Tentação o ano todo em bares e feiras livres, o pastel vira cabo eleitoral e coprotagonista nestes tempos de eleição pelo país

MARCO MERGUIZZO – Leve, fina e crocante por fora, a massa, bem sequinha e em formato de um envelope estufadinho, costuma abrigar os mais variados ingredientes e recheios, após ser frita em óleo pelando de quente.

Dos tradicionais carne, queijo, palmito e pizza, de longe as versões mais pedidas, aos mais incrementados, como os de camarão, bacalhau ou alcachofra, passando pelo inusitado carne seca com abóbora ou nas versões vegana e sem glúten.

Ou, ainda, os de paladar doce, como o clássico Romeu e Julieta e o irresistível banana com açúcar e canela. Conclusão: não há quem resista à tentação de saborear um bom pastel frito para matar a fome e saciar a vontade em devorá-los nos seus diferentes sabores.

Inspirada nos populares rolinhos primavera ou harumaki, especialidade oriental frita bastante conhecida, e no guioza ou gyoza (que é cozido no vapor e no final levemente frito), ambos de origem chinesa – essa delícia culinária foi recriada e popularizada no Brasil, em meados dos anos 40 do século passado, pelos imigrantes japoneses que desembarcaram no País, durante a 2ª G.G. e no período do pós-guerra.

Rolinhos primavera secundados por guiozas: paternidade chinesa

Espertamente, eles foram os primeiros a divulgar a novidade nas cidades brasileiras ao adaptarem a receita original dos rolinhos primavera e guiozas aos ingredientes que tinham disponíveis à mão no Brasil, substituindo, por exemplo, o saquê, o fermentado japonês feito à base de arroz, pela nossa cachaça, para obter os mesmos efeitos de textura das bolhas e a leveza da massa.

Mais: difundiram a iguaria ao montarem as chamadas “pastelarias chinesas”, visando não apenas ter um ganha-pão certeiro, mas também “disfarçar” a sua nacionalidade, ao se passarem por chineses e assim se livrarem da discriminação e do preconceito que sofriam pelo fato de o Japão ter lutado pelo Eixo ao lado dos alemães contra os Aliados, bloco em que estava o Brasil.

À época, vale aqui o registro, muitos japoneses também passaram a residir na região de Sorocaba, em municípios como Piedade, Mairinque e Ibiúna. Porém, em vez de abrirem pastelarias, eles se dedicaram à agricultura, notabilizando-se pelo desenvolvimento de várias culturas hortifrutigranjeiras.

Ou seja: os japas daqui, com os quais estudei, convivi na infância e na adolescência e me tornei amigo ao longo da vida, eram produtores, criadores, quitandeiros ou feirantes, que por sua vez tiveram filhos e netos que se formaram médicos e engenheiros, mas raramente abraçaram a nobre profissão de confeccionar pastéis como os seus compatriotas de outros lugares do Brasil.

Mais contemporaneamente, os descendentes japoneses, integrados por sanseis e nisseis, foram e são responsáveis, nas últimas décadas, pela explosão e popularização da cozinha japonesa por todo o país, fenômeno gastronômico que incorporou a cozinha do cru e as técnicas saudáveis de cocção do Oriente ao cotidiano do Ocidente e do brasileiro, desde os consumidores mais jovens até as gerações mais conservadoras e resistentes a novidades.

Pastel de queijo: um dos campeões na preferência do brasileiro
Gostoso, barato e pop

Alimento composto por uma massa à base de ovos, farinha de trigo, água, óleo, cachaça e sal, ao pastel se dá a forma de um envelope que, a seguir, é recheado e frito por imersão em óleo fervente. Por ser um alimento saboroso e de fácil preparo, além de barato, o pastel não demorou a cair no gosto popular, ocupando um lugar de destaque no ranking de preferências e no paladar de todo brasileiro, independentemente da classe social.

Quitute popular e obrigatório o ano todo tanto no boteco da esquina quanto em festas de casamento, aniversários e feiras livres por todo o país, essa iguaria da chamada baixa gastronomia também costuma virar figurinha carimbada durante esta época que antecede as eleições, fazendo o papel de “cabo eleitoral” de políticos, que volta e meia são fotografados devorando essas delícias no balcão do bar ou da padaria. E até mesmo sem apreciar muito, como é possível ver, abaixo, nas fotos de alguns políticos, como as do governador João Dória e do ex-presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha, atualmente preso, flagrados mordiscando sem qualquer entusiasmo o pitéu, em eleições passadas.

