Na data em que se rememora a Revolução Francesa, descubra a charmosa Normandia, berço do camembert e dos famosos brioches de Maria Antonieta

MARCO MERGUIZZO – “Se não têm pão e estão com fome, deem-lhes brioches!” A célebre frase é atribuída a uma das protagonistas da Revolução Francesa, Maria Antonieta, durante a sua coroação, em 1774, quando soube que o povo das províncias do interior da França não tinha o que comer. Tudo isso, porém, não passa de uma lenda urbana ou como dizemos hoje, mais modernamente, de uma fake news criada pela contrapropaganda dos revolucionários antimonarquistas.

É consenso entre os historiadores que a última rainha gaulesa jamais teria dito essa frase mas, no entanto, acabou sendo usada contra ela e o reinado absolutista de Luís XVI, levando-a à morte na guilhotina. Alguns estudiosos garantem que a autora dessa afirmação excludente e esnobe teria sido dita, em verdade, pela princesa Maria Teresa da Espanha (1638-1683), esposa do rei Luís XIV e Rainha Consorte da França e Navarra.

Mas como é que esse ignomínia atemporal da luta de classes (vide a recente e polêmica declaração de Bia Doria, esposa do governador de São Paulo, John Dólar, ops, João Doria, ao referir-se aos moradores de rua como pessoas indolentes e que não se deve doar marmitas a eles porque “gostam” de ficar nessa situação por acomodamento e puro clientelismo) foi parar na boca de Maria Antonieta?

A pista mais provável vem do livro Confissões, do filósofo francês Jean-Jacques Rousseau, publicado em 1778. Lá, ele diz textualmente: “Recordo-me de uma grande princesa a quem se dizia que os camponeses não tinham pão, e que respondeu: ‘Pois que comam brioche’”. Rousseau não a nominou mas deu pistas de que se tratava da princesa Maria Teresa, esposa de Luis XIV.

Maria Antonieta: uma fake news culinária celebrizou o pãozinho gaulês

Alguns registros históricos mostram que a companheira de Luís XVI era uma mulher culta e ultrarrefinada, que cultuava hábitos sofisticados à mesa e fora dela. A última rainha da França era, por exemplo, uma lançadora de moda contestadora. Chocou as sociedades local e europeia da época ao vestir calças, uma exclusividade masculina, cujos homens por sinal se maquiavam e usavam peruca.

A azougue monarca teria, também, deixado de lado os espartilhos de barbatana de tubarão e as roupas pesadas para adotar peças mais leves, como faziam de modo sábio os camponeses. Mas engana-se quem pensa que Maria Antonieta foi uma mulher fútil e ingênua. Ao contrário: era uma mestrina em usar o seu charme e glamour como arma para se firmar numa corte eivada de invejas e hostilidades.

Se fosse comparada a uma celebridade dos dias atuais, Antonieta se pareceria muito com a cantora Madonna, seja por sua popularidade, seja pelo comportamento descolado, inusual e não raras vezes extravagante. Centro das atenções por todas as razões, a última rainha da França mudava constantemente sua aparência: ia aos eventos da realeza com penteados extravagantes, bem como se trajava com camisetes simples e despojadas na residência de campo real, passando pelas andróginas silhuetas masculinas de montaria.

O governador de São Paulo e a mulher Bia Doria: nada de marmitas

Há registros da troca diária intencional de seu figurino, numa clara estratégia de despertar a admiração dos súditos do rei. Também como a super star Madonna, Maria Antonieta tinha um comportamento sexual avançado para os padrões femininos da época.

Voltando à questão dos brioches, faça-se justiça, a única menção que ela teria feito seria sobre o alto preço do pão naqueles dias de revolução numa carta à mãe. A situação irrompeu em 14 de julho de 1789, quando o povo de Paris apoiou nas ruas os seus representantes, assaltando a fortaleza da Bastilha, símbolo do absolutismo monárquico.

Verdade ou fake news, sabe-se que esta especialidade da boulangerie francesa sempre foi uma unanimidade entre os franceses de quaisquer classes sociais. O brioche é um pão ultramacio, cuja textura lembra um bolo bem leve e fofinho. De paladar levemente adocicado, pode ser servido tanto com coberturas e recheios doces quanto salgados.

Seu formato é inconfundível: duas bolas de massa, com a menor sobreposta à maior. Mas cuidado, gordinhos e comilões: ele é extremamente calórico por causa da adição de manteiga, leite e gemas.

Normandia e Brie disputam a primazia de sua origem
Com recheio doce ou salgado, o brioche é uma tentação difícil de resistir

Segundo historiadores e culinaristas, o brioche teria sido criado no século XVI, sendo conhecido originalmente como “doce dos apóstolos” ou “doce dos profetas” pela semelhança aos adornos de cabeça usados pelos primeiros discípulos de Jesus. A massa remontaria à Idade Média, em que se faziam bolos semelhantes.

Tudo leva a crer que a sua mais provável origem seja mesmo a Normandia, localizada no Norte da França. Com ela disputa a primazia dessa tentação a região de Brie, também naquela parte do território gaulês e berço do famoso queijo de mesmo nome, o brie. A raiz do nome brioche viria daí. Mas há, ainda, quem diga que esta delicia sequer seria francesa e, sim, austríaca.

A hipótese mais provável, porém, pela longa tradição e excelência de suas produções, é a Normandia. Provei alguns dos melhores brioches da minha vida naquela belíssima região, numa viagem de trabalho que fiz para lá anos atrás. À época, conheci a charmosa estação balneária de Barneville-Carteret – um paraíso à beira-mar ancorado muito próximo ao ponto do litoral norte francês onde as forças aliadas desembarcaram nos anos 40 para enfrentar o exército nazista.

Além de sua importância histórica, do incrível vilarejo medieval de Saint-Michel e dos inúmeros atrativos naturais do lugar, a Normandia também é o berço da sidra, do calvados e do queijo camembert, tesouros da boa mesa do país de Napoleão, Luis XVI, Maria Antonieta, Robespierre e demais protagonistas da Revolução Francesa, cuja passagem se rememora todo 14 de julho, de modo festivo com um bom champanhe, o cultuado e aplaudido espumante nacional (o de lá).

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Refestelado na espreguiçadeira da varanda do quarto ou sentado placidamente num dos bares charmosos da região do porto de Carteret, beba sem pressa alguma um gole mais de seu pommeau gelado – a beberagem regional feito de sidra e calvados. Esprema os olhos e observe de lá o vai e vem dos barcos que deslizam pelo canal, tendo o azul desta parte da costa atlântica francesa como pano de fundo.

Balneário ancorado na costa oeste de Cotentin, em frente às ilhas Jersey e Guernsey, na região de La Manche, na baixa Normandia gaulesa, Barneville – Carteret é assim: um oásis cool onde se reverencia com dose extra de charme, conforto e tranquilidade a natureza quase intocada, a boa mesa e o direito ao ócio.

Com pouco mais de 2 mil habitantes, este simpático lugarejo se desenvolveu em torno do porto natural de Barneville, entre colinas verdejantes, de onde emergem campanários e moinhos, dunas e extensas praias de areia dourada entrecortadas por falésias que se transformam em abrigos naturais de pássaros migratórios.  

O centro histórico de Barneville-Carteret: cenário de filme

Banhadas pelas águas mornas das correntes marítimas, as extensas e preservadas praias da região proporcionam inúmeras opções de esportes e lazer com vocação de mar. Mas também são ideais para quem deseja simplesmente curtir o sol, desfrutar do dolce far niente sem ter que esbarrar em outro banhista. Selvagem e imensa, a praia de Igreja Velha, por exemplo, ao Norte de Carteret, é perfeita para o surfe de areia e o speed-sail (prancha a vela) ou mesmo para caminhar sobre suas dunas ou para quem quer dar uma de voyeur ecológico.

Já no porto de Carteret é possível alugar um barco ou lancha e passear por cenários primitivos e quase intocados das ilhas de Jersey, Guernsey e Sercq. Já Cote des Isles, outro destino obrigatório, pode ser alcançado por terra a 30 minutos das legendárias praias do desembarque das tropas americanas (Omaha e Utah beach), a 1h da Casa Museu de Christian Dior e a 1h30 do Monte Saint Michel, ícone normando localizado numa pequena ilha rochosa do território de La Manche.

Na terra do camembert e dos celestiais brandies de maçã

Butique de álcoois: produção secular de sidras de maçã e calvados

Além de cenários litorâneos de tirar o fôlego, atrações à mesa é que não faltam a esta bela região francesa. Quem vai a Barneville-Carteret não tem o direito de partir sem saborear seus preciosos pescados ou provar o verdadeiro camembert, a sidra e o calvados, trio emblemático da gastronomia local. O queijo mais popular da França não existiria se obviamente a cidadezinha normanda de Camembert não o criasse no final do século XVIII.

