Os outros

FREDERICO MORIARTY (CRÔNICA)

Ela colocou o melhor e mais caro biquíni. Amarrou no ponto exato em que o derrieré parece maior e mais arredondado. Não só isso, o nó servia para ressaltar o corpo e o desejo de quem visse. Parou em frente a cascata artificial. Deixou algumas gotas respingar sobre o corpo e começou a tirar sélfis. Sempre sorridente, um pequeno bico pra sensualizar mais a cena. Peitos erguidos, costas eretas. Tirou uma, duas, dez, cinqüenta fotos com a belíssima piscina desenhada por arquitetos renomados ao fundo. Sentou-se no sofá e foi descartando uma a uma. Até chegar a foto perfeita. Deu um retoque aqui pra apagar a estria, outro ali pra esconder as imperfeições. O sorriso maravilhoso de dentes recém clareados. Postou! Agora era aguardar o número de láiques e os elogios das inimigas e dos homens. Os números de curtidas cresciam como cifras bancárias.

Ela então se lembrou da casa velha. Simples. Um.quintalzico de nada. Usava um maiozinho de bolinhas. Estava com um chapéu colorido na cabeça. Devia ter uns 3 a 4 anos. A mãe resolveu lavar o piso frio da garagem. Era um dia quente. Em meio a água esparramada e o sabão em pó no chão, a mãe lhe pegou pelo corpo e a jogou para escorregar pela garagem. Foi uma sensação incrível. Ela começou a se jogar sozinha e patinar por ali. Logo a mãe veio junto, toda molhada, com um riso do tamanho dum cadillac. É as duas se divertiram feito doidas. Ela viu o pai chegando do trabalho. Encheu um baldinho de água, encondeu- se detrás do muro em cima dum banquinho. O pai entrou na casa e tomou um banho da filha. Olhou meio com raiva, mas ao ver a alegria da menina correu abraçá-la . Logo estavam os três abraçados, gritando de alegria e escorregando pela garagem. Ela voltou à piscina e começou a mexer em todos os arquivos possíveis e imagináveis. Não encontrou. Entrou na casa e buscou no computador do pai. Nada, não havia nenhuma foto daquele dia. Voltou a solidão do quarto, olhou as centenas de láiques pra foto de antes cedo e nem ligou. Encasquetava só o porquê de não ter aquela foto da infância. Não havia porque naquele dia havia algo inexistente na vida dela hoje: felicidade. Não temos tempo de tirar sélfi da felicidade.

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