era a data da morte do santo. Criou-se a tradição para substituir a Lupercalia, uma festa em homenagem aos lobos e a loba que alimentou Rômulo e Remo.

No dia de São Valentino mandam-se cartas de amor e presentes. E neste país muito religioso, nos anos 50, a Associação Comercial de São Paulo criou a data dos namorados, porém botou em Junho (afinal já havia Carnaval em fevereiro para consumirmos e gastarmos). Aliás, foram esses santos homens do comércio paulista que inventaram o Dia das Mães e o puseram em Maio, afinal, que mesinho vazio, né?

Seguindo o papai, então o presidente da Associação Comercial Paulista nos anos 50 e criador das datas, Doria (o kid) liberou comércio e xópins antes do tempo, em plena escalada de casos da Covid. Os pombinhos, os sem-pombinhos, precisam comprar, senão a fome virá.

E viva Santo Antônio!!

Para encerrar a canção açucarada Endless Love, eleita pela revista Billboard a melhor música romântica da História.

Feliz dia das Namorados.


Feliz dia dos namorados, mascarados e ‘desnamorados

PEDRO CADINA / MARCO MERGUIZZO

Cartum (crédito): Quino
Crédito: meme anônimo


11 DE JUNHO DE 2020

TM no dia dos enamorados pela vida

Amanhã, 12 de junho, dia (ou melhor, data comercial) do namorados, será mais uma oportunidade para reavaliarmos, em meio à fase mais aguda da pandemia e do afrouxamento do isolamento social, valores e significados para quem ama de verdade. Algumas reflexões e inflexões se tornaram imperativas, como os excessos de consumo e as extravagâncias que fazíamos antes da tragédia.

Deverão ficar no passado, portanto, adquirir coisas supérfluas e absolutamente desnecessárias, seja para afagar o ego do outro ou mesmo o nosso próprio. Ou comprar um presente caro, frequentar restaurantes luxuosos, para comemorar a data.

Hoje, cada vez mais, o menos é mais. Ou seja: a regra a ser aprendida e apreendida na dor da tragédia da Covid, é que devermos valorizar a essência, nos reconectarmos com as coisas simples e verdadeiras como a natureza e a nossa humanidade.

E vivermos o dia o dia de uma maneira intensa, agradecendo cada conquista e a possibilidade de permanecermos ainda vivos e refortalecidos para enfrentar os desafios e as vicissitudes que a vida nos impõem agora e sempre.

Nesse sentido, para não deixar passar em branco o dia de amanhã e curtir em casa o feriado de Corpus Christi, selecionamos alguns artigos de autores, aqui do bravo time do Terceira Margem, para quem é e está apaixonado pelo outro, por ler e pela própria vida.

Ótimas leituras e feliz dia dos enamorados pela vida.


10 DE JUNHO DE 2020

Indignação holográfica

MARCO MERGUIZZO

Mesmo nestes tempos de pandemia e de “quarentena flexível”, tem pipocado mundo afora uma série de manifestações sociais contra governos autoritários e pró-fascistas e, em especial, uma onda de protestos antirracistas, com quebra-quebras, saques e incêndios, gerada a partir do assassinato bárbaro do afro-americano George Floyd cometido, no final de maio, por um policial de Minneapolis.

Por conta da gravidade sanitária que afeta todo o planeta, me surpreendi com uma notícia veiculada num portal de notícias da Espanha sobre o primeiro protesto holográfico da história. Sim, você leu direito. Na pátria de Miguel Cervantes, a agitação popular agora começou a rolar não apenas nas ruas mas nas telas do computador, multiplicando os manifestantes e os ativistas em dezenas de milhares ou milhões.

Essa grande sacada dos espanhóis foi possível graças à velha técnica inventada nos anos 40 do século passado pelo Nobel de Física, o húngaro Isaac Asimov (1920-1992), mestre-maior da ficção científica, que consiste em criar imagens tridimensionais a partir da projeção da luz sobre figuras bidimensionais (não deixe de conferir os dois vídeos, abaixo). Ou seja, esse tipo de iniciativa pode se tornar cada vez mais comum, sobretudo nestes tempos de isolamento social compulsório.

Sem violar, portanto, a quarentena, o alvo das “manifestações virtuais” dos espanhóis foram as novas diretrizes das leis de Segurança do Cidadão ou “Ley Mordaza” (Lei da Mordaça), do Código Penal e da lei anti-terror do país. A divulgação do movimento, que “ocorreu” há cerca de duas semanas, ganhou as manchetes da mídia local e internacional e foi amplamente repercutido nas redes sociais, dentro e fora da Espanha.

