Divino é meu Pai. Divino é da Guia, o Ademir, filho de Domingos



FREDERICO MORIARTY – Alfredo Metidieri foi empresário da tecelagem em Votorantim e Sorocaba. Fanático por futebol, tornou-se presidente do E.C. São Bento nas décadas de 60 e 70, auge do azulão sorocabano. Em 1976, apoiado pelos clubes do interior, virou presidente da Federação Paulista de Futebol ( FPF). No Paulistão daquele ano o Palmeiras veio à cidade num 18 de julho. Era o último ano nos campos do maior ídolo da História do clube pertencente a comunidade italiana, a Sociedade Esportiva Palmeiras.

Alfredo Metidieri. Fonte: Milton Neves


Um dia antes, meu pai deu o maior presente que uma criança pode receber: levou-me até a casa do dirigente esportivo no bairro de Santa Rosália e nas escadas de entrada – eu, devidamente uniformizado com a camisa verde -, conheci duas lendas do futebol brasileiro. Dois herois de uma fase romântica e dourada do esporte bretão que se foram. As pernas do menino de 8 anos bambearam ao falar com o goleiro Leão, titular absoluto da seleção desde 1971, e o Divino, o craque simpático e da fala mansa, Ademir da Guia.

Filho e Pai Da Guia. Jornal do Brasil. 1964

Ali me senti parte de um mundo mágico. A caneta azul riscando a camisa verde traçava um futuro de glórias e esperanças para um moleque caipira que queria ser jogador de futebol. Apenas queria, pois as pernas eram tortas de tanta ruindade. A relação com nossos ídolos é religiosa. Guardei a camisa por anos. Camisas antigas, nas quais a mãe costurava com carinho o escudo do time e o número 10 atrás, número do “negro-aço” como falava preconceituosamente a imprensa. Ademir da Guia era filho de negro com uma mestiça do Rio. O pai foi um dos maiores zagueiros de toda a História do futebol brasileiro, o zagueiro Domingos da Guia. Destacou-se no Corinthians e acabou vendo o filho ser ícone do maior adversário, o Palmeiras. Ademir tem olhos claros e cabelos loiros e a pele mais clara, ao contrário do pai que era negro. Daí o apelido grosseiro “negro-aço”.

Estádio Humberto Reale. 1978. Cruzieor do Sul


No dia seguinte subimos a rua Nogueira Padilha, no antigo bairro operário da Vila Hortência (como vinha grafado equivocadamente nos ônibus amarelo e vermelho da Vima, com o “c” e não “s”). Logo após a igreja vinha o estádio simples e apertado do Humberto Reale. Entrávamos por um corredorzão de paredes brancas. Meu pai, meu irmão Maurício e eu viramos para à esquerda e subimos os degraus da arquibancada íngreme de cimento. Do lado direito havia outra bancada. Doutro lado uma outra área, esta de madeira. O campo era estreito, mas para um menino fanático parecia ser maior do que o Maracanã. As redes das traves eram amarradas no alambrado que ficavam atrás dos gols. Alguns torcedores – estrategicamente -, ficavam ali e durante a partida, o goleiro adversário tomava uma chuva de cuspe. 
A partida começa. Entre amendoins e sorvetes gelados, eu olhava fascinado para os novos amigos, Leão e Ademir da Guia. O divino impressionava. Parecia levitar no gramado. Andava a nos enganar, pois ora estava lento no meio de campo para no instante seguinte aparecer na cara do gol. Meu pai informava que talvez fosse o último ano dele, pois já tinha 36 anos. Ademir da Guia, filho do zagueiro Domingos da Guia, bailava feito um mestre-sala no campinho do São Bento. Fez dois gols no valente goleiro Geninho do alviceleste. Palmeiras 2, São Bento 0. Era um sentimento dividido: meu coração pequetito fincara raízes na terra em que nasci -Sorocaba -, e o São Bento era o filho de Nossa Senhora da Ponte, a padroeira da cidade; outra parte dele era a paixão pelo Palmeiras, aprendida em casa com o pai e o irmão (e com os títulos em série nos anos 70).

Ademir da Guia. 1974. Gazeta Esportiva


Sai de campo extasiado. Foram 2 dias marcantes: os ídolos, o Palmeiras ao vivo pela primeira vez, a presença de meu pai e irmão. Tempos distantes. Tempos em que o maior presente para uma criança era o amor presente. Tempos em que meu pai, hoje quase aos 93 anos, me ensinou os valores da vida: pelo exemplo, pelo companheirismo, pela cumplicidade. Tempos em que este cronista tenta trazer de volta ao ser pai de duas meninas nascidas há 7 meses. Olhos em lágrimas, pelo pai que tenho o privilégio e a honra de conviver nesses 52 anos e pelo medo de não ser uma pai à altura do que ele é.

Leonardo da Vinci e Dinah, pai e mãe aos 93 anos

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