A romantização do trabalho infantil

LUCY ROCHA – Nas redes sociais circula um vídeo de uma criança de cerca de 8 a 10 anos de idade comprando um relógio, supostamente para presentear seu pai. Assistindo à dinâmica do vídeo, fica claro que a criança, que carregava nas costas uma caixa de engraxate, adentrou a loja e, ao entender o que a ela queria, o comerciante decidiu orientá-la a voltar para fora e começar do zero para que ele pudesse filmar a empreitada. Depois de passar por todo o processo de “venda”, o “nobre” comerciante devolve o dinheiro e dá de presente o relógio ao menino trabalhador, porque “ele merece”. Tudo registrado, para arrancar lágrimas do público que se regozija diante de demonstrações públicas de “caridade”.

É possível afirmar, sem sombra de dúvidas, que os adultos presentes quiseram surfar na situação e se autopromover, pois não é crível que alguém estivesse ali de prontidão para filmar uma situação “inesperada”.

A situação de miserabilidade “caridosamente” assistida por “cidadãos de bem”, longe de denotar empatia, mostra o lado sombrio do ser humano que, ao filmar e jogar nas redes suas “boas ações”, tenta aplacar seu estranho sentimento de inadequação e culpa, acreditando cegamente ser uma pessoa boa por “saber reconhecer um pobre que tem mérito”.  

Num mundo ideal, a exploração não autorizada da imagem de uma criança seria investigada e punida com rigor pelo Ministério Público, o que espero aconteça, mas na contramão disso, são nossas autoridades as primeiras a promover o uso repugnante das dificuldades alheias, sem, no entanto, propor nada que mude essa realidade.

Para quem não sabe, o vídeo se tornou viral graças ao compartilhamento feito pelo deputado Eduardo Bolsonaro. Em sua conta no Instagram, expôs a imagem da criança, utilizando a seguinte legenda:

Mais grave do que a exposição do menor, é ler a romantização do trabalho infantil nos comentários da postagem.  O número de pessoas que considera espetacular uma criança trabalhando em tenra idade, invertendo papéis com os pais, é realmente assustador e nos mostra quanto nossa sociedade é irresponsável, perversa e hipócrita.

Sim, porque três são os grupos que acham positiva a situação:

  1. o grupo da elite (ou que acredita ser elite) que mantém seus filhos protegidos em casa e frequentando colégios particulares, mas crê que a criança pobre só terá sucesso na vida através do sacrifício. Isso os ajuda a corroborar suas teses meritocráticas.
  2.  o grupo de pessoas mais humildes que, açoitados por uma realidade que foi dura para si mesmas, acreditam que a criança só será alguém se passar pelas mesmas dores, como quem espanca porque foi espancado.
  3. o grupo dos sem noção, que dispensa maiores explicações.

Certamente existem pessoas que, sem pensar em profundidade, caíram na tentação de aplaudir. Seja como for, é preciso entender: trabalho infantil não merece aplauso, merece CRÍTICA e CORREÇÃO. Quando esse aplauso vem de um dos parlamentares mais bem votados da história, deve causar PREOCUPAÇÃO, pois declara escrachadamente quais são seus projetos para a infância e adolescência.

Não há qualquer beleza em ver uma criança carregando o fardo do trabalho duro numa idade em que deveria estar estudando e brincando. Não há mérito nisso. Crianças não saem por aí engraxando sapatos porque acreditam que assim serão adultos melhores. Meninos gostam de bola, de empinar pipa, de correr gargalhando atrás de outros meninos.

E se você, que faz parte “da zelite” privilegiada do país, acha o trabalho infantil algo bonito e formador de caráter, sugiro que não perca mais nenhum minuto: tire já seus filhos protegidos do colégio particular e os acomode lá em frente a Sé. No dia do seu aniversário, ao invés da festa temática no buffet infantil, dê-lhe uma bela caixa. De engraxate, é claro. Quem sabe se tornarão adultos com consciência social minimamente melhor que a sua.

Foto: Repórter Brasil

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