Um frade dos sete instrumentos

Geraldo Bonadio

Sorocaba é uma cidade cuja cultura, tanto religiosa como leiga, tem sido fortemente influenciada pela atuação dos frades franciscanos. Eles aqui chegaram há exatamente um século, coisa de que pouca gente – se deixarmos de lado o grande e modestíssimo pesquisador Antonio Fiorotto Filho – se deu conta.

À época, em matéria eclesiástica, ela achava-se subordinada à Diocese de Botucatu, de cujo território o papa Pio XI a destacaria, no princípio da década seguinte, para criar a Diocese aqui sediada, cujos limites chegariam até a fronteira com o Paraná, abrangendo as atuais dioceses de Itapetininga e Itapeva que, adiante, dela se originariam.

Em aqui chegando, os franciscanos assumiram o cuidado de grande parte da população católica residente fora da jurisdição da Paróquia de Nossa Senhora da Ponte, ou seja, grande parcela da então vastíssima zona rural do município e um grande pedaço do que se conhecida como Vila Santana.

Um frade franciscano oficiou o casamento de meus pais – Emílio Bonadio e Maria de Lourdes que, em solteira, se chamava Garcia –, na capela da Fazenda Pinheiro, pertencente ao empresário Paulo Pereira Inácio. Outro, na mesma capela, me batizou.

Em que pese o longo convívio com a Ordem dos Frades Menores, pouca gente na cidade ouviu falar de um seu integrante muito ilustre atuante: Frei Pedro Sinzing (1876/1952), o que se explica porque ele, nascido na cidade renana de Linz, veio para o Brasil com 17 anos, naturalizou-se aos 23, trabalhou sucessivamente, em Salvador (BA), Lajes (SC), Rio de Janeiro e Petrópolis (RJ), mas talvez nunca tenha andado por aqui.

Entretanto, foi, com um colega seu de ordem, o frade Basílio Rower, autor de um pequeno livro que foi vendido no adro da velha Igreja de Santa Rita, na Vila Santana, durante todo o tempo em que a capela e depois paróquia foi administrada pelos franciscanos.

O livro se chamava Cecília e era um manual com a letra de um número enorme de hinos a serem cantados em uníssono (uma só voz) nas celebrações religiosas. Como não trazia a partitura, era mais conhecido como o Texto.

Também praticamente não existe católico que não tenha cantado a versão de frei Pedro para a letra de Noite Feliz, canção de natal composta por dois autores austríacos, o padre Joseph Morh e o músico Franz Gruber. Sim, é aquela letra que assim começa: “O Senhor, Deus de amor, pobrezinho nasceu em Belém…”Sinzig foi, literalmente, um frade dos sete instrumentos.

Começou como jornalista em Lajes, cidade onde, em 1902, criou o jornal Cruzeiro do Sul – com o mesmo título do que circula em Sorocaba, só que fundado um ano antes. A folha bateu de frente com a maçonaria daquela cidade que, mexendo os pauzinhos, conseguiu que a circulação do jornal fosse suspensa e o frade “exportado” para o Rio de Janeiro.

A transferência, da qual volto a falar adiante, foi um ganho enorme para a cultura musical do Brasil. Em 1938, frei Pedro ali publicou “O Brasil cantando”, uma enorme coleção de canções folclóricas e populares, entre as quais aquela dedicada à Primavera, que muita gente das gerações mais velhas aprendeu nos tempos em que, nas escolas públicas do Brasil, os alunos, entre outras coisas, aprendiam a cantar.

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