Noturno em Catanduva

Rubens Nogueira

Aquele meu amigo de uma vida inteira era um romântico igualzinho a mim. Estávamos na faixa dos 20 anos. Impossível dizer não a um projeto dele.

A moça estudava no colégio de freiras e ele a paquerava. Ela, porém, tinha namorado. Daí ele inventar eventos e ir falar com as freiras na hora da saída das alunas.

Quando chegavam as férias, ela ia para casa de parentes na cidade de Catanduva.

(De trem pela Estrada de Ferro Paulista cuja linda estação incendiou-se várias vezes, as duas últimas já como Museu das Letras. É um belo edifício, com um enorme relógio de quatro faces na torre. Fica bem no antigo centro de São Paulo, vizinha da Estrada de Ferro Sorocabana, cuja estação é uma luxuosa sala de música.)

Voltando ao assunto de hoje: o meu amigo cismou de ir até Catanduva e me convidou. Era uma aventura que me animava. Aceitei.

Ele cuidou dos documentos para que a viagem não exigisse dinheiro: o passe de um aposentado. Naqueles tempos os ferroviários e parentes podiam viajar de graça até morrerem. Ele ficou com o documento certo. O meu era uma cópia falsificada.

Mas tudo correu bem. O cobrador teve compaixão daqueles dois meninos. Difícil foi na escuridão da noite encontrar a casa dos parentes da moça. E ter a cara de pau de pedir um copo d’água, quando ela abriu a porta, espantada com a audácia, porém lisonjeada como mulher.

Por que esse episódio de 80 anos atrás me voltou em uma noite de insônia, não sei explicar.

Imagem de Andy Leung do Pixabay 

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