Janela Indiscreta: em tempos de pandemia o voyeurismo de Hitchcock ganha atualidade

FREDERICO MORIARTY – Dashiell Hammet e Raymond Chandler elevaram o romance policial a escala dos clássicos. A estética noir é simples e repetitiva. Ninguém é santo. Todos somos corruptos e temos um lado mal (alguns talvez só tenham este lado). Desconfie sempre das pessoas boas demais, elas são desequilibradas. Nos romances noir, a justiça é corrupta, a polícia é corrupta, os empresários são corruptos, os sindicalistas são corruptos, as mulheres são corruptas e os homens… ah, estes nunca prestaram mesmo. Nada é gratuito e destituído de interesses. O detetive é geralmente um homem que vive no underground, na tênue linha entre a sandice e a verdade aparente. Por ser limítrofe. o detetive é o que tudo vê. Por saber da podridão inerente a todos nós, ele é o cínico por excelência. A engrenagem desse mundo sem moral funciona bem, até que um crime rompe a estabilidade. Busca-se o detetive para desvendar o crime. Ele caminha até as profundezas da perfidez humana e revela as motivações e o autor do crime. Toma muita porrada nesse caminho. Revelada a trama, o mundo pode voltar ao “novo normal”. O detetive pode voltar ao seu ostracismo, com a única coisa pura que existe: o uísque. É assim em O longo adeus, O falcão maltês ou A lua na sarjeta e outras obras dos anos 30 a 60 na literatura policial. Um dos escritores de maior vendagem e menos lembrado do período é Cornell Woolrich. Quase um personagem de si mesmo. Solitário, alcoólatra, homossexual enrustido, depressivo com tendências automutiladoras ( perdeu uma perna gangrenada por falta de tratamento), Woolrich fez sucesso nos primeiros romances e trabalhou anos como roteirista de Hollywood. Seu maior sucesso? Rear Window ( ou a Janela detrás). O conto virou um dos melhores filmes de Alfred Hitchcock, o clássico de 1954, Janela Indiscreta. Woolrich é o rei do cinismo e isso transborda no filme. O escritor sabe que não há solução para os conflitos humanos, somente a morte. Tanto que ele próprio morreu solitário num apartamento, de cirrose hepática e deixando uma fortuna de US$ 10 milhões em 1968. Mas ao contrário das obras noir tradicionais, Woolrich inverteu a lógica: não é o crime que põe fogo na vida, é a vida em chamas que leva ao crime.

Cornell Woolrich. Fonte: Blog Relevo

O perfeccionismo de Hitchcock é famoso. Durante 3 meses, 50 operários da construção civil criaram o cenário do filme. Nada menos do que 31 apartamentos foram construídos em detalhes. Há uma praça central e uma estratégica saída para o mundo, que só veremos uma vez. Todo o resto da trama se passa no apartamento do 3º andar, onde vive o fotógrafo Jeffries ( interpretado pelo ator preferido de Hitchcock, James Stewart). Por ser o andar mais alto, Jeff tem visão panorâmica de todo o prédio. Além disso, será fundamental para o suspense da cena final ( nada é aleatório nos filmes de Hitchcock). Nos apartamentos defronte ao de Jeff temos a senhorita Lonelyhearts ( coração solitário), a dançarina que propositalmente exibe seus dotes nas janelas da sala. Um músico solitário e alcoólatra. Um casal de jovens noivos que passa quase a história toda fazendo sexo ( de janelas cerradas, é claro). Há ainda uma senhora de meia idade que tenta aparentar 20 anos. E um casal feliz e seu animado cãozinho. O último casal é o homem grisalho de meia idade e muito forte, Lars Thorwald (Raymond Burr) e sua esposa inválida Alice. Há mais 3 personagens centrais e que não moram no prédio: Lisa Carol Fremont, noiva de Jeff, uma mulher estonteantemente linda, rica e da alta sociedade, as femme fattale que não podem faltar nas histórias de Hitchcock, sempre loiras como a sua esposa morena. Jeff comenta várias vezes para Lisa que é um grande erro o casamento dos dois, ele é pobre, bem mais velho e sem atrativos. A empregada Stella ( interpretada pela atriz Thelma Ritter) , o alter ego de Cornell Woolrich. Suas tiradas sardônicas e cheias de cinismo são um caso à parte na trama. Numa delas ela diz ” se vocês fizessem isso no passado teriam os olhos furados em ferro quente”. Logo depois ela solta uma análise freudiana ao dizer que em vez de bisbilhotar a vida alheia de fora, eles deveriam entrar no íntimo das pessoas para entender o que se passa. O último personagem é o tenente Thomas ( Wendell Corey) que virá para reestaelecer a ordem.