Nos anos 70, o compositor Cartola protestando contra a violência da Polícia carioca diante da favela do Morro da Mangueira (Foto: Arquivo)

“Se você é uma pessoa, você não pode se expressar livremente e só pode fazer isso aqui se você se tornar um holograma”, anuncia a guapa espanhola no vídeo divulgado pelo movimento Hologramas para la Libertad. No site do movimento, os cidadãos foram convidados a participar desse primeiro protesto virtual, escrevendo uma mensagem de texto, deixando uma mensagem de voz gravada ou convertendo-se em um holograma através da gravação de um vídeo via webcam.

Sob a nova Lei de Segurança do Cidadão ou Ley Mordaza, como os defensores dos direitos humanos a rebatizaram ironicamente, protestos públicos, as liberdades de expressão e de imprensa e documentar os abusos policiais se tornaram crimes puníveis com multas pesadíssimas e, até, prisões por abuso de autoridade. Ah, se essa moda pega por aqui…

De todo modo, seja protestando nas ruas ou no papel de ativistas digitais do terceiro milênio, o negócio é jamais deixar de lado a nossa indignação diante da injustiça, da opressão e dos opressores. Como diz a velha máxima espanhola: “Se hay gobierno, soy contra!”

Viva, portanto, desde sempre, a liberdade de expressão e todas as conquistas sociais e civilizatórias!


09 DE JUNHO DE 2020

Sensações de terremoto

CARLOS ARAÚJO

Alta noite, você vai dormir abalado com mais um escândalo do governo federal, desta vez por conta da sonegação de dados da Covid-19 – medida que repete a mesma prática da ditadura militar na década de 1970 durante uma epidemia de meningite. Horas depois, ao acordar na manhã desta terça-feira (9), na fração de tempo entre abrir os olhos e se conectar com a realidade, você sente a casa tremer e é sacudido pela incrível sensação de que acontece um terremoto. Você logo cai em si e liga a origem do problema às obras do BRT que restringem os espaços da avenida em frente à casa. Será que as paredes vão resistir aos abalos? Da janela, você vê a máquina compactadora que vai e vem em ritmo acelerado e isso dura toda a manhã. Perto do local, outra máquina aguarda a hora de entrar em ação. Do lado oposto da avenida, a movimentação dos serviços também é intensa com a operação de outra máquina e um caminhão. Operários se deslocam no canteiro de obras. Os carros se movimentam em ritmo lento. E você pensa em isolamento social. Quando você é perseguido pela política autoritária de um governo do fim do mundo e a casa treme com o abalo provocado pela obra pública na avenida, o esforço do isolamento social se torna uma grande ilusão. A perturbação é como uma tortura, como um castigo. Ninguém aguenta esses terremotos. Ninguém merece.


A ressignificação do tempo nestes tempos de pandemia

MARCO MERGUIZZO

Trocar o dia pela noite e vice-versa. Segunda-feira com cara de domingo, domingo com cara de todo dia. Definitivamente, o isolamento social traz a sensação de perda da noção de tempo e o fenômeno tem até nome: distorção temporal. 

Uma mudança drástica, como a que estamos vivendo nestes tempos de pandemia do coronavírus, pode fazer com que percamos totalmente a noção de tempo. Quando deixamos de ter uma rotina diária, nossa linha do tempo interna é afetada, por isso, por vezes, pinta aquela dúvida sobre o dia da semana que estamos, a sensação de que as horas passam devagar demais, mexendo internamente com nossos relógios físico e, sobretudo, mental.

Essa sensação de se estar no “mundo da lua” e num território até então desconhecido, além de sobrecarregar nossa relação com o tempo, pode afetar o nosso emocional, nossos relacionamentos pessoais e familiares e a produtividade no trabalho remoto que realizamos. Isso é fato.

Para espantar e driblar esse “estresse reverso”, tenho organizado o meu dia a dia dosando compromissos profissionais, de pai, marido, filho, irmão e amigo, aliando-o âs tarefas domésticas (sim, homem que é homem também vai pra cozinha e lava a louça suja da pia), como se não houvesse pandemia.

A profissão do jornalista, cada vez mais precarizada e hoje um ofício de home-office (salvo raras exceções, as redações hoje empregam poucos profissionais, hoje a maioria é freelancer), também contribuiu para atravessar essa fronteira do trabalho presencial sem muitos traumas, já que havia virado uma rotina para mim.

