Pretty Woman: ‘Uma linda mulher’ faz 30 anos

FREDERICO MORIARTY- Filmes comerciais são sempre execrados e achincalhados. “Uma Linda Mulher” era machista (hoje seria tachado de sexista) e inverossímel. Como acreditar no amor entre um lindo bilionário, frio e calculista, e uma prostituta de rua e do baixo meretrício, com suas falas grosseiras e roupas obscenas. Trata-se da história banal do ‘príncipe encantado’ com todos seus estereótipos. Piegas demais. Previsível. E o diretor Garry Marshall não era uma estrela de Hollywood (nem depois do sucesso mundial do filme).

O primeiro encontro

Deixemos nossas garras agressivas de lado e todo nosso ódio contra o amor romântico e voltemos a assistir Pretty Woman 30 anos após. Continua perfeito no que se propunha: uma história romântica simples.

Sim, como não se apaixonar por uma prostituta como Julia Roberts em seus 21 anos?E daria pra existir um príncipe encantado melhor do que Richard Gere, então com 40 anos?Muita perfeição para ser factível. E por isso é cinema. Imagens e sonhos em movimento. Quem se preocupa com a pobreza das imagens e dos sentidos, em geral, é sua filha bastarda, a televisão.

Interessante notar que a personagem mais forte e que produz as maiores transformações nos protagonistas e antagonistas: é a prostituta Vivian ( Julia Roberts). Ela faz de Edward ( Richard Gere) um homem e empresário com escrúpulos. Não mais a criança mimada de família milionária e o investidor especializado em destroçar empresas em crise e utilizar o capital financeiro para por abaixo empregos e fábricas. Edward lembra muito o personagem interpretado por Michael Douglas em Wall Street. São dois predadores. Não podemos esquecer que o filme acontece no auge da geração Yuppie do fim dos anos 80. Época do neoliberalismo em sua face norte-americana, a Reaganomics. Nome dado em homenagem ao presidente, ex-canastrão do cinema, Ronald Reagan.

O visual que virou moda

A história é uma crítica mordaz e sutil de Marshall. Vivian é a única com escrúpulos, ao contrário de Edward e de seu advogado (um excelente George Constanza/ Jason Alexander antes de Seinfeld), dos investidores da Bolsa, das damas da nobreza e das senhoras e “colaboradoras ” das caríssimas magazines de Beverly Hills.

Vivian luta e trabalha e tem regras sérias a seguir, ao contrário do mundo real que a cerca. A mulher que vende o próprio corpo para sobreviver, àquela que exerce a profissão mais antiga e mais rechaçada da história é a única que age de forma ética e sincera. Ela aprende rápido e como toda boa narrativa do mito da heroína, tem um mentor, um velho sábio. Barnard Thompson (Hector Elizondo), é o concierge do Hotel. Se encanta por aquele pobre menina rica. Orienta Vivian profissional e sentimentalmente.

A transformação

O filme tem claras influências: Vivian é uma versão moderna de My Fair Lady e sua história da mendiga que virará dama da alta sociedade. As cenas do quarto de hotel lembram Lolita ( de Stanley Kubrick, claro). E a cena final, remete a James Stewart e Kim Novak no clássico de Hitchcock Um Corpo que Cai. Se nada fosse bom, ainda assim o filme se sobressairia pela trilha sonora fantástica: vai da música clássica-operística de “La Traviatta”, passando por Roy Orbison e sua “Pretty Woman”, caminha por Roxette e Natalie Cole e fecha com o genial Prince e “Kiss”, na sexy e contagiante cena da banheira.


Como em toda trajetória da heroína, são duas as quedas. A primeira queda foi a da integridade de Vivian, maculada pelo desprezo de Edward ao tratá-la após a conquista financeira como uma mera prostituta. Vivian se sente usada como nunca fora na profissão. A segunda vem com a agressão física e tentativa de estupro pelo advogado de Edward. Aliás, é nesse conflito que Edward percebe que ama Vivian. Tudo muito bem amarrado e real. Vivian é a mulher que admiramos: independente, decidida, romântica, batalhadora, sensível, ética e honesta. Ser uma linda mulher é só um detalhe.

É curiosa a cena em que ela vai as lojas ‘chiques’ de Beverly Hills, vemos marcas famosas que sequer existiam no Brasil de 1990 como Gucci, Louis Vuitton e Chanel e que hoje são encontradas em outlets de beira de estrada. O país mudou e muito. O neoliberalismo pousou por aqui. Veio o axé e Carla Perez e depois a geração Casas Bahia. Viramos uma sociedade de consumo.

Só um idiota ou uma pessoa de má vontade emocional é capaz de imaginar que o sonho do príncipe encantado de Vivian ter de vir num cavalo branco e espada à mão não é conotativo. E vá explicar pra uma mulher que Richard Gere em pé numa limusine branca conversível, ramalhate de flores vermelhas na mão, abrindo os braços e declarando todo seu amor na escada externa de um prédio ( no filme ele tem acrofobia como James Stewart em Um corpo que cai) e sorrindo maravilhosamente não é um sonho de consumo?

LEIA DO MESMO FREDERICO MORIARTY

A história e o sofrimento de Nadia Comaneci

https://terceiramargem.org/2020/03/08/nadia-comaneci-uma-mulher-como-quase-todas-que-foi-do-ceu-ao-inferno-no-mundo-dos-homens/

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: