Carta inédita de Escobar a Capitu

Estes dias deixaram em minha surrada caixa de correio, uma pequena caixa de papelão envolvida naqueles papéis rosa de mercearia barata. Dentro havia uma correspondência antiga tendo como destinatário FREDERICO MORIARTY. Reproduzo-a abaixo e com exclusividade para os leitores do Terceira Margem pelo inestimável valor estórico e por entender ser verídica e autêntica sua origem.

Minha querida Capitu, como estás? Desci as ruas que levam a Matacavalos estes dias, mas por complicações de trabalho não a pude ver. Peço-lhe desculpas. Iria lhe falar sobre algo que me incomoda e exige há dias, assim como César às margens do Rubicão. Não se apresse a pular estas linhas, lhe explicarei em detalhes. Tenho comigo que teu marido e meu sincero amigo – Bentinho -, anda a desconfiar de algo. Sabes da adoração que tenho por vossa senhoria. Sabes também que a tenho como uma das mulheres mais belas do Rio (do Palácio ao Ouvidor). Que lhe elogio em público, é certo. Mas talvez dos 4 bustos que tens em tua sala, o que me cabe atualmente seja o de Nero.

“Nero vê a queima de Roma”: pintura de Carl Theodor Von Piloty (1860)

Lhe darei os detalhes, minha querida, mulher desses olhos faceiros e cristalinos. Outro dia, nos lados do Méier, encontrei nosso Bentinho. Estava diferente. Senti um tom ressabiado nele. Um quê de desconfiança. Mãos que me cumprimentaram com frieza. A cada palavra minha, Bento parecia desconfiar. Quando a citei ele ficou rígido e branco como as colunas dóricas por onde Alexandre passou em sua conquista. Os olhos lhe pegaram fogo. Raiva. Senti-lhe a raiva aflorar. Ao ouvir “Capitu”, ele encerrou nosso encontro. Balbuciou 3 ou 4 palavras e despediu -se de mim. Sem nenhuma afetuosidade. Se não bastasse isso, ao sair às pressas, caiu-lhe um bilhete do bolso esquerdo. “Não foi o Senhor que os fez um só? Portanto, tenham cuidado. Não sejam infiéis à mulher da tua mocidade.” Era a passagem de Malaquias. Àquilo me deixou deveras preocupado. Teria Bentinho desconfiado de nossa intimidade? Ou seria reflexo do dia em que – inconvenientemente, reconheço – coloquei a mão direita sobre a suave saliência do teu ventre. Agora vejo, ele nos olhou naquele dia como se o filho que carregas fosse meu e não dele. Sempre tive que meu amigo fosse inseguro. Creio que Bentinho a tem como Desdêmona. Devemos nos precaver minha querida.
Do teu sempre amigo, Escobar

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