James Stewart, Grace Kelly e mestre do terror no set de filmagem.|Fonte: arquivos da Universal

A história é banal. E passamos pelo menos metade dela acreditando ser invenção da cabeça de Jeff. Explico: no último trabaljo como fotógrafo, Jeff sofre um acidente e engessa a perna toda. Terá de ficar numa cadeira de rodas ou numa cama por pelo menos 9 semanas. Sem andar, sem poder sair do prédio, recebendo apenas duas visitas em dois meses: a noiva Lisa e a empregada Stella. Nada mais parecido com o que vivemos entre abril e junho de 2020, confinados na Quarentena da Pandemia. O tempo passa lento. ( se não assistiu, pule o espóiler a seguir). Talvez por isso Hitchcock tenha escolhida como sua aparição surpresa, a cena em que mexe no relógio do músico solitário. Todos nós ficamos eufóricos, depois cansados, em seguida deprimidos e por último em desespero. Jeff podia estra passando por isso e sua história de que Thorwald havia matado a esposa inválida era pura imaginação de alguém que podia passar o dia todo espionando a vida alheia. Interessante notar que emgeral o voyerismo tem um claro componente sexual. Penetrar no outro. Mas o protagonista de Hitchcock sequer liga para o contorcionismo sexy de Lonelyhearts. Jeff tem os olhos no deus Tânatos não em Eros. Certo ou não, Hitchcock consegue nos transformar todos em voyers juntos com Jeff e sua câmera fotográfica que permitia ir mais fundo na cena, como se nós pudéssemos também penetrar mais fundo na alma humana. A trilha sonora, os acontecimentos em sequência ( uma janela que se cobre e nunca nais se abre no quarto de Alice, um cáozinho que revira o jardim e na cena seguinte desaparece, uma imensa mala nas mãos de Thorwald), as histórias perfeitas que se desfazem ( a bailarina caindo em choro, o noivo que vivia no sexo reclamando do casamento, a decepção de Jeff com seu chefe); tudo nos leva a crer que sim, houve um assassinato naquele prédio.

A cena mais tensa. Luci na sala de Thornwald. Universal Pictures.

Hitchcock é imbatível na narrativa em crescendo. Hitchcock é perfeito no enquadramento dos personagens para criar mais tensão no espectador. Hitchcock é mestre em demonstrar que como todos somos maus, qualquer pessoa comum pode cometer um crime. ( leia nosso artigo sobre Vertigo de Hitchcock aqui). O preço que pagamos em sermos bisbilhoteiros da vida alheia, como muito de nós fomos na Pandemia, é caro. A cena final, em que Jeff, inválido e só no apartamento é um primor. Um passo pesado sobe os três andares lentamente. O som e a tensão crescem com a proximidade do algoz. È o ensurdecedor barulho da morte subindo as escadas, cada vez mais forte, a cada degrau fica mais aterrorizante. Jeff luta, não porque seja o mocinho da história, mas somente pelo instinto de sobrevivência. Assim como todos nós lutamos contra a Covid 19 sem saber o tamanho, o poder e a hora em que o inimigo iria nos atacar. Mas como em todo bom filme de terror, tenha certeza de que o mal está derrotado definitivamente, caso contrário ele virá com uma nova tentativa de tirar tua vida, como a Covid 19 que ressurgiu. Ressurgiu ou nunca a derrotamos? Deixo por último uma das dezenas de influências culturais de Hitchcock, a famosa capa de Physical Grafitte do Led Zeppelin. O famoso álbum das janelinhas em que podemos espiar algumas vidas.

Led Zeppelin. Qualquer semelhança é mera coincidência

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