Kathrine Switzer: correndo contra o machismo

FREDERICO MORIARTY – Filha de um major norte-americano alocado em Amberg, na Alemanha ocupada, Kathrine Switzer veio para os Estados Unidos aos 2 anos de idade por conta da divisão política do país em duas Alemanhas ( 1949). Boa aluna e excelente escritora, Kathrine decidiu fazer o curso de Comunicações. Suas notas a levaram até a Syracuse University, em Nova York. Gostava de esportes e inscreveu-se também na Liga Atlética de Syracuse. Gostava de correr as longas distâncias de 10 ou 15 milhas (respectivamente 16 e 24 km).

Cerca de 3h30 de ônibus dali fica a cidade de Boston. Nela temos a mais antiga Maratona do mundo. A corrida de Boston existe desde 1897, organizada pela Boston Atlhetic Association. Os atletas correm em três categorias: homens, mulheres e portadores de necessidades especiais. O trajeto tem 42.195m numa variação em aclive de 150m entre largada e chegada. Traduzindo: a maratona de Boston é uma leve descida e por isso não é mais considerada oficial, segundo a Federação Internacional de Atletismo. Outra curiosidade: em vários anos, Boston possuía um percurso de exatos 42km, uma picuinha com a Inglaterra. A competição mais importante do atletismo mundial foi criada em 1896 para comemorar a reabertura das Olimpíadas, com um percurso de 42.000m. Foi assim até Londres ( 1908). Nas Olimpíadas daquele ano, o rei Edward VII exigiu que os maratonistas encerrassem a prova em frente à varanda do Palácio de Buckingham, para que ele pudesse ver a chegada. Os organizadores fizeram um desvio e a prova ganhou 195m, extensão adicionada que permanece até hoje,

Logo Oficial da BAA

Até hoje foram 123 edições em Boston. Algumas delas marcantes. Entre elas temos a de 2013, quando um atentado com duas bombas postadas na chegada da prova terminaram por matar 3 competidores e feriram mais de 260 pessoas. Outra que se tornará famosa é a deste ano (2020), por conta da Covid, afinal depois de 123 anos, pela primeira vez na História, não haverá a Maratona. Em 1972 tivemos a primeira competição oficial da categoria feminina. Isso mesmo, a organização da B.A.A. levou 75 anos para reconhecer o direito das atletas mulheres participarem. Mas a luta começou 6 anos antes: Roberta Gibb e mais duas mulheres correram – sem inscrição-, a Maratona de 1966. Veio 1967 e o corredor K.V. Switzer tem sua inscrição aceita, recebe o número 261 ( foram 456 inscritos naquela edição contra os 30.000 em 2019). O número 261 correu ao lado de seu treinador e de seu noivo. Sim, era Kathrine Switzer, que se utilizou de uma inteligente estratégia para ser a primeira mulher a completar oficialmente uma maratona no mundo.

Arnie Briggs era seu técnico em Syracuse. Numa das conversas com a atleta em 1966 ele afirmou que a composição muscular das mulheres jamais permitiriam a elas concluir uma maratona. Era corrida para corpos masculinos e seus músculos com muito menos água. Bastou para Kathrine desafiar o treinador e garantir que terminaria a maratona de Boston no ano seguinte. Maratonas são provas terríveis. Consegui a proeza de concluir uma em 2001, após 2 anos de treino. Existe a fase da empolgação nos 5 primeiros quilômetros ( quando a maioria termina por exaurir as forças necessárias para a longa distância). Depois vem a estabilidade: os atletas bem treinados mantém um ritmo único e avançam por mais 16km. A terceira fase vai da metade até o quilômetro 32. Nela, a vida desaparece. As dores são intensas, o corpo está sedento, os pés ardem ( se não escolheu um bom tênis, as feridas nos dedos e planta do pé eliminam você da prova). Nessa altura, um competidor de elite correu cerca de 1h30. Um bom atleta duas horas. Os amadores, como eu era, levam três horas. Do quilômetro 32 a 38 há um desligamento. A adrenalina sobe a tal ponto que esquecemos a dor. A visão fica turva. Os últimos 4 quilômetros são fáceis para quem chegou até ali. A empolgação por faltar tão pouco nos dá um ânimo – sem força, é claro -, para concluirmos a prova. Perdi as duas unhas dos dedões, fiquei um mês com dores nas pernas, mas valeu. Completei a prova em 4 horas e 28 minutos, mais de duas horas depois do vencedor, um queniano que não me lembro o nome. Kathrine correu a maratona de Boston de 1967 em 4h e 21 minutos ( bem mais rápida do que eu). Briggs estava errado, as mulheres poderiam sim competir e em boas condições as maratonas. O feito em si já seria notável, mas ela foi além.

Harris salvando Kathrine. Foto: Da Capo Press Inc. ISBN 0306825651Archived from the original on April 20, 2020.

Jock Semple, um treinador escocês de 63 anos ficou inconformado quando viu a corredora mulher com o número oficial 261 na camisa. Durante 20 minutos ele produziu das cenas mais machistas e chauvinistas da história dos esportes. Xingava, gritava e cuspia em direção à Kathrine Switzer. Transtornado com a não desistência dela, o asqueroso cidadão invade a rua e bloqueia a passagem de Kathrine, segurando-a com seu corpanzil. Semple pertencia a B.A.A., mas até hoje a organização nega que ele agiu em nome da mesma. Um amigo de Kathrine e Briggs tentam conter o homem, mas só quando o noivo dela e ex-jogador de futebol Tom Harris, com 112kg de músculos, segura e empurra Semple, Kathrine consegue seguir adiante. Harris, literalmente, jogou o lixo para fora. Semple jamais se desculpou por ato tão vil e preconceituoso.

A cara do monstro. Fonte: Pinterest

Instintivamente, virei minha cabeça rapidamente e olhei diretamente para o rosto mais cruel que eu já vi. Um homem grande, um homem enorme, com dentes à mostra foi colocado para atacar e, antes que eu pudesse reagir, ele agarrou meu ombro e me jogou para trás, gritando: ‘Cai fora da minha corrida e me dê esses números!
(Kathrine Switzer)

Além de Kathrine, mais duas mulheres concluíram a prova. Entre elas estava Roberta Gibb. Atleta de destaque, Roberta também correra a edição anterior de 1966 e depois a de 1968. A diferença para Kathrine é que Roberta jamais se inscreveu oficialmente para competir ( custava a bagatela de US$3). Fez a prova em 3h e 21 minutos, ou seja, uma hora a menos do que Kathrine.Mais do que isso, Roberta terminou à frente de mais de 200 homens entre os 453 que competiram. Em 2016, a B.A.A., tardiamente, reconheceu as participações de mulheres e concedeu a medalha vitoriosa para Roberta nas edições de 1966 a 1968. Corria com um tênis masculino, pois não havia na indústria de calçados uma linha para mulheres. Sim, no final dos anos 60, empresas como Nike, Reebok, Adidas, Puma e Fila entendiam que não se precisa de tênis para lavar roupa ou cozinhar. A indústria machista de adapta rapidamente.

A corredora solitária, Roberta Gibb a primeira tricampeã da história das Maratonas. Fonte: ESPN

A perseguição brutal e a competição oficial fizeram de Kathrine uma corredora mais famosa. Esteve na luta para a aprovação da categoria feminina em Boston em 1972. O Comitê Olímpico Internacional, absurdamente, só introduziu a prova na Olimpíada de Los Angeles em 1984 ( 98 anos depois da masculina e 17 anos depois de Kathrine). O número de atletas mulheres atualmente se aproxima ao dos praticantes do sexo masculino. Na Maratona de Boston ano passado, foram cerca de 16.000 homens e 11.000 mulheres. O evolução do rendimento é impressionante. Em 1966, Roberta correu em 3 horas e 21 minutos, mais de uma hora acima do que o vencedor entre os homens. Ano passado, a queniana Brigit Kosgei, bateu o recorde mundial da Maratona feminina com 2 horas, 14 minutos e 4 segundos. Apenas a 12 minutos e 25 segundos do recorde mundial entre os homens. Mulheres correm, são fortes e capazes de superar qualquer obstáculo.

Kathrine correu maratonas até os 27 anos. `Participou de mais de 100 provas na vida. Seu melhor tempo foi de 2 horas e 59 minutos em 1975. Tornou-se jornalista e ativista feminista. Comentarista de esportes, tem no currículo a cobertura de mais de 200 maratonas. Ao contrário do seu algoz, com a grandeza imensurável de toda mulher, Kathrine esteve num hospital inglês em 1988 para se despedir e dar conforto a um homem que estava prestes a morrer de câncer. Seu nome era Jock Semple.

50 anos depois Kathrine Switzer completou a Maratona de Boston aos 70 anos de idade. Fonte: O Globo

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