Vejo amigos professores e outros profissionais (mesmo nós, veteranos da imprensa) metidos numa avalanche de calls, lives e se desdobrando em mil tarefas, para dar conta do recado. Sim, em casa, estamos trabalhando muito, muito mais.

Na prática, sabemos que a ressignificação do tempo e toda mudança não são coisas fáceis de serem digeridas. Além do quê, cada um tem o seu próprio tempo e ritmo, os quais devem ser respeitados.

O “Novo Mundo” que se apresenta e as batalhas cotidianas catalizadas pela Covid passaram a ser um grande e difícil teste para cada um de nós, bem como um desafio coletivo e permanente, para que possamos manter a nossa sanidade, sobrevivermos com dignidade, sem deixarmos de lado a nossa humanidade.

O Novo Mundo, que já está aí fora rolando, não pode nos derrotar.


08 DE JUNHO DE 2020

Uma cidade a caminho da UTI

JOSÉ CARLOS FINEIS

O movimento de pessoas nas ruas comerciais do centro de Sorocaba, no sábado (6/6) pela manhã, só poderia ser comparado a uma véspera de Natal, um dia depois do pagamento.

O afluxo de pessoas foi tão intenso que o site SorocananiceS (1,4 milhão de seguidores) ironizou se os sorocabanos não teriam confundido pandemia com black friday.

Naquele mesmo dia, foi publicado um estudo elaborado nos Estados Unidos segundo o qual o Brasil poderá chegar à marca dos cinco mil mortos por Covid-19 ao dia, em agosto.

Em Sorocaba, eram 61 mortos neste domingo (7), 30 a menos que em Jundiaí, cidade com menos habitantes mas que optou por liberar o comércio e serviços em meados de abril.

Nossa população se comporta como se não estivéssemos em ritmo ascendente de uma pandemia mortal. Talvez confiem mais em políticos negacionistas do que nos médicos e na Organização Mundial da Saúde (OMS).

Ao que tudo indica, os incrédulos terão de ver caixões empilhados, perder parentes e amigos, ou sentir na própria pele os efeitos da doença para acreditar que a Covid-19 não é uma gripezinha.

A explosão iminente de casos de Covid-19 poderia não ocorrer ou ser menor, se os governos se esforçassem por educar e ajudar as pessoas. Como não temos nada disso, muita gente morrerá.

Não chega a ser um consolo, mas os políticos que jogam com a saúde pública, liberando atividades não essenciais, desamparando e desorientando a população, responderão pela mortandade como o que verdadeiramente são .

Inconsequentes. Desumanos. Assassinos.


07 DE JUNHO DE 2020

O que aconselha a jovem Anne?

LUIZ PIEROTTI

Quanto a “sair”, ir até a varanda já está de bom tamanho, ok? Respeitemos o distanciamento social.

“Nesse momento não penso em toda miséria, mas na beleza que ainda resta. O conselho dela (minha mãe) face à melancolia é: “pensa em todo o sofrimento que há no mundo e dá graças por não estares a passar por ele”. O meu conselho é: “sai para a rua, vai ao campo, aprecia o sol e tudo o que a natureza tem para oferecer. Sai e tenta recapturar a felicidade que EXISTE dentro de TI próprio, pensa em toda a beleza que há em ti e em tudo o que te rodeia, e seja feliz. Se nos tornarmos parte do sofrimento, o que nos resta? Ficaríamos completamente perdidos. Pelo contrário, a beleza PERMANECE, mesmo na desgraça!”

O Diário de Anne Frank


06 DE JUNHO DE 2020

O Ministério da Verdade de 1984 existe

FREDERICO MORIARTY

Mil Novecentos e Oitenta e Quatro” foi escrito e publicado por George Orwell em 1948. Na distopia política não existem mais os países atuais. Somente uma ditadura planetária que controla todos os movimentos da vida social. Somos vigiados 24h por dia pelo Grande Irmão (o Big Brother). A língua quase desapareceu. Virou uma pátria lacônica a proferir meia dúzia de códigos: a Novilíngua. O regime tinha um lema: “Guerra é Paz. Liberdade é Escravidão. Ignorância é Força “.

Na trama, Smith é um funcionário do Ministério da Verdade. Como em toda a história, as palavras são paradoxos. O objetivo do Ministério é reescrever a história, de tal forma que a ditadura seja laureada. Smith é o reescritor dos jornais.

IngSoc, o país da Oceania. Novilíngua de Inglaterra Socialismo

Na maior crise econômica e sanitária de nossa história, o presidente demite dois ministros da Saúde. Coloca um general no cargo. Este, por sua vez, nomeia 10 militares como secretários executivos do alto escalão. Nenhum dos 11 é médico. Ninguém tem formação na área da saúde. Esta semana, o nosso Ministério da Verdade começou a sonegar informações da Covid. Retirou do sistema os dados completos da pandemia e, por último, decidiu rever e alterar os dados.

Ignorância é Força!


05 DE JUNHO DE 2020

Pandemia: os dados de Sorocaba

DATAFREDERICO

Frederico Moriarty vem acompanhando os dados da Covid-19 há exatas seis semanas. Naquele 25 de abril, a cidade estava com 99 infectados e 18 óbitos. Os internados eram 19 pessoas. Hoje, batemos em 1.233 casos (crescimento de 1.300%). São 60 os mortos (330% de acréscimo). Cinquenta e sete sorocabanos estão internados. Completamos ainda sete dias seguidos com novas mortes e aumento nas internações. E a Prefeitura decidiu o que esta semana? Reabrir quase tudo (negando o parecer técnico, médico e científico da equipe multidisciplinar da secretaria estadual de saúde).

Casos
óbitos

Na quarentena, a vida como ela é

MARCO MERGUIZZO

Feminino e masculino

Esculpindo Dalí na roupa suja


04 DE JUNHO DE 2020

Quais os limites de nossas tragédias e indiferenças?

MARCO MERGUIZZO

Assustador. Ultrapassamos os 33.000 mortos. Mais de 1.400 vítimas da Covid-19 só nas últimas 24h. E um silêncio ensurdecedor dos cidadãos de bem em meio a corpos empilhados, a maioria pertencente a pardos, negros e pobres. Se não bastasse tamanha tragédia humana, uma total indiferença em relação ao racismo bárbaro representado pelas mortes cruéis e inadmissíveis do menino João Pedro e do americano George Floyd, ocorridas nas últimas semanas. “Não estou conseguindo respirar”, repetiu ele 16 vezes, durante 8 minutos e 46 segundos, antes de morrer esmagado pelo joelho de um inumano fardado. O garoto, alvejado covardemente pelas costas, nem isso.

Nesta quinta (4/6), faz exatamente um ano que morreu Muhammad Ali, que nasceu Cassius Marcellus Clay Junior. Para mim e uma legião de amantes dos esportes, Ali foi o maior pugilista de todos os tempos. Uma lenda, um gigante e um mito de verdade – dentro e fora dos ringues – e não esses heróis fakes e impostores de fancaria da vez do esporte e da política. No auge da carreira, o incrível e exímio “bailarino da nobre arte”, como o boxe era chamado num passado politicamente não tão correto e já distante, se recusou a lutar na Guerra do Vietnã. Sobre esta sua decisão contra o establisment, eledisse à época:

“Não vou percorrer 10.000 km para ajudar a assassinar um país pobre simplesmente para dar continuidade à dominação dos brancos sobre os escravos negros”. Ao lado dos Panteras Negras, de Bobby Seale e Huey Newton, e de outro monumento antirracista, Malcolm X, seu “parça preto” de lutas, que foi assassinado pela covardia e intolerância higienista da estrutura branca de poder e o ódio visceral dos supremacistas da KKK, Ali era o primeiro a entrar nessa arena para lutar o bom combate, sem hesitar um só segundo.

Malcolm X e Muhammad Ali: racistas não eram páreo para eles (Arquivo)

Sabia que essa guerra civilizatória era necessária, crucial. Um conflito atemporal, permanente, com batalhas cotidianas, sem tréguas ou fim. Postava-se no corner oposto ao que hoje estão muitos atletas, sejam negros ou não, e como muitos de nós, ao se omitirem e fugirem desse ringue, por conta da força do egoísmo, da indiferença (“E daí?”) e da grana (“CPMF em vez do CPF, taokei?), seguindo a cartilha de indiferenças da maior autoridade do país, de total descaso com a vida humana.

Você, Clay (ops, me desculpe o ato falho e este longo parêntesis, meu velho Muhammad, lembro perfeitamente de sua fala sobre o seu nome de batismo. Como um soco demolidor, você cravou: “Cassius Clay era o nome de um escravo. Não foi escolhido por mim. Eu não o queria. Eu sou Muhammad Ali, um homem livre.”), o seu exemplo e inspiração representam o golpe certeiro, brutal e definitivo contra a infâmia do preconceito, do racismo vil e o elo perdido a ser resgatado de uma sociedade que se perdeu nos desvios de sua cegueira e desumanidade patológicos, e que, hoje, ironicamente, enfrenta um inimigo igualmente invisível, mortal e nocauteador.

Após 365 dias de sua morte, R.I.P. Muhammad Ali.

Vidas negras importam, sim.

A luta contra o preconceito e a indiferença agora é nossa.

#somosantirracistas #vidasnegrasimportam


03 DE JUNHO DE 2020

Verde que te quero comer-te

MARCO MERGUIZZO

Foto tirada na manhã desta 4ª após a madrugada chuvosa em S. Roque

Bem antes da pandemia da Covid-19, escrevi um artigo no meu blog, aqui no Coletivo Terceira Margem, sobre a possibilidade de se ter em casa, nos dias de hoje, uma produção própria de hortaliças, frutas e temperinhos sem o uso de agrotóxicos, como alternativa à mesa de uma alimentação mais saudável, saborosa, de procedência confiável e rica nutricionalmente.

Como os nossos avós, por sinal, faziam no passado ao cultivarem nos quintais das antigas residências uma hortinha, que em geral ficava ao lado de um galinheiro, a fim de garantir a despensa com produtos de qualidade sempre frescos, livres de pesticidas e contaminação e, de quebra, aliviar o bolso (para ler o artigo, clique aqui).

Moro numa casa térrea com um pequeno jardim em ‘L’. Na frente, impera no gramado um coqueiro de uns 4m, plantado ali há quase 30 anos, além de bromélias e orquídeas, que são o xodó da minha mulher, uma psicóloga que ama jardinagem. Já a outra parte, fica na lateral e é dividida em seis canteiros estreitinhos. Além de antúrios e lírios da paz, a apaixonada “analista de mentes e plantas” costuma cultivar em dois deles folhas variadas de chá, temperos e pimentas que usamos e abusamosna cozinha.

Ao longo das últimas doze semanas de quarentena, além de cuidar das plantinhas, ela se arriscou a cultivar – e deu super certo! – nossos primeiros tomatinhos-cereja e, acredite, um lindo pezinho de berinjelas, cujos dois únicos frutos crescem ao sabor da natureza, sem nenhuma pressa, sob o seu olhar solerte, feliz e orgulhoso.

Não é de hoje que a jardinagem e a agricultura familiar, sobretudo agora nestes tempos de pandemia e de isolamento social, podem ser não só uma boa terapia para a alma, mas também, uma saborosa e saudável alternativa para matar a fome e agradar o paladar.

Soube nesta semana que a Embrapa abriu cursos on-line e disponibilizou por 30 dias o download de livros sobre plantas brasileiras. Tem até um curso para criar abelhas em casa para produzir mel (veja logo abaixo). Já que o isolamento é fundamental e ultranecessário, que estes tempos em casa nos tragam novos aprendizados e a descoberta de novos caminhos, mudanças e recomeços. Abaixo, seguem os links dos cursos e livros.

Mãos na terra – e à obra. E ótimos frutos.

Para mais informações, eis aí os links:

Horta em Pequenos Espaços:
https://bit.ly/2X1mDre

Sistemas Agroflorestais para Pequenas Propriedades:
https://bit.ly/2WKjY6G

Compostagem:
https://bit.ly/2zczmzs

Agricultura de Baixo Carbono:
https://bit.ly/3bK7iRt

Produzindo em casa o próprio mel

 Desde esta 3ª (2/6), está no ar o primeiro e inédito curso on-line e gratuito sobre criação de abelhas produtoras de mel sem ferrão, mesmo para quem mora na cidade. Iniciativa da Embrapa Meio Ambiente e Associação Brasileira de Estudos das Abelhas (A.B.E.L.H.A.)o curso está disponível na plataforma da Embrapa e no canal da Embrapa Meio Ambiente no YouTube, com linguagem acessível, rico em imagens e demonstrações práticas.

Com informações sobre a biologia das abelhas sem ferrão e técnicas de manejo, é um curso a distância pra lá de completo sobre o assunto. Após assistir às quatro videoaulas, as pessoas estarão preparadas para iniciar sua própria criação e produzir mel produzidas por abelhas nativas do Brasil. Elas são sociais e dóceis – pois não têm ferrão – e podem ser criadas como hobby, mesmo em casa e centros urbanos, ou para fins comerciais, já que produzem méis especiais – alguns com grande valor de mercado. Anote o link da meliponicultura (mel de abelhas)https://bit.ly/36Wg9ig


O novo normal

FREDERICO MORIARTY

As pessoas reclamam que as crianças são indisciplinadas. Já viram os adultos nesse isolamento? Não conseguem fazer uma fila. Não conseguem ficar em isolamento. Não colocam a máscara por birra. E ainda que esteja pintado no chão o lugar para cada um ficar, não o respeitam. Tá igual na creche, tem de ter a tia pra organizar a fila.


02 DE JUNHO DE 2020

O ovo da serpente

FREDERICO MORIARTY

O grande ator e pensador inglês Stephen Fry esteve no Brasil em 2013. Produzia então o documentário sobre o homossexualismo e a homofobia no mundo, Out There. Ao final, ele entrevista um deputado da extrema-direita brasileira. Os diálogos são tensos, agressivos e desrespeitosos. Ao final, o político tupiniquim solta uma risada gutural, com um quê de psicopatia. Fry termina caminhando pelas ruas do Rio. Fala que foi a mais esquisita e sinistra entrevista que fez. Que é um típico homofóbico, o qual com suas mentiras faz surgir a violência na mente dos ignorantes. Ele se assusta muito pois considera o Brasil um país progressista. Mas que devemos estar atentos, pois a história nos ensina que o progresso pode ser abolido com facilidade. Por trás de toda morte existem vidas humanas que se perderam, não só estatísticas.

Esquecidos da história, passados 7 anos, levamos esse ser sombrio à presidência. Em meio a uma pandemia que ceifou mais de 30.000 brasileiros.

Assista, abaixo, ao trecho da entrevista:


 1 DE JUNHO DE 2020

O trágico dia em que atingimos 30.000 mortos

MARCO MERGUIZZO

Embora ainda não oficialmente, neste 1º de junho de 2020, uma segunda-feira fria e sombria, mas que amanheceu ensolarada, bateremos o número catastrófico de 30.000 óbitos pela Covid-19. Um pesadelo e uma tragédia humanas que nos deprime e nos angustia, pois sem termos atingido sequer o pico da pandemia, para assim o Brasil poder reverter esse desastre sanitário, o afrouxamento do isolamento social e de medidas preventivas que vinham sendo praticadas durante a quarentena por estados e municípios, em oposição à narrativa ambígua do Governo Federal, serão agora trocadas por regras de flexibilização em que haverá a retomada de algumas atividades econômicas.

Uma estratégia no mínimo temerária para não dizer genocida que atende aos desejos do mercado e alinhada ao pensamento neoliberal da equipe econômica comandada por Paulo ‘Posto Ipiranga’ Guedes e à conhecida necropolítica presidencial. Sinistro e emblemático, o número de 30 mil mortos me remete a uma fala de Jair Messias Bolsonaro quando ele era ainda um deputado federal medíocre – e desde sempre boquirroto e com um discurso de ódio -, e não tinha pretensões presidenciais.

Este seu depoimento deprimente, dentre os muitos de sua polêmica trajetória política e que infelizmente acabaram sendo aceitos e “normalizados”, foi dado durante uma entrevista concedida ao programa Câmera Aberta, da rede Bandeirantes, em 1999. Neste mesmo programa, ele defendeu uma guerra civil no país, com o assassinato de pelo menos 30 mil pessoas. Além de incentivar a população a sonegar impostos: “Conselho meu e eu faço: sonego tudo que for possível”, disse.

Ainda coroou aquele show de horrores, ao qual hoje assistimos cotidianamente, afirmando com todas as letras que “o voto não vai mudar nada no Brasil. Só vai mudar infelizmente quando partirmos para uma guerra civil, fazendo um trabalho que o regime militar não fez. Matando uns 30 mil, começando com FHC, não vamos deixar ele pra fora, não”, ameaçou. “Meta pessoal” atingida em 2020, seus próximos objetivos e passos, tudo levar a crer, segundo sua agenda anunciada já àquela época, serão o golpe e a guerra civil. Acorda, Brasil.

Para acessar todos os posts de Maio/2020, de 7 a 31, clique em cima da imagem abaixo

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