Ele sabe o que diz

Rubens Nogueira

O jornal O Globo* publicou entrevista com o artista brasileiro Gilberto Gil, de profissão cantor e compositor baiano. Esse ilustre brasileiro, entre muitas coisas, foi ministro da Cultura nos dois mandatos do presidente Luiz Ignácio Lula da Silva.

O nosso país já viu passar pelo cargo vários homens públicos, entre eles alguns baianos tão notáveis como foram Ruy Barboza e Octavio Mangabeira, que fazem parte da história política brasileira.

Gilberto Gil, profissão cantor e compositor de música popular, ficou bem na foto com seus antecessores. Digo mais: tudo somado, ele fez mais do que seus antecessores aqui citados.

Apoiado pelo presidente popular, Gilberto Gil perambulou pelo mundo para mostrar a riqueza cultural do nosso país. Não houve lugar importante no planeta e também nos menos reconhecidos que não fosse visitado pelo ministro Gil e sua troupe de representantes da Cultura brasileira nos mais variados níveis.

Não preciso dizer mais nem Gil precisa do meu testemunho, mas não podia deixar de escrever sobre esse brasileiro porque acho que o Brasil está precisando de novos ministros como ele.

Sua obra é perene e imprescindível. A avenida Rio Branco é bom lugar para se ver, em resumo, o que o ministro fez. Ali estão a Biblioteca Nacional, o Teatro Municipal e a Escola de Belas Artes, três mostras de sua obra que aconteceu em todo o Brasil e no mundo.


“Recomeçar significa deixar para trás muito do que temos sido”

Gilberto Gil está isolado há sete semanas em Araras, na Serra Fluminense. Como a casa é grande, ele e Flora, sua companheira há quase 40 anos, têm recebido os filhos, dividindo as famílias em grupos. Flor, filha de BelaGil, esteve lá e protagonizou um momento fofo nesta quarentena: um dueto com avô cantando “Volare”. Dedicada a uma Itália assolada pelo coronavírus, a performance emocionou nas redes sociais.

Pela internet, ele também lança amanhã, junto com o BaianaSystem, o disco “Gil Baiana ao vivo em Salvador” (veja a imagem da capa à direita). Registro do show que marcou um encontro novembro de 2019, o álbum mistura um repertório de clássicos de Gil (“Extra” e “Emoriô”) e do Baiana (“Água” e “Dia da Caça”).

– O BaianaSystem é a Bahia viva, né? É uma honra estar associado a um grupo contemporâneo dessa qualidade – diz o músico.

Nesta conversa por e-mail, ele, que sempre refletiu sobre os mistérios que hão de pintar por aí em sua obra, conta o que anda passando pela sua cabeça nesses tempos estranhos.

Como tem sido o seu dia a dia?
Acompanho noticiários, atualizo a correspondência, faço ginástica, tomo sol, leio, toco violão, gravo músicas e entrevistas “live”, faço as três refeições, tomo meus remédios e durmo, de sete a oito horas. Adoro os papos com a família sobre tudo que nos aflige ou nos conforta.

Viveu algum momento especial? O dueto com Flor em “Volare”…
Sim, foi especial cantar e gravar “Volare” com a Flor, que esteve em quarentena conosco por cinco semanas. Também adorei cortar os cabelos do meu neto Dom, que queria um corte à la Ronaldo na Copa de 2002. Ele gostou.

Preta Gil, que contraiu Covid-19, contou que sua voz dizendo “vai ficar tudo bem” a acalmava. Tinha essa certeza? Não teve medo de a doença se agravar?
A medicina, que considerava a doença menos severa para os mais jovens, me dava confiança quanto à capacidade de ela se recuperar sem maiores problemas. Foi o que aconteceu. Agora ela mantém o isolamento e se fortalece para voltar ao trabalho, quando for possível.

O que está lendo e ouvindo?
Estou lendo “Armas, germes e aço”, de Jared Diamond, e “Biocentrism”, de Robert Lanza com Bob Berman, que minha filha Bela me trouxe. Acesso sites de ciência para ler sobre a pandemia. Não tenho escutado nada em especial.

Em “Lunik 9” você cantou: “Poetas, seresteiros, namorados, correi/ é chegada a hora de escrever e cantar/ talvez as derradeiras noites de luar/ momento histórico”, sobre a chegada do homem à Lua. Vivemos outro momento histórico. Está inspirado?
Sem dúvida, esse momento vai ficar na História como marcante e transformador. É grande o número de artigos de cientistas e representantes de todos os campos do conhecimento, dando conta de tantas novas interrogações suscitadas pelo coronavírus. As manifestações artísticas virão em seguida. Ainda não senti impulso em direção a compor e traduzir em canções o suspense do momento. Tenho cantado “Por um triz” (“sou feliz por um triz/ por um triz sou feliz/ mal escapo à fome/mal escapo aos tiros/ mal escapo aos homens/ mal escapo ao vírus/ passam raspando/ tirando até meu verniz”), de que me lembrei quando o vírus apareceu. É um rock pesado que gravei com meu filho Pedro à bateria no disco “Raça humana”.

É grande o número de artigos de cientistas e representantes de todos os campos do conhecimento, dando conta de tantas novas interrogações suscitadas pelo coronavírus. As manifestações artísticas virão em seguida.

Em sua obra, você sempre refletiu sobre os mistérios da vida e da morte. Como percebe o momento e como tem se sentido diante dele?
A princípio, muito comovido. Em seguida, interessado em acompanhar a marcha devastadora da pandemia e em buscar a proteção pessoal e da família. Agora que a ciência e a medicina intensificam sua corrida atrás do vírus, vou tentando acompanhar as buscas por vacinas e remédios, a adaptação das atividades produtivas às novas exigências, as transformações nas formas de convívio e as novas disposições do amor e do afeto. Em meio a tudo isso, é claro, um pouco de medo e pesar. Temeroso, um pouco, com a intensificação e sofisticação das ferramentas de vigilância e controle que podem estimular um certo fascismo sistêmico que ronda boa parte do mundo.

Vivemos dias que parecem refletir suas canções. Como em “Tempo rei”, acha que a pandemia “transformará as velhas formas do viver”? Estamos mais para o recomeço ou para o fim do mundo?
Um pouco. Na medida do inevitável. Vários impulsos nos usos das tecnologias, no desenvolvimento da saúde e da educação, do urbanismo, da ecologia, na economia política, no papel do estado. Recomeçar significa deixar para trás muito do que temos sido até aqui. Ao assumirmos um novo mundo, estaremos nos encaminhando, de novo, para um novo fim. E assim por diante, ad infinitum.

A solidariedade e compaixão de hoje refletirão no amanhã?
É razoável considerar que estamos sempre melhorando em algum aspecto e piorando num outro. Tanto o positivo quanto o negativo vão deixando os seus resíduos. Simultaneamente.

Como faz para falar com Deus?
Tenho percebido que todas as representações do mundo, através das palavras e das linguagens, dos números e das medidas, das ideias e dos conceitos, dos sentidos e do silêncio, é o tudo e o nada que se dá no campo da consciência. Tudo que se dá no plano da vida, que é uma reiteração permanente dessa consciência. Não tenho como escapar da consciência e é nela que se dá o tudo/nada que poderíamos chamar de Deus. Ao viver, portanto, vivo Deus. Falar com Deus é estar vivo. Falo com ele o tempo todo através das várias formas de diálogo com o mundo via consciência.

O melhor lugar do mundo é aqui e agora? Precisamos parar de projetar o futuro e aprender a viver o presente?
Lugar é sempre aqui, tempo é sempre agora. Atenção plena é plena consciência. E até mesmo a projeção se passa nesse aqui/agora. Dentro dessa consciência.

Você tem medo de morrer?
Tenho. Nas minhas orações, a única coisa que peço à vida é a boa morte. De resto, a vida tem me dado o que preciso para tocá-la adiante, não me esquecendo da primeira sentença das escrituras védicas: “Tudo é sofrimento”.

* Enrevista publicada em 29-04-20

Fotos

Gérard Giaume – divulgação

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