Pé-de-boi ou cabeça-de-bagre?

Geraldo Bonadio


Grande parte da ocupação do território brasileiro, nos sertões cortados pelo rio São Francisco, ou nas terras do sul, se fez através da pecuária bovina extensiva. No que é hoje o Rio Grande do Sul, após o ataque às reduções jesuíticas por bandeirantes paulistas, os rebanhos ali criados se asselvajaram e deram origem, em sua porção nordeste, às Vacarias dos Pinhais, cujo centro era o território do atual município de Vacaria.

Após a fundação do povoado de Piratininga, os caminhos que o ligavam a Curitiba deram origem a grandes propriedades dedicadas à criação de bovinos. Quando, na terceira década do século XVIII, Cristóvão Pereira de Abreu, retificando e melhorando o caminho aberto por Souza Faria, interliga, pelo interior, o litoral catarinense com o que hoje é o Estado de São Paulo, só precisou rasgá-lo até a atual capital do Paraná. Dali em diante os sucessivos criatórios compunham uma precária ligação com o sul paulista.

Das muitas e diferentes regiões do Brasil, existe uma – a mais extensa de todas – que decididamente não se presta a esse tipo de ocupação. É a Amazônia, cujas terras, quando convertidas em pastagens, rapidamente se esgotaram, transformando-se em areões inférteis, sem gramíneas e sem árvores. Todas as tentativas de ocupação e exploração daquelas áreas baseadas na pata de boi, a contar da ditadura militar, fracassaram.

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, recebeu esta semana do presidente Jair Messias Bolsonaro, mais precisamente nesta quinta-feira (22/10), uma honraria por “serviços meritórios e virtudes cívicas”. Em cerimônia no Ministério das Relações Exteriores, em Brasília, ele foi condecorado com a Grã-Cruz da Ordem de Rio Branco.

Esse dado, ao que tudo indica, só é ignorado por uma pessoa: o meio ministro do Ambiente, Ricardo Salles. Com seu vocabulário centrado em figuras da bovinocultura e sua ânsia em fazer passar as boiadas destruidoras de tudo aquilo que ele é pago para proteger, Salles sonha tornar-se figura prestigiada pela escória amazônica: grileiros de terras públicas, mandantes de tocaias contra lideranças indígenas, garimpeiros e desmatadores ilegais, incendiários da cobertura florestal.

Imagina-se um pé-de-boi, submisso e esforçado, a serviço das ambições rasteiras que só podem se concretizar com a Amazônia convertida em deserto. Até agora, entretanto, só mostrou competência para ser um cabeça-de-bagre.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: