Nesta 2ª (13), dia do rock, conheça os astros do showbiz que costumam trocar o palco e a guitarra pela taça e a produção de vinhos

MARCO MERGUIZZO – O “vinhateiro-roqueiro” Sting. O tenor italiano Andrea Bocelli. O rapper Jay Z. A super estrela Madonna. Muitos artistas consagrados do showbiz internacional resolveram virar, mais do que apaixonados apreciadores de vinho, em vinhateiros e produtores da bebida predileta de Baco. A eles ainda se juntam o mundialmente conhecido diretor de cinema Francis Ford Copolla, o ator francês Gérard Depardieu, as atrizes Kate Hudson e Drew Brarymore, o jogador espanhol Andrés Iniesta e, até, o atual presidente Donald Trump, que tem uma vinícola no estado norte-americano da Virginia.

Paixão, hobby ou business – são várias as razões que motivam uma pessoa, seja ela famosa ou não, a se tornar um produtor de vinho. Em minhas andanças por regiões vinícolas mundo afora, escutei todo tipo de argumento que perpassa desde o candidato a produtor virar a página de sua vida profissional e realizar um investimento para consolidar um plano B, até materializar um sonho acalentado durante anos, “eternizando-se” numa garrafa do seu próprio vinho.

Dita e reproduzida por diferentes produtores e em países distintos, e que circula entre aqueles que cultivam a videira como ofício para se obter a mais sedutora das bebidas produzidas pelo homem, mais de uma vez ouvi uma frase genial que expressa o sentimento ambíguo e nada capitalista de fazer o desejado fermentado de uva: “Produzir vinhos é a melhor forma de empobrecer feliz.”

Fotos: Bancos gratuitos de imagens digitais

De fato, a atividade vinícola exige hoje investimentos financeiros altíssimos para todo aquele que deseja aventurar-se no complexo e hoje extremamente profissional universo de Baco: desde a aquisição de áreas propícias para o cultivo da vitis vinifera (a uva própria para a produção de vinho), quanto à infraestrutura, com a contratação de uma equipe competente de enologia, compra de equipamentos, tonéis e de barricas, além de uma logística, para que o produto aterrisse com a melhor qualidade na taça do consumidor.

Sem contar que para colher a primeira safra e obter uvas de alta qualidade vinícola é necessário pelo menos quatro, cinco anos, e isso em condições ideais de clima e insolação, amplitude térmica, etc.. Depois de engarrafado, o vinho ainda deve permanecer um ou mais anos em tonéis de carvalho, caso ele seja de guarda, para ganhar seu patrimônio de aromas e sabores e obter o máximo de qualidade e longevidade.

Ou seja, é um segmento produtivo no qual se exige praticamente uma década para começar a ter algum retorno de todo o investimento inicial. Ou, em outras palavras, não é um negócio para qualquer um, para franco-atiradores e pessoas endinheiradas e amadoras que caem de paraquedas na vitivinicultura, mesmo não se importando em torrar alguns milhões de reais, dólares ou euros.

Sting, um vinhateiro-roqueiro de múltiplos talentos
O cantor e instrumentista milionário Sting: vinhos que não desafinam

Considerado por alguns críticos musicais como um dos maiores roqueiros de todos os tempos, o britânico Gordon Matthew Thomas Sumner, (Wallsend, Reino Unido, 2 de outubro de 1951), mais conhecido pelo seu nome artístico, Sting é um compositor e instrumentista ultrahabilidoso, dono de timbre vocal marcante e de uma penca de clássicos do rock – o que não é pouca coisa.

Já para outros, o ex-líder do The Police pode ser descrito como um roqueiro, sim, mas não de raiz, pertencente àquele seletíssimo grupo integrado por ícones incontestáveis como Frank Zappa, Chuck Berry (um dos pais do rock), Beatles, Rolling Stones, Pink Floyd, AC/DC, Led Zeppelin e Iron Maden, entre outros.

Para estes , o autor de Roxanne e Don’t Stand So Close to Me”, é um propagador do easy listening, de canções pop, new wave e world music e de causas tidas como demagógicas. Pior: alguém que há anos não lança um álbum razoável.

Em 1987, o cantor com o cacique Raoni, no Parque Indígena do Xingu

Ativo politicamente, Sting é membro da Anistia Internacional e já participou de manifestações contra a violência na Irlanda, Palestina e África, além de ter promovido shows beneficentes. Ele também é o criador da Rainforest Foundation, fundação que defende a Amazônia e o interesse dos índios, e se posicionou contra à construção da usina de Belo Monte (PA).

Tudo isso está longe de ser defeito -pelo contrário–, mas há quem enxergue oportunismo na postura, que estaria relacionada a pretensões intelectuais e à chamada “esquerda caviar”, repleta de milionários como ele. Palavra dos haters.

Embora tenha se consagrado como baixista, Sting é da classe dos multi-instrumentistas. No contrabaixo, criou linhas que conseguem ser ao mesmo tempo simples e de extrema dificuldade na execução, desgarradas da métrica vocal. Sting é considerado por muitos músicos como um mestre na arte de sustentação de harmonias, tanto no baixo convencional, o fretless (um baixo sem os trastes do braço) e o acústico, típico do jazz, estilo que também domina.

Boa pinta e talentoso, o músico também é ator de cinema e televisão. Desde os anos 1980, como personagem ou interpretando a si mesmo, participou de mais de 20 produções. Entre elas está Quadrophenia”, adaptação da ópera-rock do The Who. Na Broadway, ele também atuou em A Ópera dos Três Vinténs e no musical The Last Ship, inspirado em sua própria vida.

Os supertoscanos do ‘Marchese’ ou Sir Sting
Sting com a mulher, a atriz e produtora Trudie Style na cave da vinícola

Sting debutou no mundo do vinho há quase uma década. Em 2011, o músico comprou a vinícola Tenuta Il Palagio, na cenográfica região da Toscana, Norte italiano. Toda a linha de vinhos de cantor é batizada com nomes de suas músicas. Seu rótulo mais famoso é o Sister Moon – um vinho de corte que leva as variedades francesas globalizadas Cabernet Sauvignon e Merlot, tradicional corte bordalês, mais a Sangiovese, a rainha das uvas tintas da Toscana e da própria Itália.

Até os anos 70, vale ressaltar, a legislação vinícola italiana impedia o cultivo de cepas estrangeiras em seu território. Com o movimento liderado por Marchese (marquês) Antinori, denominado de “Supertoscanos”, a região e o próprio país viveram uma verdadeira revolução rumo à excelência dos rótulos que passaram a ser produzidos por lá.

Ou seja, mesmo tendo em seu DNA castas não italianas e seguirem novas tendências de consumo, os supertoscanos são considerados vinhos com identidade e caráter inconfundivelmente italianos. A legislação do país, portanto, vilã no princípio, acabou por se adaptar, absorvendo as mudanças em seus vinhos.

Em 1994, um decreto ministerial criou a DOC (Denominazione di Origine Controllata) Bolgheri, que permitia ao cobiçado Sassicaia, tinto supertoscano pioneiro ultrafamoso, ser rotulado como DOC. Hoje, algumas denominações tidas como conservadoras já permitem a adição de um certo percentual de uvas estrangeiras. Além disso, muitos rótulos recebem a classificação IGT (Indicazione Geografica Típica), sinalizando para o mercado que se trata de um supertoscano.

Foi a partir desse conceito dos vinhos supertoscanos, portanto, que Sting moldou seus tintos e brancos já reconhecidos por críticos e consumidores pela alta qualidade exibidas em safras mais recentes. E melhor: não só na conservadora Itália mas em todas as partes do mundo onde suas garrafas foram desarrolhadas.


Da turma da música e do vinho

Não só de roqueiros famosos vive o mundo do vinho. Ao lado de Sting brilham na lista de celebridades do showbiz que curte e faz a bebida a super star Madonna, o tenor Andrea Bocelli, o rapper Jay Z e o baiano Bel Marques, estrela da axé music

Andrea Bocelli

Na Itália, o cantor Andrea Bocelli – o artista que mais vendeu discos de música clássica no mundo – mantém uma vinícola própria: a Bocelli Family Wines. Baseada em Lajatico, na Toscana, a azienda é uma empresa familiar cujos donos atuais são os irmãos Andrea e Alberto Bocelli. O enólogo da casa é o renomado Paolo Caciorgna.

Em seu portfólio, o cantor moldou um tinto e um espumante:, o Sangiovese in purezza, feito com uvas colhidas à mão em Morellino di Scansano, e o Prosecco Extra Dry feito em conjunto com o produtor Trevisiol. A casa já produzia um Cabernet Sauvignon chamado In Canto, um corte de Sangiovese e Cabernet batizado de Alcide e um vinho feito com vinhas velhas de Sangiovese cujo nome é Terre di Sandro. Na mesma propriedade, a família Bocelli produz vinhos há 130 anos. 

Madonna

Cosmopolitan? Que nada. Em parceria com seu pai, Silvio Ciccone, a pop star e winelover Madonna possui a Ciccone Vineyard and Winery, que está encravada no terroir de Leelanau Peninsula, Michigan State, nos Estados Unidos. A adega começou em 1996 e é composta de 14 hectares das tinta Pinot Noir e as branas Pinot Grigio, Chardonnay, Dolcetto e outros tipos de uvas. Em 2013, dois vinhos da cantora ganharam medalhas de prata e bronze em um concurso Internacional de vinhos.

Jay Z

Jay Z comprou, em 2014, a maison Armand de Brignac, fazendo uma oferta simplesmente irresistível à Sovereign Brands, dona dessas famosas garrafas borbulhantes. O rapper sempre foi um dos maiores fãs e representantes daquela tradicional casa de Champagne, tanto que até algumas garrafas já apareceram em um dos clipes do cantor, o da música Show Me What You Got. Em 2012, Jay-Z montou uma torre de 350 garrafas de Champagne da marca para uma festa em sua boate em NY, em homenagem ao presidente Barack Obama.

Bel Marques

Sob a batuta do premiado enólogo argentino Mauricio Lorca, cujo currículo inclui as vinícolas mendocinas Bodegas Esmeralda, a icônica Catena Zapata, Torino, Luigi Bosca e Finca La Celia – Bell Marques realizou o sonho de todo amante de vinhos: virar produtor de seus próprios rótulos. Em meados dos anos 2000, lançou dois tintos feitos no país hermano sob a supervisão de Lorca: o Chicleteiro Malbec-Cabernet Sauvignon Reserva (estágio de 12 meses em barricas francesas) e o Gran Reserva (18 meses).

Batizados com a alcunha dos fãs de sua ex-banda – chicleteiro -, ambos são vinhos de corte moldados com o famoso dueto de uvas francesas (fifty to fifty), cujas cepas se adaptaram esplendidamente àquele conhecido terroir argentino, desde o final do século 19, originando desde então grandes vinhos, sobretudo nas últimas três décadas.

Até 2012 tais rótulos eram importados e comercializados no mercado brasileiro, época em que o projeto enológico foi interrompido e definitivamente extinto por Bell. Hoje, algumas poucas garrafas permanecem em sua adega pessoal para o seu próprio deleite, dos familiares e amigos mais próximos.

(Para ler o bate-papo exclusivo que o blog teve com ele no começo deste ano, antes do Carnaval e da pandemia, clique aqui).


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