A história de uma canção

José Carlos Fineis

A TV deu a notícia do atentado num desses boletins extraordinários. Tomado por um turbilhão de sentimentos em que se misturavam tristeza, revolta e indignação, apanhei o violão, um caderno, uma caneta e, cantarolando baixinho, criei “Minha Terra” em poucas horas.

Márcia Mah, essa cantora fabulosa, me concedeu uma grande honra ao interpretar uma canção composta por mim, chamada “Minha Terra”, na live promovida pelo Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba e Região (SMetal) na noite de 8 de outubro.

Márcia não deixa morrer essa canção e, com ela, a memória de que um dia, quando muito jovem, fui compositor popular – não sei se bom, mas dedicado. Daqueles que levam a música tão a sério a ponto de fazer mais canções pela metade, abandonadas por não serem boas o bastante, do que inteiras.

Com “Minha Terra”, integrei o grupo de compositores selecionados por Márcia para figurar em seu CD “Apanhado”, de 2001 – ao lado de pessoas admiráveis como o lendário Nilson Lombardi, Eraldo Basso e outros artistas que admiro.

Neste vídeo, Márcia Mah interpreta a canção acompanhada pelo querido Álvaro Mestre Ramos e Henrique Pazetti nas violas.

Sei que sou suspeito pra falar, mas achei lindo o resultado.

Como nasceu a canção

“Minha Terra” é a única canção, das cerca de 30 que compus em toda a vida, que sou capaz de dizer exatamente quando e em que circunstâncias foi concebida. Ela nasceu no dia 27 de agosto de 1980.

Eu tinha 17 anos e vivia com o violão pra cima e pra baixo. Fazia dupla com o Celso Magrão (Celso Diniz de Oliveira) em pocket shows nas escolas e, mesmo sem saber muitos acordes, como muitos de minha geração me atrevia a compor.

O 27 de agosto de 1980 ficou inscrito como um dos dias mais tristes e indignos da história brasileira. Foi o dia do atentado covarde e assassino à sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Rio de Janeiro.

Uma carta-bomba destinada ao presidente da OAB, cuja autoria jamais ficou esclarecida, mas que comumente é atribuída a setores de extrema-direita descontentes com a abertura política, explodiu nas mãos da chefe da secretaria da entidade, dona Lyda Monteiro da Silva.

O escritório ficou destruído e Dona Lyda, de 59 anos, sobreviveu apenas por alguns instantes aos terríveis ferimentos.

Na verdade, um lamento

A TV deu a notícia do atentado num desses boletins extraordinários. Tomado por um turbilhão de sentimentos em que se misturavam tristeza, revolta e indignação, apanhei o violão, um caderno, uma caneta e, cantarolando baixinho, criei “Minha Terra” em poucas horas.

Acorde por acorde, verso por verso, a canção foi escrita inteira, assim como é hoje, numa única pegada, sem titubeios, como se já existisse em forma e conteúdo em algum lugar do meu cérebro.

Nessa época eu ouvia muito Elomar e Décio Marques e certamente o estilo desses violeiros me influenciou bastante.

Intuitivamente, reproduzi no violão, com alguns dos acordes em Sol maior de “Blackbird”, de Lennon-McCartney, o equivalente a um ponteado de viola. Uma melodia em que breves silêncios, de certa forma, complementam os acordes.

Essa é a história de “Minha Terra”, uma das poucas composições que não esqueci ou reneguei, e que não tenho vergonha de mostrar. Uma canção triste – na verdade, um lamento –, que completou 40 anos em agosto deste ano e que, tragicamente para nós, brasileiros, depois de tantas idas e vindas, continua atual.

Minha Terra

Os heróis da minha terra não têm nome
Nem medalhas pra encobrir suas feridas
Os seus atos de bravura desmedida
Nunca avançam muito além das suas vidas

Minha terra não dá vez a sonhadores
Nem aos homens que procuram a liberdade
Vive bem quem fecha os olhos à violência
Vive bem quem faz na dor a penitência
Eu sei
Mas coitado de quem gosta da verdade

O poeta que segura na viola
Já não tem motivo forte pra cantar
E o peão que ganha a vida atrás da enxada
Vê que as mãos tão cada vez mais calejadas
Eu sei
E não tem uma casinha pra morar

Passarinho, já cortaram suas penas
De que serve um céu azul pra não voar?

Passarinho, já cortaram suas penas
De que serve um céu azul pra não voar?

Foto principal: escritório da OAB/RJ após o atentado a bomba que matou a secretária da entidade, dona Lyda Monteiro

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