Feiticeiras, Sabás, a Santa Inquisição e a caça às bruxas

FREDERICO MORIARTY – Marina Raskova, Yekaterina Budanova, Maryia Smirnova e Yevendokia Bersghanskaia eram as Naschthexen. Pilotas da Aeronáutica Soviética, elas pertenciam ao 588° Regimento de Bombardeiros Aéreos. Voavam com um teco-teco de madeira e lona utilizado para pulverizar o campo comunista até 1942. Tornou-se um dos únicos regimentos femininos de toda a 2° Guerra. Os biplanos Polikarpov eram barulhentos e voavam baixo. As heroínas soviéticas chegaram a formar quarenta equipes de duas pilotas. Combatiam após a meia noite e sobrevoavam os alvos nazistas em boa parte do tempo com os motores desligados. Fizeram mais de 20 mil voos e despejaram quase 30 mil bombas. Receberam 43 medalhas de honra máxima de Stálin. Cada mulher fez pelo menos 800 missões. Segundo os nazistas as aeronaves pareciam vassouras e por serem pilotadas por mulheres, eles as chamaram pejorativamente de Nachthaxen. Bruxas da noite em português. Um símbolo de onde as mulheres podem chegar ou estar, um contraponto ao machismo estrutural e uma visão atual do que seriam as bruxas. As heroínas soviéticas eram as netas das bruxas que cristãos, protestantes e alemães não conseguiram queimar.

Selo soviético em homenagem a Marina Raskova

A magia, as adivinhações, os feitiços, o xamanismo e as iniciações esotéricas, místicas e religiosas sempre existiram na História. Até o século IX d.C. essas práticas e a condução das mesmas eram quase que excluvidade dos homens. Raríssimas eram as mulheres no comando da fala com o além e seus espíritos. Muitas vezes as mulheres nada mais eram do que oferendas vivas para a ira dos deuses. George Duby dizia que a Idade Média era a Idade dos Homens. Senhores feudais foram homens, os cavaleiros medievais pertenciam ao sexo masculino, os soldados e servos, todos homens. As estrebarias eram um local de homens. Igrejas, paróquias, mosteiros: encontrávamos padres, bispos, frades, freis e raramente uma freirinha. As mulheres ficavam em casa, fechadas no feudo e nos afazeres domésticos. O filho pequeno batia a perna e a mulher entrava nas matas atrás de folhas, raízes ou cascas que ajudassem a passar a dor. Buscavam chás, ungüentos, plantas milagrosas, insetos, argilas. Misturavam receitas, transmitiam as filhas, netas, amigas o conhecimento adquirido. Toda uma farmacopeia natural e rica se formava a partir do século X. As mulheres faziam partos e aprenderam sobre anatomia e fluidos corporais. Lidavam bem com o sangue. Com o tempo descobriram que as pedras também tinham poder curativo. Estudavam, anotavam, experimentavam. Viviam nas florestas atrás de conhecimento. Sabiam sobre destilação, fermentação e como obter álcool. Eram as parteiras, curandeiras, cientistas, médicas e naturalistas do passado.

Livro francês do século XIV, um dos primeiros retratos da Bruxa e seus estereótipos

Entre os fins do século XIII e fins do XVIII, essa sabedoria passou a ser encarada como perigosa e subversiva. Os papas começaram a perseguir as práticas. Com a Peste ( 1348-1352) a situação piora. As mulheres ganham o epíteto de bruxas. Os franceses diziam que elas voavam em vassouras. Sempre a noite. Eram velhas e de nariz protuberantes. Faziam bruxarias, ou seja, praticavam o mal. Usavam vestes escuras, para agradar Satanás. E como tal deviam ser presas, excomungadas e, quem sabe, queimadas vivas. Muitas dessas mulheres queriam ser livres da Igreja, do feudo, dos homens. Embrenharam-se pelas maravilhosas florestas. Queriam liberdade e salvação. Buscavam a fonte da juventude e a pedra filosofal. E não é isso que a ciência busca até hoje? Um remédio que nos cure pra sempre e nos ofereça a vida eterna. Ou uma solução que transforme qualquer coisa em ouro. A história é implacável com seus algozes. Elas não eram bruxas, os homens que queriam usurpar-lhe o conhecimento e a liberdade. A bruxa era uma invenção machista.

As Bruxas. De Goya. Na imagem de abertura temos outra obra dele, ” o sabat”

Sim, como sempre no mundo dos homens, tratava-se de uma questão de poder. A bruxaria é catalogada pela Igreja Católica como heresia logo após o fim da Grande Peste. O monopólio da cura e da salvação da alma deveria continuar nas mãos da instituição religiosa e seus homens. As feiticeiras ou bruxas conheciam o aurum, o arsenicum, o argentum, o sulphur, a mux vomica, a belladona, a arnica, o lupus, a apis e tantas folhas, flores e técnicas curativas. A medicina tradicional limitava-se a sanguessugas. Doenças eram os fluidos corporais contaminados, bastavam trocar o sangue para tudo normalizar. Outro origem das doenças: os demônios. O corpo sofria pois estava possuído. Anatomia? Não existia, afinal o corpo era de Deus. As bruxas na verdade eram as cientistas e em alguns casos, as médicas do final do medievo até a Idade Moderna. Á medida que se expande o Renascimento, o Antropocentrismo, a razão como virtude, aquele conhecimento quase exclusivo das mulheres é apropriado com violência. Estudos mostram que cerca de 85% das bruxas entre os séculos XIII e XVIII eram do sexo feminino. A Alquimia, uma das fontes da química moderna era uma sabedoria das mulheres.

Vieram os livros condenando as mulheres. O mais famoso e influente deles é o Martelo das Feiticeiras (Malleus Maleficarum). Escrito pelos freis dominicanos  Heinrich Institoris e James Sprenger, em cumprimento à bula papal Summis Desiderantis de Inocêncio VIII em 1486. Trata-se de um manual para os inquisidores acusarem os atos de bruxaria como heresias e um caminho para a condenação das feiticeiras à fogueira. A culpa era das mulheres, de sua falta de inteligência e caráter e, claro, de sua libertinagem em associação com o demônio:

 “E, com efeito, assim como, em virtude da deficiência original em sua inteligência, são mais propensas a abjurarem a fé, por causa da falha secundária em seus afetos e paixões desordenados também almejam, fomentam e infligem vinganças várias, seja por bruxaria, seja por outros meios. Pelo que não surpreende que tantas bruxas sejam desse sexo.
( Trecho do Malleus)

Mulher suspeita de bruxaria é interrogada por inquisidores.. Fonte: Wikipedia

A partir dali, mulheres foram presas, torturadas, condenadas e a maioria das denunciadas condenadas à morte. No processo da “Santa” Inquisição, essas mulheres revelavam como e porquê curavam as pessoas. Suas soluções, suas misturas mégicas, seus conhecimentos naturais estavam agora acessíveis a qualquer um ( que pertencesse ao sexo masculino) para continuar os estudos e experimentos. Queima-se o corpo, mas salva-se o espírito que poderá ser apropriado livremente nos séculos XVI a XVIII pelos homens, livres da acusação de bruxaria. Um dos maiores exemplos históricos de aproriação cultural de conhecimento, de forma violenta e brutal. No final dos anos 70, a escritora norte-americana Marion Zimmer Bradley produziu uma série de romances históricos invertendo a lógica do ciclo arturiano e demonstrando a importância das mulheres e das feiticeiras, bruxas e magias. Não há só um Deus, como quer a Igreja. O homem não é o único protagonista da história. Nos 4 volumes de Brumas de Avallon , fala do papel da mulher, da importância e conseqüência dos casamentos arranjados, do choque de culturas e poderio dos sexos, as pressões sobre o papel da mulher, o adultério e a magia. Captou com maestria o momento anterior ao do Malleus Maleficarum. Vale a pena reler trechos como o que vem a seguir, para entendermos melhor o avanço da dominação masculina por meio do extermínio das bruxas.

O que os sacerdotes não sabem, com o seu Deus Uno e sua Verdade Única, é que não existe história totalmente verdadeira. A verdade tem muitas faces e assemelha-se à velha estrada que conduz a Avalon; o lugar para onde o caminho nos levará depende da nossa própria vontade e de nossos pensamentos, e talvez, no fim, cheguemos ou à sagrada ilha da eternidade, ou aos padres, com seus sinos, sua morte, seu Satã e o inferno e danação… Mas talvez eu seja injusta com eles. Até mesmo a Senhora do Lago, que odiava a batina do padre tanto quanto teria odiado a serpente venenosa, e com boas razões, censurou-me certa vez por falar mal do deus deles. Todos os deuses são um só Deus, disse ela, então, como já dissera muitas vezes antes, e como eu repeti para minhas noviças inúmeras vezes, e como toda sacerdotisa, depois de mim, há de dizer novamente, “e todas as deusas são uma só Deusa, e há apenas um iniciador. E a cada homem a sua verdade, e Deus com ela.” Assim, talvez a verdade se situe em algum ponto entre o caminho para Glastonbury, a ilha dos padres, e o caminho de Avalon, perdido para sempre nas brumas do mar do Verão.

Mas enganam-se os que pensam que a ” Caça às Bruxas” foi exclusividade da Igreja Católica. Ao contrário, o maior algoz das mulheres livres e pensadoras foram os protestantes. Os historiadores falam de 130 a 160 mil mulheres julgadas sumariamente e sem direito de defesa entre a metade do século XIV até metade de XVIII. Torturadas, condenadas e queimadas os números vão de 70 a 100 mil bruxas. O número é impressionante: a população europeia nesse período era de 75 a 80 milhões de pessoas; a caça as bruxas matava DUAS mulheres a cada TRÊS DIAS na Europa por QUATRO SÉCULOS. Cabe as perseguições protestantes cerca de 70% destas absurdas mortes. A Inglaterra anglicana foi o país com maior número de condenações. Os Estados Unidos puritano teve centenas de casos, sendo o mais famoso o dos abjetos julgamentos do fim do século XVII que terminaram por condenar mais de 200 pessoas por bruxaria na cidade de Salém (Massachussets), sendo apenas 12 homens. Trinta delas foram sentenciadas a morte e 18 mulheres e 1 homem enforcados por bruxaria. Por trás de tudo havia uma intensa disputa de terras entre uma família de homens renomados e doutro lado uma familia em que predominavam mulheres, além de um puteiro no meio do caminho da sanha masculina. Nathaniel Hawtorne ambientou seu romance A Letra Escarlate em meio a essa turbulência. Na rígida comunidade puritana de Boston do século XVII, a jovem Hester Prynne tem uma relação adúltera que termina com o nascimento de uma criança ilegítima. Desonrada e renegada publicamente, ela é obrigada a levar sempre a letra “A” de adúltera bordada em seu peito. Hester, primeira autêntica heroína da literatura norte-americana, se vale de sua força interior e de sua convicção de espírito para criar a filha sozinha, lidar com a volta do marido e proteger o segredo acerca da identidade de seu amante, o pastor puritano da cidade. O velho e bom falso moralismo e a caça às bruxas.

Última edição brasileira

Afinal, bruxas existem? E os bacanais demoníacos do Sabat? Não há dúvidas de que as bruxas existiam e existem. Não há dúvidas também de que elas dominavam o conhecimento além da razão do passado. As ditas festas orgiásticas sempre fizeram parte das civilizações humanas. Principalmente na Europa e depois nos Estados Unidos. Passado o longo e frio inverno, em muitos lugares com neve por meses, o final de março trazia de volta o sol, as temperaturas elevadas, as folhas verdes e as flores. Era tempo de preparar a terra, arar o solo e semear para o novo tempo que viria. São muitas as culturas que festejam o renascimento da vida no campo, o germinar das sementes. Várias destas festas contam com rituais de acasalamento ao final. A ejaculação deve sempre ser lançada sobre as sementes. Aquilo que fecunda as mulheres deve ser celebrado e entregue ao processo de germinação da terra. São rituais pagãos, sem demonização ou bacanais. Á medida que a sociedade conservadora começa a proibir essas festas, a modificar o calendário ( Até o fim da Idade Média o ano novo se iniciava em 1º de abril, tempo do semear. A igreja muda para um gelado 1º de janeiro, adequar o calendário ao nascimento de Jesus). Os festivais passam a ser escondidos, subterrâneos e como uma forma de resistência às imposições do poder religioso. O Sabat tornou-se Black Sabath não por escolha própria.

Se num primeiro momento as mulheres renegaram o epíteto de bruxas ou feiticeiras, posteriormente elas assumiram a palavra de conotação pejorativa e passaram a utilizar a mesma como sinal de força e de conhecimento único e feminino. Ser bruxa era ser livre. Livre no pensar, no trabalhar, no realizar-se no amor, mesmo que para isso precisassem de umas poçõezinhas mágicas. Ser bruxa era ser independente para andar pelas florestas e pelo maravilhoso mundo místico. Mesmo sabendo que isto poderia lhe custar a vida, queimada numa fogueira, mesmo que isso pudesse lhe custar o roubo do conhecimento científico pelos homens. Bruxas existem, estão entre nós e continuam atemorizando nossos homens, em especial os homens de poder, pois sabem que elas são sobreviventes daquelas que foram queimadas no passado.



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