Flashdance: a leveza da dança e os nervos de aço numa linda história de amor

FREDERICO MORIARTY – Alex ( Jennifer Beals) está sentada descansando no canteiro da fábrica. Nick ( Michael Noure) é o patrão e o galanteador.

” Então você trabalha nas minas durante o dia e a noite é dançarina. Por que isso?”

” Uma garota de 18 anos precisa trabalhar “

O primeiro diálogo entre o casal central de Flashdance prenuncia a trama. Alex é aço e seda. Idealista, sonhadora, batalhadora e incansável. Trabalha na fábrica durante o dia, atravessa a capital do aço Pittsburgh de bicicleta, vai à academia, faz performances num bar à noite e ainda ensaia ballet antes de dormir. Meiga e explosiva. Sedutora e carente. Ela é o oposto de Nick. Ele é refinado, romântico, super-protetor. Inclua-se ai a idade. Nick tem 36, o dobro de Alex. Ele é o dono da mineradora de aço; ela a operária. Patrono das artes; ela dançarina. Ele tem um Porsche conversível; Alex uma Caloi 10. Ela quer viver e sonhar; ele é o divorciado solitário. É o velho: os opostos se atraem. E funciona.

Flashdance reinventou os musicais. Adrien Lyne, o diretor, veio da publicidade. Fez história com uma trilogia imprevisível: 9 Semanas e meia de amor (artigo em breve no blog), Atração Fatal e Flashdance ( o melhor dos 3). Nos musicais tradicionais as personagens param de dialogar e põe -se a cantar. A música conta a história. Lyne trouxe a linguagem dos clipes. A música existe para potencializar as personagens. Também não é o clichê ” coloca uma música romântica ao fundo que o casal vai se beijar”. Em Flashdance a música completa, complementa e adianta a trama. What a feeling de Irene Cara ( vencedora do Oscar) traduz os desejos de sonhar e vencer de Alex. Primeiro ela aparece como letra e ao final é o ritmo crescente e intenso que permitirá Alex se apresentar à Academia. Noutra cena/ videoclipe vemos os garotos de rua dançando break sobre os olhares maravilhados de Alex. Na apresentação final ela encerra com um giro do break. Ela viu, gostou, aprendeu e expôs. Interessante que na rua a gente fica esperando o momento em que Alex se juntará aos garotos, mas não acontece. Lyne adotou a ” fast forward”. O cineasta adianta a cena futura de forma sutil, como se nos avisasse ” espere que vou utilizar isso no momento certo”. Não é só um clipe, é parte da narrativa.

Ao contrário do que se espera, é a garota sem freios que irá moldar o homem de negócios. Nick vai deixando o aço de lado e adquire a leveza da seda de Alex. Revela o abandono dos sonhos, o casamento fracassado, o passado de dificuldades. Num certo sentido Nick foi como Alex. E coube a ela tirar-lhe a máscara. Afinal quem se fantasiava na vida era ele. Lyne dá um soco no estômago dos “mais velhos”. John que fez negócios escusos com Nick na juventude, é um cafetão. O dono do bar onde Alex dança só demonstra sua verdade na festa à fantasia. A ex-esposa de Nick é amarga. O pai da amiga Julianne é um velho ranzinza que menospreza a filha. Hannah, a decana professora de ballet, vive na fantasia da glória que nunca teve. Os julgadores da apresentação parecem saídos dum filme de Fellini. Mas a mais amargurada e depressiva de todas é a bailarina trintona que só consegue despejar sarcasmo nas pessoas. Todos os jovens são sonhadores e tentam vencer. Fracassam como o cozinheiro Jimmy e a amiga patinadora, mas jamais perdem o bom humor e a chama. O filme não cai na armadilha de que nos Estados Unidos basta querer e sonhar que você irá vencer.

Grunt e Alex

Alex e Nick protagonizam uma belíssima história de amor com todos os ingredientes: conhecer, apaixonar-se, amar, ter um conflito, perdoar, um novo conflito mais grave e a reconciliação. O conflito veio no ciúme de Alex em relação à ex-esposa. O perdão e a vingança vem no jantar em que Alex abusa da sensualidade. O novo conflito vem no momento em que Nick tenta ser “pai” e consegue um teste para Alex. O novo perdão veio com a ida de Alex ao teste mesmo diante do erro do namorado, afinal o sonho de fazer academia de ballet para uma garota que jamais pode estudar dança era maior do que o conflito amoroso. Alex sente isso com a morte da solitária e esquecida Hannah. Não se pode desistir de nós mesmos.

A cena da apresentação é uma das mais imitadas do cinema. Já vimos propagandas, outros filmes, paródias, desenhos ( até o Snoopy tem o seu Flashdance) e videoclipes copiando a dança, os passos, o nervosismo inicial de Alex e a empolgação dos julgadores. Poucos sabem que Jennifer Beals precisou de duas dublês nas cenas de dança e um terceiro nos saltos e no break ( este feito por um bailarino).

A gente entra no cinema para ver uma história bem contada. Alex é a menina pobre, apesar de ter 18 anos tem 2 empregos ( paradoxais pois o primeiro é do “mundo masculino”, uma soldadora numa mineradora; o outro é a dançarina sexy). Luta por sua independência e pelo sonho de.ser bailarina sem nunca ter oportunidade de estudar como as ricas meninas pobres e seus sapatos e pés perfeitos ( vide a cena da primeira tentativa de inscrição). Alex é a deslumbrante patinho feio que vence pelas suas virtudes. Nick é apenas um homem rico e bem sucedido. Quase um coadjuvante na história de Alex. Mas ele é apaixonado e sendo assim, se o filme for uma história de amor, que tenha um final feliz. Nossa vida é muito desorientada e repleta de desencontros para a vermos repetida num canto escuro de lazer como é a sala de cinema. Este é o motivo do porque choro bastante toda vez que vejo Alex sair eufórica da Academia de Artes e encontrar um apaixonado Nick a aguardando do lado de fora, com um lindo buquê de rosas vermelhas e um dos mais simpáticos cachorros do cinema com um laço vermelho no pescoco. Shakespeare disse que somos feitos da mesma matéria dos sonhos. Flashdance fez milhões de mulheres sonhar. E nós, homens, a respeitar e comemorar os sonhos alheios, espectadores atentos e românticos.

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