As mulheres na Antiguidade Clássica

FREDERICO MORIARTY – A cidade-estado de Eraclea estava protegida das invasões persas por imensos muros. Mas naquela manhã de 475 a.C., os habitantes viram um cortejo diferente: uma bela mulher vestida de guerreira, com vestais dançando à sua volta, caminhava em direção ao oráculo das deusas. Atrás dela havia uma imensa urna, um baú dourado com a possível oferenda. Eunucos a carregavam. Seguiam o cortejo dezenas de mulheres e alguns eunucos. Quando chegaram ao portão sagrado, a guerreira levantou a espada. Um raio de sol refletiu na lâmina. Era o sinal para os centenas de soldados escondidos na entrada da cidade entrarem. Os muros estavam desguarnecidos. A cidade foi dominada com facilidade. A estrategista? Artemísia I, sátrapa de Cali. Além de rainha de uma região persa, foi uma das mais importantes almirante da história antiga.

Artemísia I

Artemísia venceu várias batalhas com suas estratégias. Em 480 a.C. derrotou os gregos duas vezes. Convocada por Xerxes ela defendeu que os persas não deveriam enfrentar os gregos na região de Salamina. Xerxes ouviu mas preferiu seguir sua intuição. Os gregos massacraram os persas no estreito, como previsto por Artemísia, dando início a 2° Guerra Médica, a derrocada definitiva dos persas.

Tivemos poucas mulheres no comando político das civilizações antigas. A violência e a usurpação do poder eram características do patriarcado. Simplesmente esse espaço não era concedido às mulheres. Mulheres sátrapas, rainhas, sacerdotisas eram exceção. Mas em casa, em geral, as mulheres mandavam.

Moeda persa do séc. V

Oikos, palavra grega para casa. Nomos, é organização. Essa é a origem da palavra Economia: administrar a casa. E quem sabe corretamente administrar as residências senão as mulheres?. Curioso que as mulheres de Atenas eram muito mais reprimidas do que as de Esparta. No berço da democracia cabia as mulheres servir ao homem. Servir significava tomar conta dos afazeres domésticos ou gerar filhos, nada mais do que isso. A educação, reservada a pouquíssimos, cabia aos homens. Eles ensinavam e as crianças e jovens do mesmo sexo aprendiam. A filosofia foi quase exclusidade masculina. Raríssimas as filósofas. A exclusão machista agia aqui. E o prazer sexual pertencia aos homens também, homens da nobreza. Sexo com mulheres, para a maioria da elite, visava apenas ao nascimento dos filhos. Já em Esparta a condição feminina era mais nobre. Ela era a parteira dos futuros soldados, a educadora até os 5 anos e a responsável pelas atividades econômicas até a aposentadoria ou morte do marido. Os soldados lutavam dos 17 aos 32 anos. Uma espartana tinha obrigações dos 15 anos ( quando em geral se casava) até os 32 anos, com o soldado de volta à casa. Chico Buarque estava correto ao cantar:

“Mirem-se nos exemplos daquelas mulheres de Atenas, vivem para seus maridos….”

Mas a vida cotidiana podia ser muito parecida com os dias atuais. Aristófanes escreveu a comédia Lisístrata ( literalmente “a que acaba com a guerra”). Sem papel político, sem poder, as mulheres de Atenas e Esparta são colocadas em posição invertida para criar o efeito satírico. Elas conseguem parar a Guerra do Peloponeso. Como? Com uma proposta hilária e contundente: greve de sexo. Os diálogos de Lisístrata impressionam pela atualidade. As mulheres das cidade-estado de 25 séculos atrás parecem falar dos homens atuais. A misoginia do mundo masculino persiste.

