Hoje, entrevista do mês: Alcir Pécora

Cervantes, talvez

Eu gosto de contar histórias de Hilda Hilst. Ela era muito amiga do meu amigo Alcir Pécora. Uma vez ele me contou o seguinte: o telefone tocou na casa dele era mais ou menos meia-noite. Ele reconheceu a voz e perguntou: o que houve, Hilda? Ela disse: Alcir, eu estou vendo Camões na parede…

Pílula do dia

Folhas de Relva, de Walt Whitman

Walt Whitman, poeta (1819-1892). Foi, para muitos, o poeta da revolução americana. Ele mesmo disse que ninguém vai entender seus versos, se quiser interpretá-los como performances literárias. Entre um cheiro de tinta e de cigarro – disse Jorge Luis Borges – toma e não diz a ninguém a infinita decisão de ser todos os homens e de escrever um livro que seja todos. Sim, poeta, nos estremecemos maravilhados a cada página de seu Folhas de Relva. Sim: você não fez poemas referentes às partes, mas fez poemas, canções e pensamentos, referentes ao todo.

Trechos do livro:

Você é a nova pessoa que se aproxima de mim? Para começar com uma advertência, sou definitivamente muito diferente do que você imagina; imagina que encontrará em mim um ideal? Pensa que seja fácil eu me tornar seu amante? Pensa que minha amizade possa ser de uma satisfação imaculada? Pensa que sou confiável e fiel? Que vê mais do que esta fachada e essas minhas suaves e delicadas maneiras? Imagina-se avançando com firmeza de encontro a um homem realmente heroico? Não lhe correu ó sonhador que todas essas coisas possam ser apenas maya, ilusão?

Entrevista do mês: Alcir Pécora

Reprodução YouTube

(Crítico Literário, professor livre-docente da Universidade Estadual de Campinas – Unicamp. Editou e organizou as obras completas de Hilda Hilst, Roberto Piva e Plínio Marcos. Autor de Teatro do Sacramento e Máquina de gêneros, entre outros. Organizou os Escritos Históricos e Políticos de Padre Vieira e os Sermões I e II).

Evandro Affonso Ferreira – Morte… E a morte? Provoca-lhe estupores, medo? Ou é apenas vazio definitivo depois dessas infindáveis lacunas vida afora?
Alcir Pécora – Na minha idade, a morte já não é apenas uma ideia ou uma questão metafísica, mas a evidência cada vez mais intensa da fragilidade do corpo e da dor absolutamente física. Assim, ela assusta obviamente, mas traz consigo um contrapasso que, por vezes, alivia um pouco do próprio medo que causa, ao assinalar que, afinal, mesmo o sofrimento e a dor têm um fim.

Evandro – Deus… Que diabo é isso?
Alcir –Bem ao contrário da maioria que diz ter crença ou um tipo de relação com Deus, independentemente de qualquer religião, eu só tenho interesse pelas diversas Igrejas concebidas historicamente, intelectualmente, artisticamente. Em particular, interessa-me o legado cultural da Igreja Católica, concebida seja em termos teóricos e místicos, por meio das obras dos Padres da Igreja, dos Escolásticos, dos pregadores etc., seja como patrimônio artístico, de que é o mais importante comitente na história. Quanto a Deus, fora do pensamento filosófico e das obras de arte, não me parece que mereça a menor crença ou confiança.

Evandro – Viver? É trabalho de Sísifo? Henry James Costumava dizer que a vida é irônica: quando começamos a aprender alguma coisa… morremos. Hem? Vida depois da morte, bem, temos lá nossas dúvidas… E antes, existe?
Alcir – Concordo que viver não ensina muito, mas pela razão de que sempre se chega pela primeira vez a uma nova idade, como dizia La Rochefoucauld, e então não se sabe bem como agir diante dela. Agora, por exemplo, quando chego aos 62 anos, não tenho ideia do que isso possa trazer para mim. Por isso resisto a introduzir mais uma novidade em minha vida, como seria a de me aposentar. O que parece descanso visto de longe, pode ser um inferno vivido de perto.
Já a vida depois da morte só me parece provável na forma de adubo. Os corpos em putrefação são cheios de vida, como observou muito agudamente Bataille.

Evandro – Literatura… A literatura contemporânea teria a mesma serventia de pião sem fieira, faca sem lâmina, assim por diante?
Alcir – A literatura contemporânea perdeu centralidade na cultura, a despeito de si e dos seus autores. No universo do provisório, que é o nosso, tudo é instrumental, precário, imediatista, e a literatura, ao menos aquela que conhecíamos, operava num registro de longa duração, senão de transcendência. Assim, a ideia de literatura reduziu-se a instrumento de reivindicação política e de direitos, ou de simples ocasião de entretenimento. Nos dois casos, a coisa é ligeira demais para se sustentar como ideia autônoma ou como um campo superior das práticas sociais.

Evandro – O que significa para você debruçar-se quase três décadas sobre a obra do magistral escritor-pensador Padre Vieira?
Alcir – Mais de três décadas, pois comecei a estudar Vieira em 1980. Quase 40 anos depois, ainda vibro de reler alguns dos seus sermões, embora já não me preocupe em formular uma teoria nova sobre eles. O que tinha de dizer a respeito deles, consegui dizer, e basta. Então, não penso propriamente nas décadas de estudo, mas sei bem que o que me tornei ao longo dos anos, ao menos em parte, foi efeito das leituras vieirianas que fiz.

