A viagem de Kafka pelo Rio de Janeiro

FRDERICO MORIARTY – Tive acesso a uma dissertação de Mestrado da UERJ. Trata-se de um estudo sobre o carnaval carioca dos anos 20.Existe uma longa passagem, desconhecida por biógrafos e estudiosos, da estadia de um famoso escritor no Rio de Janeiro. Apresento-lhes em primeira mão:

Franz encontrava-se bastante doente em 1924. O médico, ciente da tendência suicida do paciente, recomenda férias num ambiente físico e cultural distinto:Vá para o Rio de Janeiro.

– Brasil? o que farei naquele país distante e primitivo.

– Passe uns dias por lá. O clima quente, a paisagem exuberante serão um contraponto a essa atmosfera cinza e sombria daqui.

– Pois é exatamente isto que me agrada em Baviera.

Franz saiu do consultório reticente. Pisava descuidado pelas calçadas vazias e sujas da cidade. Decidiu aceitar a proposta. Quem sabe em meio à selva conseguisse escrever uns 3 contos que não lhe saíam da cabeça.
Teve coragem para enfrentar o pai e pediu-lhe um empréstimo para as despesas de viagem. O medo daquele homem frio e distante permanecia. O pai pareceu fitar-lhe com o desprezo usual e mesmo assim abriu a velha gaveta da loja e lhe passou um grande maço de marcos. Franz agradeceu e se despediu. Dois estranhos.
Dias depois descia no Rio de Janeiro. Assustou-se com o tamanho da cidade. Irritou-se com as cores vibrantes por todos os lados. Aquele povo esquisito se vestia com trajes coloridos e carregavam um sorriso nos lábios. Estranhos. Franz desceu num hotel que Ottla explicou ter o nome de “glória”. Otimismo juvenil naquela terra sem cultura, ele pensou.

– Boa tarde seu Franz. Num alemão forçado.

– Boa tarde. Pode me dar as chaves do quarto e pedir por favor para que ninguém me atrapalhe ou faça barulho. Estarei trabalhando.

– Certo, seu Franz. Mas é carnaval…

Ele recebeu a sugestão com desconhecimento. Olhou para o gerente e o viu com os bracinhos curtos que dançavam sobre um paletó marrom segurando as chaves do quarto. Pensou em Samsa imediatamente. Subiu as escadarias do hotel, com um tapete de horríveis flores e arabescos vermelhos, laranjas e muitos detalhes dourados.
Fechou-se num quarto de número 26. Havia uma cama de ferros no meio do ambiente, um armário imenso de madeira à direita e uma pequena escrivaninha com um espelho ao centro colocada na parede oposta à cabeceira da cama. Ao lado direito uma janela. Franz começou a desembestar a tossir. Foi até a janela e começou a fechar as cortinas de cor rubra. Subiu-lhe aos ouvidos um batuque distinto, uma gritaria em algazarra, tiros de pólvora e muita luz vindo da rua. Aos poucos ele avistou um cortejo dançando e cantando vindo em direção ao hotel. Cerrou as cortinas, mas o barulho cresceu. Sentou-se de forma metódica na cadeira e pos-se a escrever “ Cara Melinda…”. E o som era ensurdecedor. Torturava os ouvidos de Franz. Ele tirou o relógio do bolso. Conferiu-o 20, 30 e 50 minutos depois. O barulho não parava. Franz passou a maldizer o médico. Resolveu descer as escadarias do hotel. Iria reclamar com o gerente.

– Esse barulho – e no saguão o corpo de Franz tremia em meio à batucada.

– É nosso carnaval seu Franz.

– Demora a acabar?

– Quatro dias…

Cordão do Bola Preta 1924

Franz desesperou-se. Nessa hora entraram dois sambistas e três mulheres fantasiadas. Todos numa alegria sem fim. Franz ttraçou um veredito de um a um. Mas eis que na segunda mulher ele paralisou. Era uma mulher de pele escura que brilhava naturalmente. Estava com uma bermuda um pouco acima do joelho e equilibrava as pernas sobre saltos bem finos. A cintura era visível, torneada, volumosa.Sobre os seios fartos cobriam-se apenas uma parte. Franz viu a boca ardente daquela mulher. Os cabelos longos, enrolados que ele jamais vira em outra mulher. Movimentava o corpo o tempo todo e Franz notou que havia uma sincronia entre os passos daquela deusa e a música tocada pelos sambistas. A estupefacção dele chamou a atenção do grupo.

– O alemão gamou na Maria Rita!
Ela simpatizou com Franz. Acelerou os passos e começou a requebrar com os olhos no alemão. O grupo conversou com o gerente mais um pouco e – dirigiram se para a saída. O líder do grupo virou sorrindo para Franz.

