Tereza tão triste

CARLOS ARAÚJO (Blog Outro Olhar) – Deram-me o nome de Tereza, talvez por eu ser “quase” humana. E eu sou uma câmera no alto de um poste. Meu ponto de filmagem parte do centro da rotatória de um cruzamento de duas avenidas numa grande metrópole. Meu ângulo de visão tem alcance de quinhentos metros nos quatro corredores de ruas que se cruzam e se estendem em cada direção.
Como tudo na natureza tem uma função, meu papel é registrar as imagens. Utilizam os registros para aplicar multas de trânsito, investigar crimes, monitorar comportamentos. O que muitos não sabem é que eu também capto os ruídos, as vozes, as conversas de todo tipo e linguagem. E nem todos notam a minha presença.
Há os que são conservadores nos gestos, nas falas, nos pensamentos. Sabem que eu também consigo identificar o que pensam e o que tramam. E há também os que se sentem livres para serem quem são e cometem todo tipo de infrações. Transam na rua, falam mal da vida dos outros, pensam em explodir pontes, sonham com desejos impossíveis, assaltam, matam, morrem.
Sei que os infratores são o sentido de ser quem sou, são a razão da minha existência. Se todos os seres humanos fossem corretos e praticassem o bem, eu não teria função. Minha existência se justifica como sinal de alerta no limite entre o bem e o mal, entre o amor e o ódio, entre a compaixão e a crueldade.
E não sou uma câmera qualquer. Instalaram em mim um chip que me habilita a decodificar, interpretar, traduzir as emoções humanas. Dotaram os meus mecanismos de possibilidades quase humanas. Digo “quase” porque não tenho as limitações físicas dos seres humanos. Necessidades de alimentação, sono, banho e outras coisas semelhantes, nada disso é problema. Mas dependo de energia elétrica para estar sempre ativa e em boas condições de funcionamento.
Os flagrantes que capturo são transmitidos para uma central de controle. Nesse espaço, técnicos acompanham as transmissões, avaliam a importância de cada imagem ou registro de vozes, selecionam o que interessa e descartam o que é inútil. O material armazenado pode servir de base para múltiplas finalidades, desde a composição de um processo judicial ao subsídio para alguém tomar decisões de melhoria do trânsito. O que eu registro tem poder de prova. Por tudo isso, sou um equipamento indispensável na sociedade moderna.
Ontem, uma patrulha de militares se posicionou na rotatória, bem no meu foco de filmagem. Procuravam bandidos que tinham assaltado um banco e fugiram num carro prata.
Alta noite, quando o cruzamento fica quase deserto, um carro prata parou no semáforo. Os militares acharam que era o veículo dos bandidos e iniciaram a fuzilaria. Dispararam oitenta tiros. Um morador de rua correu em direção ao carro na tentativa de ajudar a socorrer as vítimas. Confundido com os ladrões, também foi abatido.
No interior do carro crivado de balas havia uma família que voltava de um chá-de-bebê na casa de amigos. Eram pai, mãe, filha, avô. O pai morreu na hora. O avô ficou ferido e sobreviveu. A mãe e a filha, paralisadas de terror, não sofreram ferimentos.
E eu registrei o massacre como num filme trágico. Ninguém pode negar que a crueldade é a marca deste mundo.

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