Como Temer e Bolsonaro estão tirando o arroz da mesa do pobre

Geraldo Bonadio

Acomodar os preços do arroz e outros produtos essenciais à sua alimentação no orçamento da casa, sangrado pelo desemprego, em meio à ausência de sinais de melhoria, está se tornando tarefa impossível para o brasileiro pobre.

O governo e a grande mídia têm feito o quanto podem para impedir que as pessoas entendam por que isso está ocorrendo. Não poderia ser de outra forma. Ambos são culpados por esse iminente desastre alimentar. O governo atua de forma incompetente e insensível; a grande mídia se acumplicia com tal realidade através do silêncio.

A situação que aí está, com nítida propensão a agravar-se começou a ser construída em 2016, após a deposição da presidenta Dilma.
Anteriormente, o país contava com uma excelente estrutura de segurança alimentar, alicerçada na rede de estoques reguladores gerida pela Conab – Companhia Nacional de Abastecimento -, uma empresa pública vinculada ao Ministério da Agricultura, e nas fábricas de fertilizantes da Petrobras, que possibilitavam aos agricultores comprar os nutrientes destinados a preparar o solo para o plantio, pagando por eles em reais.

O relato mais conhecido sobre a importância de um país contar com estoques reguladores de alimentos, para atravessar, sem sobressaltos, possíveis crises na produção agrícola é a história de José, contada no livro de Gênesis. Decifrando o sonho do faraó sobre as vacas magras que devoravam as gordas, o patriarca hebreu convenceu-o a construir uma rede de armazéns para estocar alimentos que permitiram ao Egito sustentar sua população e atravessar os sete anos de vacas magras vendendo excedentes aos reinos vizinhos.

O que a Conab fez, anteriormente a 2016, foi, basicamente, o mesmo: nos anos em que grandes safras de alimento geravam baixa de preços no mercado, a empresa pública adquiria tais produtos, a preços compensadores para a lavoura e os utilizava como estoques reguladores que, vendidos em momentos nos quais a situação se invertia com safras ruins e alta de preços, impediam que os preços praticados no comércio prejudicassem a boa alimentação dos brasileiros.

Os governos de Temer e Bolsonaro implodiram aquela estrutura. As fábricas de fertilizantes da Petrobras foram vendidas e os produtores passaram a importar tais insumos, pagando em dólar. A diferença entre a situação atual e a anterior ficou nítida no momento em que o governo se mostrou incapaz de evitar a desvalorização do real. Com o dólar caminhando para ultrapassar a marca dos seis reais, os custos de produção explodiram.

Ao mesmo tempo, a Conab foi esvaziada e as compras de alimentos, nos momentos de baixa, foram reduzidas a quase nada. Quando, sobrevindo a pandemia do Covid 19, os países mais ricos decidiram reforçar seus estoques de alimentos, as grandes empresas que, no Brasil, atuam no setor arrozeiro, naturalmente preferiram vender seus estoques lá fora, recebendo a moeda americana que, uma vez introduzida no país, rendia um punhado de reais para cada dólar exportado. No instante em que o país descobriu que precisava recorrer aos estoques reguladores da Conab eles não mais existiam. Essa é uma história que você não leu, não ouviu e não vai ver na grande mídia impressa, televisiva ou eletrônica.

Ao ver a viola em cacos, o presidente dirigiu um apelo ao patriotismo dos donos de redes de supermercado, o que indica que nem disso ele entende. Supermercado ganha com o giro da mercadoria, favorecido por preços baixos e alto consumo e perde quando é obrigado a limitar a venda – principalmente de um produto de consumo universal, como, no Brasil, acontece com o arroz. Os que especulam com o preço do arroz ou do óleo de soja são outros segmentos do “mercado”.

Importaremos arroz da Tailândia ou dos Estados Unidos – garante a ministra da Agricultura. Isso pode ser muito bom para os fazendeiros daqueles países mas não vai refrescar nada em nosso país. Aquele arroz comprado em dólar a que preço chegará à mesa do brasileiro? E em quanto tempo? Nada menos do que 60 dias, garantem alguns especialistas.

Além disso, o mal maior já está feito. O consumidor, temeroso que o alimento venha a faltar, começou a comprar quantidades maiores do aquela que compraria habitualmente. E, ainda que tudo dê certo, como ficará a alimentação das famílias mais pobres, cujos membros estão fora do mercado de trabalho, nesse meio tempo?

Poucas coisas tiram alguém do sério como a fome prolongada.
As pessoas mais velhas se lembram que, em 1983, em razão de uma crise bem menor que a atual, tivemos em São Paulo saques de supermercados e um cerco, com derrubada das grades, do Palácio dos Bandeirantes.

Em Sorocaba, sentindo a direção do vento, o governo do prefeito Flávio Chaves antecipou-se e passou a fornecer, através das redes de pré-escolas, marmitas às famílias que não tinham, em suas casas, como preparar suas refeições diárias.

Se o governo fosse sério e competente, ao lado de medidas emergenciais sobre as quais ainda não existe consenso, cuidaria de restaurar imediatamente os mecanismos de segurança alimentar com que o Brasil contou nos governos Lula e Dilma.

A questão é que vivemos, hoje, uma situação que lembra a Revolução dos Bichos, de George Orwell. Ao povo toca papel semelhante àquele cumprido na fábula do escritor inglês pelo cavalo Sansão, sempre disposto a trabalhar cada vez mais, enquanto os porcos que dirigem a fazenda farreiam.

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Imagem de MichaelGaida por Pixabay

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