Perpetrado em 1791 por uma fazendeira chamada Marie Harel, reza a lenda que o queijo teria sido batizado quando um dos filhos da matriarca presenteou ninguém menos que Napoleão III com um pedaço da iguaria inventada por ela. O imperador gostou tanto da exclusividade que a partir daquele momento passou não só a devorá-la mas a divulgá-la mundo afora.  Em toda a França até hoje só o camembert de Normandie possui uma AOC (Appelation d’Origine Contrôlée) ou, em bom português, Apelação de Origem Controlada.

Sua majestade, o camembert: reverência a um dos maiores ícones gauleses

Além do queijo hoje de fama planetária, a maçã na Normandia também origina diversas bebidas e pitéus culinários. Caso da sidra, do calvados (o emblemático brandy de maçã sorvido como digestivo e cuja pronúncia é “calvadôs”, com acento oxítono) e do pommeau, espécie de espumante regional feito a partir do mosto de sidra e calvados – produtos locais certificados com AOCs e pares perfeitos à mesa do camembert feito com requintes de produção nesta parte da França.

Com dez milhões de macieiras cultivadas em toda a Normandia, a maçã está presente em inúmeros pratos regionais – compotas, tortas, bolos, sucos, doces – e por todo lugar. Em época de colheita, elas são oferecidas também nos restaurantes e hotéis de Barneville, acompanhando os pratos principais e fechando com chave de ouro as refeições sob a forma das mais diferentes sobremesas. Basta colocar uma maçã no meio de qualquer receita, para ela ser chamada de à la normande. Touchée!

Calvados, símbolo nacional francês
Envelhecido em carvalho, o calvados normando é o melhor da galáxia

De origem muito antiga, o calvados é um grandes símbolos nacionais da França. O destilado começou a ser produzido a partir do século XVII, época em que era apreciado no café da manhã. Inicialmente sua graduação alcoólica era altíssima, cerca de absurdos 65% e até 70%. Mais modernamente, com a legislação de 1940, passou a ostentar graduação alcoólica de 40%, em que é encontrada atualmente, ainda bastante elevada, tão vertiginosa quanto os paredões da costa normanda.

Obtido a partir da sidra – uma bebida leve e ligeira feita também de maçãs e perlage cremoso – o calvados é produzido na região da Normandia logo após a colheita das maçãs, em que há a formação do mosto da fruta, permanecendo em maturação por até seis semanas. Somente duas áreas de produção controlada na região – a AOC Calvados e AOC Calvados Pays d’Auge – são autorizadas a elaborar o destilado.

Após passar pelo processo de fermentação natural, a sidra é armazenada em barris de carvalho e por lá fica até atingir um período de seis meses a um ano. Concluído o seu processo de elaboração, a bebida passa por destilação sendo maturada em barricas de carvalho por no mínimo dois anos. A degustação da bebida pode variar de acordo com a região ou país. Na França, onde é cultuada, o calvados é apreciado como digestivo, tal qual o brandy e o conhaque, após o término das refeições.  

Queijos, pescados, cordeiro: a tentadora mesa normanda

Laticínios e derivados como o caramelo d’Isigny, um dos doces normandos mais conhecidos, além dos queijos Pont l’Evêque, Livarot e Neufchâtel (todos AOC) também são produtos que valem ser saboreados pelo turista gourmand. No cardápio regional também são célebres as Tripas à Caen, o chouriço com purê de maçã, o escalope com creme de mostarda e o Pato Dieppoise.

Sem contar a excepcional carne de cordeiro normanda, cuja maciez é creditada aos pastos constantemente banhados pelas águas salgadas do mar. Com pescados ultrafrescos fisgados em seu cenográfico litoral, os pratos de frutos do mar também são incríveis: a clássica Marmite Dieppoise (uma sopa de diferentes peixes locais ao vinho branco, mexilhões e vieiras, que na França se chamam coquilles St. Jacques) é simplesmente imperdível.

Explica-se: toda a região é responsável por 50 a 75% da produção nacional de vieiras e coquilles. Tamanha quantidade e a expertise na pesca desses moluscos levam à excelência. Pela alta qualidade dos frutos do mar provenientes desta parte da costa francesa, a Normandia é a única do país a receber, já há duas décadas em 2002, o Label Rouge – o selo francês que atesta a procedência de origem e a o padrão altíssimo dos pescados locais.

Marmite Dieppoise: a típica e irresistível sopa de pescados ao vinho branco
Porto de Carteret: paleta de cores e sabores à beira mar (Fotos: Arquivo)

MARCO MERGUIZZO 
é jornalista profissional
especializado em gastronomia,
vinhos, viagens e outras
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