Casaldáliga foi exemplo de conversão enraizada na realidade

GERALDO BONADIO – A conversão é uma das ideias centrais do cristianismo e, infelizmente, uma das menos compreendidas ou, compreendida de forma muito superficial. O “convertido” inclui, em sua vida, umas tantas condutas novas – participar de atos religiosos, contribuir financeiramente com a comunidade na qual se congrega – e deixa tudo o mais como antes.

A mudança que dele se espera, no entanto, é bem outra. Os cristãos de hoje só serão sinais visíveis do amor-caridade para seus contemporâneos se, plantados no meio da terra dos homens, traduzirem em gestos de homens modernos, o amor eterno de Jesus – ensina Michel Quoist.

Dom Pedro Casaldáliga, que o Brasil perdeu neste sábado (8/8), após prolongada enfermidade que, lá atrás, o impediu de, liberado de suas obrigações como bispo da Prelazia de São Félix do Araguaia, jogar-se no corpo a corpo missionário, foi uma lição viva de mudança interior ditada pelo estar plantado em meio à Amazônia e ao sofrimento e à marginalização dos peões, dos índios, dos pobres de todo o gênero, com uma visão especialmente sensível ao sofrimento da mulher, maior ainda que o de seus parceiros masculinos.

Três anos após iniciar ali sua atividade missionária, escreveu sua primeira carta pastoral – Uma Igreja na Amazônia em conflito com o latifúndio e a marginalização social – cuja divulgação, na mídia, a ditadura militar proibiu. É um documento cuja atualidade o passar do tempo só fez aumentar, face à coragem com que atingiu o ponto fraco do catolicismo de fachada. Vejamos um pequenino trecho:

“Aos “católicos” latifundiários que escravizam o povo de nossa região (….) pediríamos, se nos quisessem ouvir, um simples pronunciamento entre sua Fé e o seu egoísmo. “Não se pode servir a dois Senhores” (Mateus 6, 24). Não lhe adiantará “dar Cursilhos” em São Paulo ou patrocinar o “Natal do pobre” e entregar esmolas para as “Missões”, se fecham os olhos e o coração para os peões escravizados ou mortos nas suas fazendas e que os seus latifúndios deslocam num êxodo eterno ou cercam sadicamente fora da terra necessária para viver. Leiam o Evangelho, leiam a primeira carta de São João e a carta de São Tiago…”

É hora de o Brasil e seus governantes insensíveis lerem e aplicarem o ensinamento daquela pastoral.

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