Vaso Grego com Lisístrata

Dois outros papéis femininos na antiguidade clássica cabe destacar: as Heteras e as Pornai. Na pintura a óleo que aparece em destaque nesse post temos “Friné Diante do Areópago”. Pintado por Jean León Gerôme em 1861, é um retrato baseado numa história real ocorrida no século V a.C. Phryne é acusada de utilizar segredos de homens poderosos em.seu proveito. Escapa da morte. A lenda viaja pelos séculos. Mulher inteligente e de beleza estonteante Phryne ( ou Fryné) inspirou as estátuas de Afrodite. Phryne foi uma Hetera. E afinal, quem foram essas mulheres com tanta influência entre os Aristoi ( bem nascidos da Grécia antiga,)?

Aspásia ensinando Sócrates. Michelle Cornelle 1670

Heteras foram tratadas como prostitutas pela história. Puro preconceito. Eram mulheres livres que tinham certas posses e casas ou mesmo palácios em que recebiam os homens abastados. Por dialogar com homens, conheciam política, retórica, filosofia e parte da cultura grega. Refinadas, vestiam-se com peças caras e muitas vezes importadas. De espírito e mente livres, muitas delas foram conselheiras dos líderes ou mesmo filósofas. Elas encantaram os homens e muitas tornaram-se amantes dos pater famílias, como Aspásia que no século IV, na era de ouro ateniense, foi amante de Péricles, tendo um.filho com ele. Aspásia era a segunda esposa de Péricles e promovia reuniões filosóficas, sendo considerada por muitos a mentora de Sócrates, pois possuía um grande conhecimento filosófico. Recebeu muitas críticas por influenciar na vida política da Atenas de Péricles.

Pornai num vaso grego

Pornai eram como as Heteras, livres. Entretanto cobravam por.seus encontros casuais com homens de todas as classes. Elas sim, poderiam ser comparadas as atuais prostitutas. Curioso notar que a palavra persiste em sua conotação pejorativa mesmo hoje. Adquiriu novo sentido, é claro. Pornografia atualmente é a e exploração de imagens sexualizadas com um quê de mau gosto e perversão. Diferencia-se da expressão artística. Os corpos de mulheres e homens nus que aparecem em artes plásticas ou em esculturas. Ali temos o ” nu artístico “, um eufemismo para diferenciar a nudez erudita da popular. Mesmo nas antigas revistas de ” adulto” que traziam mulheres famosas peladas e foram febre entre os fins dos anos 50 e início dos 2000 isso se evidenciava. A revista da Abril, Playboy, em geral com atrizes da Globo, dizia ser de ” nu artístico “. Já a Status e Ele Ela, com mulheres desconhecidas ou em início de carreira, tratava -se de pornografia. Tudo era nu. Tudo era pornográfico. Tudo era a mercantilização da mulher. A história se faz nessas descontinuidades e permanências.

Nu artístico
pornografia

Percebemos pelo papel da mulher na sociedade antiga que muito se avançou na representatitividade, no poder e na liberdade das mulheres, mas ainda é muito pouco dentro de uma sociedade machista, patriarcal e conservadora. Homens ainda ganham muito mais. Homens ainda espancam brutalmente e matam mulheres. Homens ainda impedem o acesso das mulheres aos cargos de comando. E, principalmente, homens ainda usam e desprezam as mulheres como os atenienses faziam há 2500 anos ou exploram-nas como as Heteras e Pornai o eram maltratadas há tanto tempo. Muito ainda se há por lutar, fazer e conquistar pelas mulheres.

10 comentários em “As mulheres na Antiguidade Clássica

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          1. Em Porto Alegre pela prefeitura. Eu sou apaixonada por crioulo! Eu amo ouvir os mitos da Criação que eles contam!!!! Eu teria ainda, em 2020, a honra de comunicar com refugiados venezuelanos pela primeira vez na minha trajetória de docente apaixonada…mas daí veio o covid19 e afogou minha paixão

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          2. Esse texto é de uma série de lives que fiz com a Covid é contínuo fazendo. Fiz um.sobre os mitos gregos s hindus da criação!

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          3. Então vamos tentar armar uma live no retorno às aulas presenciais. Isso porque os refugiados estão com dificuldade de língua e acessibilidade nas plataformas virtuais. Precisam de ajuda. Ano passado fizemos uma vídeo conferência com Guiné Bissau. Foi Maravilhoso!

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