Hoje, entrevista com Miguel Paiva

Ontologias Mínimas

Evandro Affonso Ferreira

Hoje me deu vontade de ler alguns trechos do meu novo livro, Ontologias Mínimas.

Pílula do dia

Ensaios, de Michel de Montaigne

Resumi longo, belíssimo texto de Erich Auerbach: Seu livro trata com espantosa concretude da morte de Montaigne, da própria morte, que ele pressente e aguarda. Sente-a dentro de si, e é ela o inimigo contra o qual, enfim, toda defesa será inútil. Ela o arrancará de seu astucioso esconderijo, da arrière-boutique, e o lançará ao Nada como fez a todos antes dele. Mas ao menos não irá assombrá-lo inutilmente enquanto não chegar a hora. Montaigne é inteligente e corajoso, sabe que de nada serve desviar o olhar e fugir. (…) Mas a familiaridade com a morte não extingue a vida, não diminui a capacidade de instalar-se na arrière-boutique de modo aconchegante e confortável. Montaigne pode ser comparado a um homem que desfruta os prazeres da vida, consciente de que lhe resta pouco tempo para gozá-los; com fervor redobrado, com o talento organizativo que só a necessidade é capaz de criar, ele desfruta e saboreia o tempo de sua existência.

Trecho do livro:

Digam o que disserem, na própria virtude o objetivo último que visamos é a volúpia. Agrada-me martelar os ouvidos das pessoas com essa palavra que as contraria tão fortemente: e se ela significa um deleite supremo e extremo contentamento, é um melhor acompanhamento para a virtude do que qualquer outra coisa. Por ser mais viva, nervosa, viril, essa volúpia é mais seriamente voluptuosa. E devíamos lhe dar o nome de prazer, mais favorável, mais suave e natural, e não o de vigor, a partir do qual o denominamos.

Entrevista: Miguel Paiva

Cartunista, diretor de arte, escritor, autor de teatro, roteirista, Miguel Paiva já publicou dezenas de livros, inclusive em parceria com Luís Fernando Veríssimo, sobre as aventuras do detetive Ed Mort. Autor de Radical Chic e Gatão de meia idade. Publicou charges políticas no Pasquim, no jornal O Globo, entre tantos outros. Faz roteiros para televisão e Cinema. Escreveu musicais em parceria com Zé Rodrix, fez vários cenários e figurinos para o teatro. Genial.

Evandro Affonso Ferreira – Morrer é vislumbrar as profundezas místicas dos fogos-fátuos?
Miguel Paiva – Não sou uma pessoa mística. Sou ateu, confio na ciência, na capacidade especulativa do conhecimento. Somos uma contingência e temos que aproveitar o máximo possível o tempo que estamos vivos.

Evandro – E a solidão? É aquele invisível, ali no canto, carente de apalpamentos?
Miguel Paiva – A solidão quando não é desejada, quando vem sorrateira e nos surpreende é horrível. É desejada, ou porque realmente queremos ficar sozinhos ou porque temos onde ancorar nosso barco na tempestade, aí ela é apenas uma condição a ser desfrutada.

Evandro – É possível farejar as voluptuosidades do eventual, as luxúrias do acaso?
Miguel Paiva – São as melhores. É preciso saber perceber e aproveitar. O prazer é tudo e quando é por acaso pode até se transformar em perene.

Evandro – Viver? Você está preparada para esta emboscada?
Miguel Paiva – Vou me preparando a cada dia e usando o que já vivi para ajudar quem vem atrás.

Evandro – Reveses? Enriquecem biografias, empobrecem epitáfios?
Miguel Paiva – Enriquecem sempre. Reveses fazem parte de todos os bons roteiros senão é um tédio.

Evandro – E quando você se sente uma nau desarvorada, barco aturdido nas águas da inquietude, veículo desordenado numa estrada em declive?
Miguel Paiva – Eu consulto a previsão do tempo. Se for durar eu paro, freio, jogo a âncora e aguardo. Sempre tem uma surpresa por vir.

Evandro – Você já aprendeu, com o passar do tempo, a farejar, com antecedência, uma rua sem saída?
Miguel Paiva – A gente tenta. Já acertei algumas vezes, mas acertei mais em ver que aquela rua sem saída tinha, na realidade, uma saída. E foi bom.

Evandro – Sensação de que sua vida, vez em quando, se parece com uma parábola ininteligível, cheia de não-vereis-não-entendereis?
Miguel Paiva – Acho que não. Mas a vida na minha cabeça talvez.

Evandro – Eu sinto, você também sente que, às vezes, muitas vezes, carece de passos únicos para caminhar no sentido contrário ao unânime?
Miguel Paiva – Tento isso sempre sem fazer disso uma regra. Se fizesse seria mais uma tendência à unanimidade. Evito. Penso, logo evito.

Evandro – E esse solene cortejo de incompreensíveis e todos os seus inumeráveis-ininteligíveis apetrechos?
Miguel Paiva – É preciso entender a linguagem sempre. Perceber os sinais, adivinhar os significados, intuir os apostos, revelar os segredos. O resto, como dizia o poeta, é armazém de secos e molhados.

Fragmentos

Ouvia sempre vozes intempestivas transgredindo as leis da placidez – torcia para que as beligerâncias verbais se diluíssem na mansuetude. Procurava, inútil, decifrar aquelas algaravias belicosas, aquelas exclamações aziagas, aquele catálogo de impropérios – altercadores azômolas ausentes de contemplação. Sensação de que todos os vocábulos que emergiam de dentro daquele cômodo, ao lado, estavam coagulados de sangue. Era um casal que descendia da Discórdia, deusa dos desconcertos. Ele, criança, mesmo assim já sabia que que era descendente daquele conglomerado todo.

Livro de minha autoria

Foto principal

(As fotos que abrem este blog pertencem ao meu futuro livro, Ruínas. Passei um ano fotografando paredes carcomidas pelos becos, veredas, ruas do centro, e de alguns bairros paulistanos).

As imagens apresentam uma concretude pobre e miserável, de ruína mesmo, que na sua própria deterioração encontra rasgos inesperados de um refinado expressionismo abstrato – força das paredes arruinadas e das tintas expressivas do tempo. (Alcir Pécora)

Capa: Marcelo Girard

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