Gente que não se deixa amar

LUCY ROCHA – Quem nunca viu alguém ou se viu num estranho paradoxo: “Por que eu gosto de alguém que me maltrata, mas não vejo graça ou não consigo me abrir para alguém bacana que me trata bem?

Imagino que a Psicologia tenha um número sem fim de teorias que expliquem esse fenômeno, mas, como não sou psicóloga, intuo que uma das tantas explicações pode estar no fato que, desde pequenos, embalados por lindos contos de fadas e dinâmicas familiares, aprendemos a estabelecer ideais de amor e romance irreais.

Nos imaginamos envolvidos em intensas histórias de amor que jamais poderiam ser vividas com alguém disponível; alguém que simplesmente venha e nos entregue amor gratuitamente, sem nos fazer suar a camisa. Idealizamos um amor tão fora da realidade que, por ser irreal, não pode se materializar plenamente. São ideais criados para jamais saírem do campo da imaginação, caso contrário, perderiam seu encanto.

Talvez isso tenha sido alimentado enquanto crescíamos ouvindo histórias que nos levavam a fantasiar sobre príncipes e princesas que se esperam com sacrifício, enfrentam longas viagens, perigos, bruxas e dragões, tudo por amor. Princesas encantadoras e de bom caráter devotas ao amado e príncipes belos e valentes que chegam para resgatar a frágil e injustiçada princesinha de suas prisões reais e imaginárias, partindo em seguida para o castelo onde serão felizes para sempre.

Não há dúvidas de que dar asas à fantasia quando criança é necessário e divertido. O problema começa quando deixamos a infância para trás e, inconscientemente, passamos a buscar, na vida adulta, algo que se assemelhe ao conto, sem percebermos que essas histórias estão permeadas de trabalho e sacrifícios desnecessários que nos levam à busca de pessoas que, se existissem como as concebemos no mundo das ideias, seriam, no mínimo, estranhas ou codependentes, afinal, o que dizer de Bela, que se apaixona pelo seu algoz malvado e põe sua vida em risco para “transformá-lo num homem melhor através de seu amor”?

Diariamente os noticiários nos atropelam com desfechos trágicos na vida de tantas Belas, que tomam para si a perigosa empreitada de “mudar o outro”, abandonando-se em relacionamentos abusivos e sem qualquer contrapartida, autoflagelando-se, para quem vê de fora, de forma irracional.

Por motivos muito mais profundos do que se vê na superfície, essas pessoas estão determinadas a viverem o sonho construído na infância. Para isso, primeiramente, estabelecem as características do parceiro ideal, tais como uma certa idade, aparência, etnia, profissão, postura e tantos mais ingredientes que sua imaginação entende como características do príncipe ou princesa que habita seu mundo romântico. Depois de criada essa figura idealizada, partem em busca desse ser imaginário com uma única certeza: “É preciso lutar por amor, pois por amor tudo vale a pena”

Fato é que, resguardadas eventuais exceções, somos programados para seguir essa receita desastrosa do amor que tudo suporta já na convivência com nossos pais e irmãos, quando obedecemos para agradar, quando choramos aos sermos negligenciados, quando barganhamos por migalhas de afeto ou quando, depois de uma surra, corremos para os braços do agressor como se ali fosse o refúgio mais seguro, pois intimamente acreditamos que, ao encararmos esses esforços descomunais na luta por afeto, seremos reconhecidos e recompensados com amor.

E assim, reproduzindo nossas relações e idealizações infantis, queremos transformar gente real em gente perfeita e, porque submersos pelo temor de rejeição, abandono e de não sermos bons o suficiente para merecermos amor verdadeiro de forma gratuita, seguimos repetindo que a luta, o trabalho duro, a resignação e a subserviência são a única moeda capaz de comprá-lo.

Nesse estranho compasso, pessoas seguem criando em suas mentes pessoas com características impossíveis de se reunir em alguém, de fato, humano. Criamos figuras tão perfeitas e as colocamos num pedestal tão alto, que as perninhas curtas da criança que ainda habita nossas emoções não os alcança, por mais que pule e se esforce.

Estranhamente, parece estar exatamente nesse esforço, o sentido de tudo: “Se eu conseguir alcançar é porque me esforcei o bastante e portanto, eu mereci esse amor”. E é nessa procura incessante pelo inalcançável, que se passam os melhores anos e o bonde da vida. O bonde daquele que poderia ser um amor são e descomplicado, ainda que não tão “perfeito”.

Irremediavelmente, por nunca terem êxito em alcançar aquilo que na vida real não existe, essas pessoas se tornam gente que não se deixa amar. São pessoas que não se deixam amar por ninguém que não lhes exija sacrifício; que não lhes faça negociar a própria dignidade; que não as coloque naquela sinistra simbiose entre o sádico e o masoquista.

Gente que não se deixa amar acredita que um parceiro que vem com simplicidade, naturalidade e não lhes faz penar para receber afeto é “fofo, mas sem graça.” Aquele que deixa livre, que não sufoca, não faz malabarismos para impressionar, que discretamente está presente num momento difícil, que presenteia com pequenos gestos, acolhe seus medos, respeita seu tempo, seus valores e tudo aquilo que estima, é “uma pessoa maravilhosa, mas não dá aquela adrenalina.”

Gente que não se deixa amar são pessoas que entram e saem de relacionamentos altamente destrutivos porque não se permitem ser amadas por ninguém que não lhes traga a mímica do conto de fadas, mesmo que, em tempo recorde, esses atores protagonistas de lindos contos mostrem que, do conto de fadas, eles só têm mesmo as características da bruxa malvada.

E você, é gente que não se deixa amar?

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