Erica Jong e o medo de voar. Por uma literatura feminista

FREDERICO MORIARTY – Erica Jong nasceu em 1942 na cidade de Nova York. Estudou língua inglesa e desde os 26 anos já fazia sucesso como poetisa com versos de pitadas eróticas.Em 1973 a escritora publica Medo de Voar, obra de cunho autobiográfico, virando um best-seller instantâneo ao vender 27 milhões de exemplares.

Capa Americana de 2013. Alusão ao zíper.

Isadora Wing é uma famosa poetisa erótica de 29 anos. Culta, a jovem artista tem reflexões sobre a psicanálise, os relacionamentos, sexo, sociedade de consumo, judaísmo e ,claro, feminismo.

No início da história ela está indo para a Viena de Freud participar de um congresso de psicanálise com seu atual marido Brian. O tédio é parte do voo uma metáfora do que virá. Isadora fará uma viagem introspectiva de auto-descoberta e quem sabe a perda do medo de exercer sua feminilidade.

“Ser mulher na América. Que responsabilidade! Crescemos com os ouvidos cheios de anúncios de cosméticos, canções de amor, colunas de conselhos, horóscopos, fofocas de Hollywood e dilemas morais ao nível das novelas de tevê. E a propaganda ditando nosso comportamento: ‘Seja amável com seu traseiro,’ ‘Ame seu cabelo’, ‘Quer um corpo melhor? Nós remodelaremos o que você tem’… Todos os anúncios e horóscopos pareciam insinuar que, se você fosse narcisista o suficiente, tomasse cuidado com seus cheiros, cabelos, peitos, cílios, axilas, sexo, etc (…), encontraria um homem belo, poderoso, potente e rico, que satisfaria todos os seus anseios, preencheria cada buraco seu, levaria seu coração a saltar uma batida (ou parar duas), a deixaria nas nuvens e a levaria à lua, onde você viveria totalmente satisfeita para sempre.”

Isadora tem uma relação difícil com a mãe, Judith. Uma judia que renegou a religião para poder desfrutar da riqueza e luxo do capitalismo. Judith era um feroz superego a impor o narcisismo à filha e a defender que as mulheres existem para casar. O trecho destacado anteriormente mostra a língua visceral de Isadora ( Erica). O sonho de consumo daquela mulher não era o príncipe encantado e rico. Isadora quer antes de tudo realizar-se como mulher livre e independente. Num processo de ” estar mulher”, como queria Simone de Beauvoir. Interessante notar como a crítica de Isadora cabe tão bem nas revistas para ” mulheres” entre os anos 70 e 2000 no Brasil. O modelo era o mesmo: uma mulher deslumbrante e branca na capa e seu segredo de sucesso ( unicamente na beleza estética imposta). As primeiras páginas eram sempre sobre estética, emagrecimento, cirurgias plásticas, exercícios para levantar bumbuns e seios. Não para a mulher ficar bela para si, mas para facilitar o encontro do príncipe encantado. Depois havia a seção ” cama, mesa e banho”. Receitas culinárias para prender o marido, cuidados domésticos, preparativos para ser mãe um.dia e, finalizando, um erotismo bem pueril. Sexo nas 4 linhas e sem transgressões. Um atentado à mulher.

Anos 70.

E Isadora pula de amor em amor, de paixão em paixão. Quer ser livre, perder o medo de voar. Experimenta homens e relacionamentos, mas não perde o romantismo. Vejamos o trecho abaixo:

Mas isso passaria, com o tempo. Sempre passava, infelizmente. O machucado no coração que, no começo, parece tão sensível ao toque, com o tempo se transforma em todas as tonalidades do arco-íris e pára de doer. Chegamos a esquecer que temos coração, até que apareça a vez seguinte. E é quando tudo acontece de novo e nos espantamos em verificar como foi possível esquecer. Pensamos: “Este é mais forte, este é melhor…”, porque na verdade, não conseguimos lembrar bem da vez anterior

E como enfrentar os padrões e estereótipos impostos por séculos de patriarcado bem sucedido? Nas histórias de amor, quase sempre, existe uma mulher frágil, incapaz de vencer sem ter ao lado um homem poderoso, rico e bem sucedido. Mesmo na série ” revolucionária” Cinquenta Tons, temos um bilionário maravilhoso que se apaixona pela pobre menina. O auge do escárnio é a proposta da mulher assinar um termo de submissão e confidencialidade para ter em troca um Deus grego adorador do sadismo. Isadora ( Erica) são libertárias.

Após ter passado a paixonite a gente racionaliza. Adorei, certa vez, um regente que nunca tomava banho. Tinha o cabelo emaranhado, e era um fracasso completo na hora de limpar a bunda. Sempre deixava manchas de merda em seus lençóis. Eu, normalmente, não sou a favor disso – mas nele estava bem, ainda não sei qual o motivo. Apaixonei-me por meu marido, em parte, porque ele tinha os ovos mais limpos que já provei. Não têm pêlo, e ele praticamente não sua. Dava (pra quem quisesse) para comer no cu dele (como no chão da cozinha da minha avó). Por isso sou versátil com relação a meus fetixes. De certo modo, tornam as minhas paixonites ainda menos explicáveis.

Capa brasileira da editora abril. 1984

Henry Miller de saias. Assim foi tratada Erica Jong nos anos 70 e 80. A senhora libertinagem. Tudo por conta de uma personagem que cresce em busca de sua realização completa. Isadora é bela, inteligente, culta, bem sucedida profissionalmente como poetisa. O que lhe falta: uma identidade sentimental e mais do que isso, a ” foda sem zíper “

A foda sem zíper é absolutamente pura. Sem zíper, é bom entender, não porque os europeus usam braguilhas de botão, em vez de braguilhas com zíper, e não porque os participantes sejam tão devastadoramente atraentes, mas porque o incidente tem toda compreensão rápida de um sonho e parece livre de qualquer remorso e culpa; porque não existe racionalização; porque não existe conversa nenhuma. A foda sem zíper acha-se livre de motivos posteriores. Não há disputa de forças…

A foda sem zíper é a coisa mais pura que existe. E se mostra mais rara do que o unicórnio. Eu nunca tive uma. Sempre que pareceu que estava perto dela, descobri que se tratava de um cavalo com chifres de papelão, ou dois palhaços enchendo a roupa de unicórnio.

Erica Jong era e ainda é uma militante feminista. Em 2017 escreveu uma continuação ” Perder o medo”, sem tanto sucesso comercial. Mas o recado estava dado. Muitas mulheres ainda vivem com medo de voar. Muitas mulheres ainda buscam a foda sem zíper. Muitas mulheres ainda sonham com a realização integral. John Updike foi mais certeiro: Erica Jong e Medo de Voar estão no mesmo patamar de J.D.Salinger e o Apanhador nos campos de centeio, clássicos de formação de identidade.

1974. 2017. Erica Jong

2 comentários em “Erica Jong e o medo de voar. Por uma literatura feminista

Adicione o seu

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: