Hoje, entrevista com Irineu Franco Perpétuo

Manifestação de um desejo

Evandro Affonso Ferreira

Eu costumo dizer que existe autoajuda de alto nível e autoajuda de baixo nível. A historinha que vou contar pra vocês é autoajuda de alto nível. Digo isto porque está nas Mil e uma Noites

Pílula do dia

A menina morta, de Cornélio Penna

Cornélio Penna, nascido em Petrópolis, 1896, morreu no Rio de Janeiro em 1956. Manifestou desde cedo inclinação tanto para a escrita como para a pintura. Escreveu, além de A menina morta, Fronteira, Dois romances de Nico Horta e Repouso. Autor, desde o início, de perfeita inatualidade, como disse Tristão de Ataíde. Sim: Penna saía da rota comum, da trilha adotada pelo experimentalismo modernista. A impressão epidérmica que surge – explica Roberto Vecchi – é dum anacronismo que não recompõe as fraturas com o moderno, como se o autor perfizesse um recuo para uma outra temporalidade estética, desmontando a tradição nacional.

Trechos do romance:

O senhor entrou e parou diante dela, sem conseguir derramar uma só lágrima. As pessoas ajoelhadas em torno murmuravam preces e não o olharam, nem fizeram qualquer movimento indicativo de terem notado sua chegada. Deu alguns passos, e o ruído martelado de suas botas, o tilintar das esporas, pareceram-lhe sacrílegos. Sentia, confusamente, ter trazido lá de fora a lama e a podridão dos brejos e das terras frementes de seiva presas aos seus sapatos e reconheceu não serem suas mãos dignas de tocarem aquela figurinha de cera.

Entrevista da semana: Irineu Franco Perpétuo

(Tradutor de russo e crítico de música clássica. Atuou de forma intensa como jornalista e crítico musical para veículos de imprensa como o jornal Folha de S. Paulo e Revista Bravo! Além da música clássica, Irineu Franco Perpétuo tem se destacado como tradutor de literatura russa, vertendo textos diretamente deste idioma, tais como Pequenas Tragédias e Boris Godunov, de Alexandre Pushkin, Os dias dos Turbin e O mestre e margarida, de Mikhail Bulgákov, A estrada e o monumental Vida e destino, de Vasily Grossman, entre outros. Traduziu ainda Notas do Subterrâneo de Fiódor Dostoievski e A Morte de Ivan Ilitch de Liev Tolstói para a coleção Grandes Nomes da Literatura (lançada pelo jornal Folha de S. Paulo). Escreveu, entre outros, História da música clássica, Alma brasileira: A trajetória de Villa Lobos e História concisa da música clássica brasileira.)

Evandro – A transcendência é o último andar do mistério?
Irineu – A transcendência é aquele último andar do qual gostaríamos de poder contemplar a existência. Temo, contudo, que a verdade resida no teorema de João Gilberto: “É só isso o meu baião/E não tem mais nada não”.

Evandro – Você já foi o etecetera da frase de alguém?
Irineu – Em todas as frases da vida, nunca fui além de um etecetera. E abreviado. Etc. Perdi a ilusão de algum dia chegar a ser a palavra por extenso.

Evandro – Quem nos compensará do frio da existência?
Irineu – Nada nem ninguém. O efêmero frio da existência é um breve intervalo entre os vácuos eternos da inexistência.

Evandro – E a verdade? Trancada a sete chaves num baú dentro de porão qualquer numa cidadezinha que se chama Alhures, cuja capital é Algures?
Irineu – A verdade é como os deuses gregos. Caso exista, sua aparência é demasiado aterradora para o olho humano. Quem a contempla está fadado a ser fulminado.

Evandro – E o corte no outro? Cicatriza rápido em você?
Irineu – Infligimos sistematicamente cortes no outro porque em nós eles não fazem nem cócegas.

Evandro – E o fogo de Prometeu? Deu em água de barrela?
Irineu – O fogo de Prometeu deu em cloroquina. Soubesse ele o que faríamos de seu legado, em vez de se deixar acorrentar ao Cáucaso e ter o fígado devorado por uma águia, teria dissolvido o órgão em vodca, seguindo o sábio conselho de Maiakóvski.

Evandro – Para você, hem? Só o que tem nome existe?
Irineu – Pelo contrário: hoje nos encontramos sob o domínio do inominável.

Evandro – E Deus? Que diabo é isso?
Irineu – Um luxo que não cabe no meu orçamento.

Evandro – Você vive tentando se precaver contra as próprias contradições?
Irineu – Nunca me contradigo, a não ser quando faço ou digo algo – ou deixo de fazer, ou de dizer.

Evandro – Já se acostumou com os solavancos do imprevisível?
Irineu – Na modorrenta jornada da vida, apenas tais solavancos podem nos despertar. O problema é que, via de regra, eles nos arrancam de um sono intranquilo para nos arrojar em pesadelos perturbadores.

Evandro – É possível farejar as voluptuosidades do Eventual, as luxúrias do Acaso?
Irineu – Neles fiz minha morada.

Evandro – Você, vez em quando, transita pelos obscuros becos do destrambelho?
Irineu – Se algo torna a vida suportável é sua tendência a sempre escapar do tosco e procustiano planejamento a que nutrimos a ilusão de poder submetê-la.

Evandro – E os contratempos? Catalogá-los na volumosa pasta dos percalços?
Irineu – Essa pasta é volumosa por conter a totalidade de acontecimentos da existência. Vivemos de contratempo em contratempo, enquanto somos corroídos pelo tempo.

Livro de minha autoria

Foto principal

(As fotos que abrem este blog pertencem ao meu futuro livro, Ruínas. Passei um ano fotografando paredes carcomidas pelos becos, veredas, ruas do centro, e de alguns bairros paulistanos).

As imagens apresentam uma concretude pobre e miserável, de ruína mesmo, que na sua própria deterioração encontra rasgos inesperados de um refinado expressionismo abstrato – força das paredes arruinadas e das tintas expressivas do tempo. (Alcir Pécora)

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