Pastel sem partido: mordidas públicas na hora do voto (Arquivo)
Brasileirinho de ascendência oriental

Como vimos, o pastel e seus múltiplos recheios são uma invenção brasileira, mais precisamente paulista, graças à maciça imigração de japoneses no Estado ao longo do século 20, mas cuja matriz e paternidade culinárias são os harumakis e os gyozas chineses. Um dos pratos mais consumidos e populares não só no mais populoso país do planeta mas em toda a Ásia, os rolinhos primavera têm como origem a celebração anual de Ano Novo chinês, também chamada de Festival da Primavera.

Os primeiros harumakis continham vegetais frescos da colheita da estação; a carne foi adicionada só posteriormente. A cor dourada da massa e o recheio generoso e opulento simbolizam riqueza e prosperidade. Também originários da culinária chinesa, os guiozas se espalharam pelo Japão a partir do período Edo (1603). Foram tão incorporados à dieta local que muitos acreditam terem sido criados na Terra do Sol Nascente.

Poucos minutinhos em óleo fervente e pronto: resista se puder

Porém, foi só durante a Segunda Guerra Mundial que a iguaria se popularizou no país, quando os soldados japoneses que serviram na Manchúria, região situada no vasto território chinês, consumiam regularmente o prato.

Elaborado com massa fina de farinha de trigo, os guiozas são em geral recheados com carne suína magra e moída (copa lombo), repolho picado e desidratado, nirá (folha verde do alho), gengibre e óleo de gergelim. Preparados no vapor e levemente fritos, são saboreados com molho shoyu (à base de soja, cereais torrados e sal marinho), vinagre e óleo de gergelim.

Modernamente, essas delícias podem conter vários outros recheios, mas os mais tradicionais são feitos de carne suína e vegetais. A massa do guioza se assemelha ao do pastel, porém em vez de fritos, eles são cozidos no vapor e depois passam rapidamente em uma panela com pouquíssimo óleo para formar uma crosta delicada.


Na boca do povo

Vote certo e não fique com cara de pastel

No vácuo da fama do quitute amado por nove entre dez brasileiros também foram criadas ao longo do tempo expressões que se tornaram bastante populares. Caso, por exemplo, de um sujeito “pastel”. Ou de um fulano que fica com “cara de pastel”. E, ainda, o ultraconhecido “pastel de vento”. A primeira referência faz menção à pessoa sem iniciativa, meio tola e vazia por dentro. Já a segunda, também com conotação não muito positiva, refere-se a um indivíduo que fica sem reação diante de um fato qualquer. A última remete ao alimento em si, com pouco ou quase nenhum recheio e ingredientes, ou como afirma a expressão, “recheado de vento”.

Seja qual for o significado e os seus sabores e versões preferidas, muitos vivas a essa gostosa reinvenção brasileira.

E não se esqueça: nas eleições municipais, em 15 de novembro, vote consciente para não ficar com cara de pastel depois.


RECEITA
MASSA DE PASTEL DE FEIRA

(15 unidades)

Pastel feito como antigamente: massa artesanal aberta na mão
INGREDIENTES
  • 3 xícaras de farinha de trigo
  • 1 xícara de água morna (ou um pouco mais)
  • 3 colheres (sopa) de óleo (de soja, milho, girassol ou algodão)
  • 1 colher (sopa) de aguardente
  • 1 colher (sopa) rasa de sal
PREPARO

1) Coloque a farinha misturada com o sal em uma vasilha ou uma mesa e abra um buraco no meio. 2) Nesse buraco, coloque o óleo, a aguardente e um pouco de água. 3) Misture a água e a farinha aos poucos, cada vez pegando um pouco mais de farinha da borda do buraco. 4) Quando a massa estiver ficando dura, coloque mais água até ficar macia. 5) Se estiver um pouco grudenta, não tem problema, basta acrescentar mais farinha. 6) Se estiver dura, adicione mais água. 7) Em uma superfície enfarinhada, abra a massa com o auxílio de um rolo, de forma que ela fique bem fina. 8) Se não ficar fina, ela não fica crocante depois de fritar. 9) Recheie a gosto e feche com um garfo ou com o verso de uma faca. 10) Frite em óleo quente, em fogo médio-alto, e escorra com o auxílio de uma escumadeira, antes de deixar para secar em papel absorvente.

MARCO MERGUIZZO 
é jornalista profissional 
especializado em gastronomia, 
vinhos, viagens e outras 
coisas boas da vida. 
Escreve neste Coletivo 
toda sexta-feira e quando dá na veneta. 
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acessando @marcomerguizzo  

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