Love Story. A mais triste das histórias de amor do cinema faz 50 anos

FREDERICO MORIARTY – Erich Segal era um atleta regular. Em 1964 teve seu melhor resultado na Maratona de Boston. Terminou em 64° lugar com o tempo de 2h56′. Tornou-se professor de grego e latim clássico na Universidade de Harvard. Seu doutorado foi sobre Plauto. Pra melhorar a renda escrevia roteiros e tentava vendê-los para Hollywood. Veio 1969 e ele emplacou o roteiro de Love Story. O filme estreiou no ano seguinte e arrecadou centenas de milhões de dólares ( foi a terceira maior bilheteria da história até o início dos anos 80). A pedidos do estúdio, escreveu um livro baseado no roteiro para lançar no.dia dos namorados de 1971. Vendeu 35 milhões de cópias e, inconscientemente, criou um gênero de cinema: o de “histórias de doença “. Em 76 foi convidado para comentar a maratona nas Olimpíadas. Irascível o ex-atleta, ao perceber que um intruso fraudara o final da prova, começou a gritar e falar palavrões ao vivo. Nunca mais o convidaram. A Universidade de Yale o rejeitou como professor logo depois: era um romancista barato apenas. Mentira: acadêmico, ele escreveu vários livros importantes sobre teatro grego. No mundo literário era desprezado por ser apenas um vendedor de livros e não um escritor. Nos anos 90 virou professor da Universidade de Munique e publicou um novo romance, este premiado por críticos literários italianos e alemães. Segal sempre dizia que Love Story foi sua mina de ouro e sua tragédia. O desrespeito era tão grande que numa entrevista para a TV, o jornalista saiu -se com ” Segal foi melhor maratonista do que é escritor…”. Quando vc não agrada aos juízes de tudo, esqueça.

Erich Segal, autor incompreendido

E afinal, o que havia de tão ruim em Love Story? Talvez por ser apenas uma história de amor como qualquer outra. Tudo de uma narrativa de amor está presente. Talvez a irritação seja em virtude do final infeliz. Romances são problemáticos para os críticos, porque ao final tudo acaba bem. Love Story acaba de forma trágica. Um Romeu e Julieta moderno. E o autor não pode nem ser acusado de manipulação de sentimentos, pois o filme começa com a voz “em off” de Ryan O’Neal ( Oliver Barret IV) lamentando que ninguém deveria morrer aos 25 anos. Ao fundo a música tema. Na paisagem a neve e as árvores ressecadas e escuras.

Na história, Oliver é um herdeiro multimilionário na quarta geração de uma família que tem seu nome estampado em vários prédios de Harvard. Estudante razoável, sua preocupação são os esportes e a diversão com os colegas de quarto ( um deles é Tommy Lee Jones que faz uma ponta em seu primeiro filme). Quer fazer sociologia, o pai o quer no curso de Direito. O dinheiro sobrando lhe abre todas as portas. Jennifer Cavalleri ( Ali Mac Graw), é uma mulher de 20 anos e inteligentíssima. De família pobre, conseguiu entrar em Harvard com a bolsa por excelência. Conhece filosofia, artes e é uma excelente pianista clássica. É espirituosa, sardônica e capaz de ironias sutis. O casal imprevisível: um bobão, rico e vazio e uma intelectual das classes baixas e sentimentos nobres. Uma História que influenciou Deus e o mundo quando se fala de romance, ou você não achou parecido com Eduardo e Mônica do Legião Urbana e 1 milhão de comédias românticas da sessão da tarde?

O diretor Artur Hiller entre Oliver e Jennifer

Os diálogos do casal demonstram a inferioridade masculina o tempo todo. Oliver só conquista as coisas pela sua origem. Mesmo assim Jennifer o ama:

– Eu não sou um bom aluno, estou aqui porque minha família sempre fez grandes doações para a instituição e mesmo assim você me ama. Pergunta um Oliver apaixonado.

– Não me apaixonei pelo seu intelecto e sim pelo seu corpo… diz Jennifer e Oliver sorri como um passarinho.

As belas cenas românticas. Uma quase Paris

Mesmo após o casamento e o deserdamento de Oliver. Ele se dedica e estuda feito louco e termina o curso de direito como 3° melhor aluno, ela tripudia e diz que quer conhecer os outros dois rapazes melhor do que ele. Jennifer ama Oliver mesmo com suas limitações e esse é o sentido do amor.

Oliver foge ao estereótipo de Hollywood: jovem lindo, bilionário, inteligente e vencedor encontra mulher frágil e romântica. A fraqueza nessa história diferente está nos homens. Está em Oliver, em seu pai Oliver Barret III ( Ray Milland) e no católico de bom coração Phil Cavalleri ( John Marley como o pai de Jennifer). Todos incapazes em algo. Jennifer é poderosa. Decide as coisas e não se arrepende. Ela escolheu o amor. No quarto de hospital ela implora para que Oliver não se sinta culpado por ela ter desistido de ir estudar em Paris e ter casado com ele. Eles viveram juntos e felizes por 5 anos. Essa foi a escolha de quem partiu tão cedo. E quem pode dizer ao outro qual o caminho da felicidade?

O grande aprendizado de Oliver foi amar. Phil sabia amar a filha como ninguém e aceitava os caminhos dela sem julgar. ” Você não vai casar na igreja? Ah, ele é protestante. Não é isso? Você não acredita em Deus? Tudo bem, você é minha filha. Quero a tua felicidade”. Para ele o juiz de paz é um padre disfarçado e pronto, a filha foi abençoada. O pai de Oliver é frio e calculista. Falava com o filho por memorandos. O diretor de Harvard é um pérfido ávido por dinheiro. Jennifer, ao contrário, passa a história toda educando Oliver a amar as pessoas como elas são. A frase mais famosa do filme aparece duas vezes: na única vez que o casal briga e quando o pai de Oliver vai ao hospital logo depois de Jennifer morrer.

” Amar é nunca ter de pedir perdão “

No cartaz do filme norte-americano a frase marcante

Algo quase impossível em qualquer história de amor. Os conflitos e desentendimentos são comuns. A fase do Castelo dourado passa logo. Só persiste o casal que aceita os pés de barro do outro. Talvez por isso Love Story irrite tanto. É um romance com começo, meio e fim.

Tão forte e marcante quanto a história de Jennifer e Oliver é a música tema de Francis Lai. Dez entre dez pessoas que assistiram o filme, se pegam cantarolando a música em momentos da vida. Impressiona o fato de que Qasem Sulaimani, o general iraniano assassinado pelos Estados Unidos, líder das forças especiais do país, tenha deixado ordens para que em seu cortejo fúnebre, tocasse a música. Love Story é atemporal e universal.

Love Story nos faz cair em lágrimas, mesmo sabendo do final da história há 50 anos. Em verdade, porque somos todos dotados de um espírito romântico e cristão. A martirização é parte de nossa essência. Em suma porque queremos mudar o mundo de peito aberto e coração sangrando de amor. Como um Cristo redivivo.

(Em tempo: a partir de 30 de julho a rede Telecine volta a colocar o filme no catálogo a pedido deste blogueiro).

O casal do filme. 1970 e 2015

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