Em algum lugar do passado

FREDERICO MORIARTY – Estamos em 1980 e uma nonagenária entrega um relógio a um belo rapaz. Trata-se de um relógio de bolso datado de 1912. A peça vem acompanhada de uma fala ” volte para mim”. O rapaz depois de muitas tentativas, consegue retornar ao passado. Entrega o relógio a uma jovem atriz de 20 anos. Era a mesma senhora que lhe entregou o relógio 68 anos depois. Há um paradoxo nessa cena. Como ele poderia receber um relógio que ainda não fora entregue? Vamos seguir no raciocínio: e se o rapaz falhasse na viagem no tempo? o relógio jamais existiria, pois jamais teria sido entregue para em seguida viajar por 7 décadas. A física moderna denomina esse movimento de Paradoxo de Bootstrap. Presente em vários filmes de ficção científica como o Exterminador do Futuro e, mais recentemente, no cultuado seriado Dark.

Seriado Dark

A cena acima pertence ao drama romântico Em Algum Lugar do Passado ( Somewhere in time), que foi exibido pela primeira vez há exatos 40 anos. O paradoxo além de discussão recente não constava no livro que originou o filme de Jeannot Szwarc Foi ideia do diretor colocar o eterno retorno metaforicamente num antigo relógio de bolso.

Grand Hotel

A história mistura viagem ao tempo, controle da mente e amor eterno. Olhando à distância, ela possuía todos os elementos para fracassar. Porém havia 4 forças que transformaram o filme num fracasso de bilheteria, mas num dos maiores sucessos da televisão. O roteiro de com alterações importantes em relação ao livro. As interpretações convincentes de Christopher Reeve ( então famosíssimo pelo papel de Superman) e Jane Seymour. A música tema de John Barry , a marcha nupcial de entrada de 9 em cada 10 noivas entre 1981 e 2000 e poucos. O último foi a direção segura de Jeannot Szwarc. O francês sofria quando chamava Chris. Tanto Plummer quanto Reeve respondiam. Bastou para ele dirigir-se ao primeiro como Plumm ( algo como pluma em francês) e Big foot ( pé grande) para o Superman.

Richard ( Reeve) após receber o relógio e a fala enigmática, fica com ideia fixa em descobrir quem era a senhora. Ele se retira para um luxuoso e antigo hotel de Michigan, o Grand Hotel. Ali ele acaba encontrando numa fotografia a imagem da mulher sorrindo, era Elise ( Seymour), amor de sua vida. Ele tem certeza de já ter vivido uma grande paixão com aquela antiga hóspede. O problema começa aí: a foto foi tirada em 1912. Como ele poderia amar uma mulher que foi jovem 40 anos antes dele nascer?

Nesse momento aparece um personagem que é um misto de hipnotizador e telepata no tempo. Doutor Finney tem o nome ( interpretado por ) de Jack Finney é uma homenagem ao escritor que publicou o livro Time and again em 1975, prevendo uma viagem no tempo. Richard começa a seguir os conselhos do ” cientista”: cortou o cabelo como em 1912, leu tudo sobre o ano e o passado. Isolou- se num quarto do hotel e por meio da hipnose viajou no tempo por alguns instantes. Frustrado pela curta viagem, ele confere na lista de hóspedes de 1912, arquivada há quase 70 anos, seu nome assinado. Ele conseguira voltar ao passado.

Parte então para uma transformação psicológica e mental total. Confecciona e compra um terno como um visto numa revista de 1912. Estuda o ano, faz dezenas de gravações convencendo a si próprio de que está e vive há 70 anos. Elimina qualquer vestígio de que viveria em 1980. Faz a técnica da hipnose e…consegue viajar no tempo. Andando pelo hotel encontra um grupo ensaiando uma peça. Num relance, a atriz principal o vê e é fotografada exatamente como ele a viu no presente ( agora, o futuro 1980). Era Elise. Mais uma vez temos o paradoxo de Bootstrap. Como ela sorriu apaixonada para Richard se ele nasceria quase 40 anos depois da foto?

Os dois podem então viver um grande amor. Claro, .se o vilão Willian Randolph ( Christopher Plummer) deixar. Willian é o diretor da trupe de Elise e acredita que a paixão irá atrapalhar a promissora atriz. Mas nada poderia separar um amor que viaja no tempo. Richard e Elise conseguem consumar a paixão. Tudo estava perfeito, a não ser por um quarter. Ao pagar pelo terno no futuro, Richard esqueceu uma moeda de 1978 no bolso do paletó. Bastou esse ato falho para todo o processo de controle mental desaparecer.

O final é trágico. Richard se desespera ao voltar para 1980. Tenta diversas vezes voltar ao passado. Fracassa. Cai em depressão, consome-se no álcool. Definha até a morte. Elise morreu logo após lhe entregar o relógio em 1972. Um lapso temporal de oito anos os separava, quebrados finalmente quando os dois se reencontram no Paraíso. Um amor para toda a vida que só pode se unir após a morte. O maior dos O final é outra grande mudança do roteiro e, para melhor. No livro, o personagem tem um tumor cerebral. Acaba morrendo de câncer e solitário após a tragédia da volta ao passado. O livro deixa em aberto a possibilidade de ser apenas um delírio a história. Não há dúvidas que apesar de melodramático, o enlace do filme é melhor ao afirmar que: Um amor para toda a vida só pode se unir após a morte. O maior dos paradoxos.

3 comentários em “Em algum lugar do passado

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  1. Olá! Gostei muito do texto, só gostaria de fazer uma correção na parte da morte do protagonista: ele não morre poucos dias depois da Elise. Na história, o “eu” velha dela entrega o relógio para Richard em 1972. Ela morre pouco tempo depois desse momento, na mesma noite. O Richard só vem a se hospedar no hotel 8 anos depois, em 1980. Abraço!

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    1. Geraldo, certíssimo. Na pressa pulei uma parte. O que está descrito ali acontece no livro e não no filme. Era pra ter ressaltado isso, passou batido…passa seu nome completo, vou te citar na correção

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