– Venha conosco, Alemão !
Maria Rita o convidou com os olhos. Franz tímido, rejeitou.O grupo saiu cantando e dançando. Por horas a cantoria continuou. Mas ele esqueceu-se da iirritação. No quarto só havia espaço para a mulher de ébano.
No dia seguinte, Franz desceu para o saguão ao ouvir a primeira batucada. Sentou-se no sofá de couro escuro. Em pouco tempo a comitiva do dia anterior entrou no hotel.

– Alemão!!!
Era Toninho, o líder dos sambistas. Franz se desesperou ao não ver Maria Rita.

– Calma Alemão, ela está vindo…disse Toninho
Ao Maria Rita entrar no hotel, Franz levantou-se.

– Vou com vocês!
Toninho tirou-lhe a gravata borboleta, o paletó e desabotoou-lhe a camisa. Olhou para Franz e aprovou. Saíram pelas ruas do Rio

À mesma hora do segundo dia, Franz os aguardava. Descobriu que os brasileiros são impontuais. Atrasaram 43 minutos. Mas tudo mudou quando Maria Rita entrou de roupas da cor esmeralda. Franz já estava de blusa desabotoada.

– Tá pensando o que, Alemão?! Feio assim…
Levou Franz ao banheiro. Deu-lhe as alpargatas para os pés, a calça branca e uma camisa listrada azul e branca.

– Veste isso, Alemão.
Ao entrar no saguão, Maria Rita se encantou com o alemão de marinheiro. Deu-lhe um beijo no rosto. E saíram pelas ruas do Rio.
No quarto dia o marinheiro e sua deusa trocaram beijos de amor. Franz aprendeu até a cantar algumas músicas. A vida podia ser boa, ele pensou. .
No quinto dia o levaram à igreja, depois tomar umas cervejas. Franz só queria se enroscar nos braços de Maria Rita.
No sexto dia Franz acompanhou-os numa roda de samba no Olaria. O alemão virou destaque. Subiu no palco e ameaçou uns passos com Maria.
No sétimo dia Franz foi levado à praia.

– Alemão do céu, como você é branco! Toninho Morria de rir com o amigo.
À noite Franz não dormiu no hotel. Terminou a noite nos braços de Maria Rita.

No oitavo dia Toninho veio com mais 3 amigos. Todis vestiam uma camisa branca, com uma faixa preta diagonal e a cruz de Malta no peito. Deu uma para Franz vestir.

– Alemão, vamos ao futebol. Hoje você vai conhecer o time da terra, o Vasco da Gama… percebeu a tensão de Franz…Calma amigo, depois deixamos você na casa de Maria Rita.
Franz aceitou. Sentou-se em São Januário, viu gols do Vasco. Foi abraçado e beijado com paixão por Toninho e os amigos a cada gol e quando o jogo terminou. Acabou a noite no quarto quente e vibrante de Maria Rita.

O ‘ scretch’ do Vasco em 1924


No nono e último dia ele teve de voltar ao quarto. Maria Rita fora embora cedo. Triste. Chorosa. Sabendo que jamais veria seu Franzinho outra vez. Franz sentou-se no banco. O caderno aberto trazia “ Cara Melinda…”. Franz rasgou o papel e ficou horas pensando e não conseguiu colocar nada no papel. Mais uma vez fracassara. Acordou cedo, colocou o terno escuro, a gravata borboleta escura. Vestiu-se de Boêmio mais uma vez. Tirou do bolso o lenço colorido com o perfume de Maria Rita e colocou no bolso em destaque. Desceu ao saguão. O gerente abraçou-o efusivamente.

– Volte sempre!! O Rio sempre o receberá de braços abertos, Alemão.
Franz pegou um táxi e viu o Céu cinza do Rio. As calçadas escuras. No aeroporto só enxergava as pessoas sorumbáticas. Sentou-se na sala de espera desanimado. Ouviu um grito.

– Ô Alemão!
Virou -se e viu Toninho, os vascaínos, meia dúzia de sambistas que fez amizade, as amigas de Maria Rita e, claro, sua deusa negra. Sorrindo como um arco-íris. O grupo trouxera instrumentos de batuque e improvisaram o samba do alemão – letra do Toninho, ele soube a seguir. Havia ainda uma faixa com dizeres de amizade, amor, volte logo, assinado por todos. O grupo fez um círculo em volta dele. Trocou o mais quente dos beijos com Maria Rita. Logo depois lhe deram um abraço coletivo. Franz chorou, pela primeira vez na vida, de alegria. Deu o último beijo na amada e partiu de volta à Europa.

Maria Rita num carnaval de 1950, ainda bela.


Desceu num dia frio, chuvoso, as pessoas desanimadas e solitárias andando pelo aeroporto. Todos vestindo as mesmas roupas escuras. Todos com desesperança nos olhos. Sentou-se numa cadeira do saguão, tirou o papel e a caneta e escreveu:
Querido Max, meu último pedido: “Tudo que eu deixo para trás… na forma de diários, manuscritos, cartas (minhas e de outras pessoas), esboços, e assim por diante, deve ser queimado sem ser lido”

F.Kafka

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