Evandro – Em todos os lugares, todos os cantos de todos os segmentos profissionais existem almas pequenas. Mesmo assim, a Academia vale-valeu a pena?
Alcir – Sim, muito. A Universidade pública paulista tem um nível razoável em termos internacionais e excelente em termos nacionais. É o melhor lugar para um espírito de porco como eu estar: onde mais lhe pagariam para criticar o Estado, ou quem quer que fosse, sem colocar em risco o próprio emprego? Além disso, a convivência com os alunos, a descoberta das novas preocupações advindas com cada geração, tudo isso é muito rico intelectualmente e ajuda a organizar os estudos. O pior da vida acadêmica é lidar com a burocracia administrativa e sua contrapartida de perda de tempo, mas mesmo ela tem alguma razão de ser, enquanto formulação de regras gerais institucionais, que protegem a Universidade do personalismo e o casuísmo.

Evandro – Suicídio… Novalis disse que o verdadeiro ato filosófico é o suicídio e que este é o verdadeiro início de toda a filosofia. Camus disse algo parecido, parecidíssimo – mais de cem anos depois. O que lhe causa mais estranheza: alguém se matar, ou um artista surrupiar o outro?
Alcir – Um artista surrupiar o outro é absolutamente normal, pois a arte vive do novo e o novo só se determina pelo legado cultural. Quem não encontra alguma interlocução com esse legado cultural não tem base para criar o novo. Um artista que não quisesse nada de ninguém possivelmente seria pior que o primeiro deles.
O suicídio é uma escolha definitiva: um ato que impossibilita todos os outros. Enquanto gesto extremo produz uma aporia análoga à que está na base de todos os grandes questionamentos. O que não estranha, perturba, desfamiliariza tampouco incita o pensamento ou a literatura.

Evandro – Mandelstam, como sabemos, foi morto por Stálin. Contam que o poeta russo, para esperar a execução, ficava horas seguidas declamando de cor trechos da Divina Comédia. E você? Hem? No lugar dele? Eu? Declamaria de cor nada-ninguém: memória em frangalhos vida toda.
Alcir – Eu sou muito impaciente. Morria antes de ansiedade. Mas acho que a escolha da Commedia como última leitura é muito bem escolhida, muito criteriosa. Talvez seja o livro mais importante da cultura ocidental.

Evandro – Não tenho certeza se foi Gautier… Michaux… Li em algum lugar… Um deles disse que tinha um amigo que era mestre em arrombar portas abertas. Lembrei-me de Sócrates quando este afirmou que nenhuma cidade vai dar certo: toda cidade são duas cidades – a pobre e a rica. Você acha que há possibilidade do mundo, um dia, ser mais (como direi?) equânime?
Alcir – A possibilidade existe, sim, pois a esperança radical vive de resultados improváveis.

Evandro – Você organizou a obra de Hilda Hilst, Roberto Piva e Plinio Marcos. Os três são raios do mesmo sol, folhas do mesmo galho? Ou, cada qual é, digamos, vinho da própria pipa?
Alcir – Os três são figuras excessivas e indigestas ao convívio social, pessoas que, mortas, são mais facilmente toleradas ou admirados do que quando vivas. Além disso, em primeiríssimo lugar, são autores de obras importantes e originais no âmbito da cultura brasileira. Dito isso, cada qual tem um caráter literário e libertário próprio: Plínio Marcos é um palhaço emputecido; Piva, um modernista lisérgico; Hilda, uma espécie de sacerdotisa à caça de um Deus pequeno, sujo e perverso.

Evandro – Uma vez você comentou comigo que o autor seria a pessoa menos indicada para falar da própria obra – ou qualquer coisa deste naipe, não me lembro bem. Explique-se melhor, por favor, meu amigo. (Eu, por exemplo, não sou capaz de explicar nem mesmo o primeiro parágrafo de qualquer livro que escrevi).
Alcir – Acho que as razões que movem o autor a escrever raramente explicam a força ou a atração de seus escritos sobre nós. Por exemplo: Vieira escrevia porque achava que o rei de Portugal devia ser o imperador do mundo. Você faz questão que seja assim? Eu, não. A história fez questão de desmenti-lo tim-tim por tim-tim. Ou seja, o que interessa ao leitor é a forma única que foi (ou resultou) escrita, vale dizer, a forma dos sermões. O que a motivou ou a interpretação que lhe dá o autor nem sempre diz respeito a isso.

Algumas obras de minha autoria

Foto principal

(As fotos que abrem este blog pertencem ao meu futuro livro, Ruínas. Passei um ano fotografando paredes carcomidas pelos becos, veredas, ruas do centro, e de alguns bairros paulistanos).

As imagens apresentam uma concretude pobre e miserável, de ruína mesmo, que na sua própria deterioração encontra rasgos inesperados de um refinado expressionismo abstrato – força das paredes arruinadas e das tintas expressivas do tempo. (Alcir Pécora)

Capa: Marcelo Girard


Um comentário em “Hoje, entrevista do mês: Alcir Pécora

Adicione o seu

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: