Os povos indígenas do Brasil seguem resistindo contra madeireiros, garimpeiros, fazendeiros e a covid-19, enquanto aguardam ajuda da pátria mãe gentil

Sandra Nascimento

Os índios brasileiros enfrentam atualmente, além de todos os retrocessos da política ambiental que está sendo imposta ao país e ao mundo, as consequências da covid-19, doença que nos últimos quatro meses dizimou centenas de nativos. Em 27 de julho, estavam confirmados 18.854 casos e 581 mortes. Em 30 de julho, já eram 20.809 casos e 599 mortes.   

Um estudo, porém, feito pela associação Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), demonstra que o número de mortes pelo novo coronavírus pode ser até quatro vezes maior do que aponta a Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena do Ministério da Saúde). No seu panorama geral, 145 povos já foram afetados.

Arte pertencente ao arquivo do Comitê Nacional de Vida e Memória Indígena

Conforme dados oficiais do Censo IBGE de 2010 (o mais recente do país), existem no Brasil 305 povos indígenas. Eles somam 896.917 indivíduos, dos quais 572.083 vivem em áreas rurais e 324.834 em cidades. Representam, dessa forma, aproximadamente 0,47 da população. Na sua maioria se encontram na região da Amazônia.

Darcy Ribeiro, antropólogo, escritor e político brasileiro, no seu livro Culturas e Línguas indígenas do Brasil (1957), estimou em 1 milhão a população indígena na época da chegada de Cabral. Mas corrigiu o cálculo quando, em 1995, na obra O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil, elevou o número desses habitantes para 5 milhões.

Falar dos povos nativos remete sempre à triste história entre colonizadores e colonizados, marcada pela alteridade e pelos perigos de extinção. Exemplo disso é a recente negação desse Brasil indígena pela política nacional. Mas como esperar mais de um país que relega ao descaso não apenas a sua história, mas também a saúde e a educação de seu povo? Uma saída seria a sociedade organizada se mobilizar num trabalho incessante junto às comunidades indígenas, para ajudá-las em todas as suas necessidades.

A memória de pouco mais de cinco séculos de dominação é marcada por histórias de extermínios, danos, invasões, escravidão, dizimação por epidemias, massacre cultural e a consequente perda da multiplicidade de línguas e diversidade genética desses povos.

“Negociantes contando índios” (Spix e Martius)

Mobilizações

Durante a epidemia de covid-19, não faltaram mobilizações que buscam auxiliar os índios. Uma das mais expressivas foi a campanha promovida pelo fotógrafo Sebastião Salgado e a designer gráfica Lélia Wanick, que apresentaram no começo de maio de 2020 um manifesto em defesa das populações indígenas ameaçadas pela doença. Essa iniciativa recebeu o apoio de artistas como Chico Buarque, Caetano Veloso, Paul MacCartney, Madonna, Sting, o escritor peruano Mario Vargas Llosa e os cineastas Pedro Almodóvar e Fernando Meireles.

Entre as medidas, um vídeo com o tema “Ajude-nos a proteger os índios da Amazônia da covid-19” foi publicado no Youtube, apelando aos três poderes por uma força-tarefa que tire garimpeiros, madeireiros e fazendeiros ilegais das terras indígenas. O alerta maior, entretanto, está no texto do abaixo-assinado que observa o risco de um “genocídio geral” nesse momento, o que causaria o desaparecimento dos povos indígenas, sendo isto uma “tragédia colossal” para a humanidade, mas principalmente para os brasileiros. 

Fotos de Sebastião Salgado para campanha em defesa dos índios (reprodução)

Terra das Palmeiras

Brasileiro, em tupi-guarani, significa “cortador de pau-Brasil”, segundo informa o historiador indígena Tukumbó Dyeguaká Robson Miguel no seu livro intitulado “Indios – Uma história contada pelos verdadeiros donos do Brasil” (Galeria das Letras, 2015). Ele explica que o local encontrado pela frota de Cabral era chamado “Pindorama”, que traduz Terra das Palmeiras. “Pindó” é o nome de uma palmeira e “ramá” quer dizer futuro.

Para os nativos, além de Terra das Palmeiras, espiritualmente Pindorama simboliza também Terra do Futuro, Terra Prometida e Terra Sem Mal. Mas, sem que os nativos quisessem, a terra que um dia seria a nação inacabada de muitos foi chamada Brasil.

Para o autor, o nome da terra nunca deveria ter sido mudado: “Continuando a ser chamada de Pindorama, hoje nós seríamos os ‘pindoramenses’”. E, nesse sentido, talvez pudéssemos entender melhor o significado do que é ser um homem do futuro ou um homem sem mal; e não apenas cortadores de árvores.

Muito utilizada na construção de ocas, canoas e artefatos, pindó ou jerivá, ou coqueiro pindó, é uma palmeira tropical (Syagrus romanzoffiana), considerada sagrada. Foto de José Reynaldo da Fonseca, Wikimedia Commons

Conta Tukumbó Dyeguaká que entre os grupos indígenas que habitavam Pindorama na chegada dos portugueses estavam os potiguaras, os tremembés, os tabajaras, os caetés, os tupiniquins, os tupinambás, os aimorés, os goitacás, os tamoios, os carijós (guaranis) e os temiminós.      

Hoje, no Brasil, ainda que muitos nativos sejam vítimas indefesas de uma tragédia que assola o planeta, a população indígena, com um inegável conhecimento de fauna e flora, segue resistindo a duras provas, enquanto desempenha seu importante papel em defesa da biodiversidade, revelando mais uma vez uma demonstração de civilidade para todo o mundo.

No vídeo, o hino nacional brasileiro cantado em guarani

Referências

Socioambiental.org, Emergência indígena, survivalbrasil.org/povos/indios-brasileiros, CNN Brasil, Notícias Uol, saude.gov, ibge.gov.br/; Índios – Uma história contada pelos verdadeiros donos do Brasil, Cacique Tukumbó Dyeguaká Robson Miguel; Culturas e Línguas indígenas do Brasil e O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil, Darcy Ribeiro; Linguas Indígenas Brasilerias e a Esperança de um Futuro, Yonne Leite (UFRJ, Museu Nacional e UGF)

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: